sábado, 23 de maio de 2015

Velhice

Um texto em homenagem aos amiguinhos Boretti, Kola e Guaianases, que estão me alcançando na marca dos 24 anos neste mês. Esta última (Guaianases) fica mais idosa já hoje.

Ontem eu estava sentado num banco da faculdade, aguardando duas pessoas que tinham ido ao banheiro, quando um rapaz alto e forte - provavelmente um estudante - se aproximou de mim e me cumprimentou:

- E aí mano, de boa?

- T-tudo bem. - disse eu, confuso por aquela inesperada abordagem. Ansiando que ele se afastasse tão rapidamente como se aproximara. Queria ficar só.

- Cara, na boa, cê não tem uma "seda" pra me arrumar aí, não?

Respondi que não tinha e ainda pedi desculpas por isso¹. O rapaz se afastou depois, e eu fiquei pensando que eu devo estar com uma aparência muito velha pro cara pensar que eu me acabo na maconha. Afinal, tem as irmãs (freiras) na faculdade, e duvido muito que ele teria pedido uma seda pra elas. Se veio até mim, é porque desconfiou que eu curtia um cigarrinho do capeta.

Aí eu comecei a pensar... eu sei que o tempo está passando, e que ele não está sendo nada generoso comigo. Mas também não imaginei que estivesse tão destruído assim. E comecei a lembrar de outras coisas que acontecem no dia-a-dia que fazem com que eu me sinta velho. Como quando a molecada acaba jogando a bola de futebol pra fora do condomínio bem na hora que eu estou passando pela calçada, e ao devolvê-la, ouço um "valeu, tio!".

Você percebe que está ficando velho quando come uma fritura e sente queimação logo em seguida, e fica passando mal. Ou quando está viajando de ônibus e começa a sentir dor nos pés, por causa de má circulação. Ou então quando revê um parente mais jovem - em geral, o filho de algum primo - e diz, abismado: "nossa, mas como que você cresceu!". E outras expressões passam a fazer parte do seu linguajar cotidiano, como "na minha época", "eu sou do tempo" e blá blá blá.

Ficar mais velho é fazer alguns exercícios nem tão pesados assim, mas amanhecer quebrado no dia seguinte. E também no outro, no outro e no outro. Uns quatro dias até se recuperar da maratona de atividades físicas. Ficar mais velho também é comer bastante e ver toda a gordura se concentrar na barriga, tal como no sistema capitalista, em que os recursos estão concentrados para uns poucos, que têm muito, e a grande maioria tem pouco.

Ficar mais velho é começar a fazer cálculos matemáticos, de quanto tempo já passou desde que o evento X aconteceu, ou então começar a especular se 24 anos correspondem a 1/4 da minha vida, 1/3, ou, ainda mais assustador, 1/2?

Ficar mais velho é perceber que você nem está tão velho assim, afinal de contas, ainda tem muita coisa pra viver. Em compensação, te faz pensar que sua amiga da mesma idade e que ainda está solteira realmente vai ficar pra titia. A menos que você (eu) arrume um véio careca e desdentado pra cuidar dela².


¹ Pensando melhor, eu deveria ter dito que havia acabado.

² Esse texto está uma bosta, mas não estou nem aí, pois minha vida também está.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Desabafo

Brasília, 04 de maio de 2015.

Caros fanáticos, seguidores do mundialmente famigerado blog Pra Gente Rir,

Venho por meio desta postagem fazer um desabafo. Primeiro, todos devem ter percebido que falhei na publicação de um texto na segunda quinzena de abril. De fato, tinha intenções de realizar uma publicação no final do mês passado, mas devido a problemas porque eu não quis mesmo, vão achar ruim? acabei não postando nada.

A correria está grande aqui na capital nacional. Mesmo com alguns esboços de publicações já prontas, não encontro tempo para finalizá-las, dar um acabamento final, para então publicar. A faculdade vem sugando as minhas energias. Como todos sabem, sou estudante de humanas, e as manifestações aqui não param nenhum dia. Também estou vendendo minhas artes dentro do Campus (pulseirinhas de miçangas, que aprendemos a fazer no curso. Quem quiser comprar, é só entrar em contato comigo). Além disso, também estou me introduzindo agora no comércio de produtos naturais para fins recreativos leia-se marihuana, mano, então não tenho tempo nem de estudar direito.

Gente, mas acredito que tudo isso é só uma fase. Em breve volto com tudo com postagens cada vez mais interessantes. E em breve, voltaremos com nossas incríveis promoções, onde você além de ler textos maravilhosos escritos por mim, ainda pode faturar um super prêmio aqui no Pra Gente Rir.

Portanto, eu imploro, não abandone esse blog, senão eu entro em depressão e me mato. Continue nos acompanhando, aproveite a oportunidade para reler alguns textos antigos, como esse daqui, esse aqui ou até mesmo esse aqui.

Uma ótima semana a todos e até logo!

Kily González
Presidente-Executivo
Pra Gente Rir

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Estereótipo, Preconceito e Discriminação

Uma postagem factuada em baseados reais.

Um dia desses, eu ouvi a seguinte pérola: “Como assim você não é ateu?”.

A pérola em questão foi proferida por uma menina do meu curso, que se mostrava inconformada ante a descoberta de que eu, Kily, não sou ateu. No momento do ocorrido, eu também fiquei surpreso – no meu caso, surpreso pela surpresa dela. Fiquei tão surpreso que só depois que voltei pra casa que fui refletir sobre o ocorrido. Afinal de contas, quais elementos embasaram a teoria da jovem, para acreditar que eu de fato era ateu? Tá certo que eu não saio gritando aos quatro ventos qual é a minha crença. Mas também não ofereço nenhuma evidência em contrário, que leve alguém a crer que sou um descrente.

Essa garota fez uso de um estereótipo para me classificar como ateu. Os estereótipos nada mais são do que generalizações que fazemos sobre pessoas, grupos sociais ou situações, com base em esquemas que temos armazenados em nossa mente, e que facilitam a compreensão do mundo à nossa volta. No entanto, apesar de útil para guiar nossas ações no dia-a-dia, os estereótipos também possuem seus problemas. A maior parte dos julgamentos estereotipados que fazemos tem como alicerce alguma crença cultural, que não necessariamente se sustenta na realidade. Por exemplo, quando afirmamos que todo japonês necessariamente é inteligente, não estamos considerando o caso do Sr. Shiguefuzi, um nissei que tem raciocínio lógico de uma toupeira e extrema dificuldade na resolução de problemas gerais. Outro exemplo é o de quando julgamos que todo baiano é preguiçoso, até nos darmos conta de que a organização social da Bahia também gira em torno do trabalho (executado, em sua maioria, pasmem, por baianos). Ou ainda, quando acreditamos que todo corintiano é bandido... bom, aí eu devo reconhecer que esse é um estereótipo verdadeiro.

Mas voltando a história de eu ser (ou não ser...) ateu (... eis a questão), a menina continuava olhando incrédula para mim, depois de descobrir que eu não era ateu. Ela insistiu, com semblante horrorizado:

- Não, não, isso não é possível! Você tem que ser ateu! Olha só pra você!

O “tem que” foi dito com tanta ênfase que poderia ser substituído por “precisa” ou por “deve”, sem comprometimento do sentido da frase. “Você PRECISA ser ateu”. Segui o comando dela e tentei olhar para mim mesmo. Como ali não havia espelho, olhei para baixo, contemplando as roupas que cobriam meu castigado corpo: uma camiseta preta, uma calça jeans surrada e um tênis igualmente (e cumulativamente) preto e surrado. Fora a minha indumentária, também compõem o meu visual o meu cabelo comprido e a minha barba desleixada de estudante de humanas. Entretanto, a meu ver, nenhum desses elementos possui a qualidade de ateísmo intrínseca a eles.

- Sinto muito te desapontar, mas eu não sou ateu. – expliquei, do modo mais polido possível, realmente achando que eu devia um pedido de desculpas para ela, e temendo nova represália moral ou até mesmo uma agressão física.

- Ah, você deve ter cometido algum engano, Kily. Tem certeza que não é ateu? Absoluta? – confirmei com um movimento de cabeça. – Eu tinha certeza que você era ateu, roqueiro e satanista.

Decidi ficar calado e não comentar o contrassenso que era tal classificação, incluindo ateu e satanista ao mesmo tempo. Ao invés disso, brinquei:

- Na verdade eu sou judeu, pagodeiro e nazista.

Minha piada não surtiu o efeito desejado. A menina foi embora. Fim.

Apesar de eu não ser ateu, roqueiro, nem satanista, devo reconhecer que eu preencho em alguma medida aos estereótipos que as pessoas têm sobre as duas últimas figuras. Com meus cabelos e barba compridos, e sempre com uma camiseta preta, acabo passando por alguém que curte um rock ‘n roll. A única coisa que não repararam ainda é que minhas camisetas pretas são lisas, isto é, sem estampa. Nunca apareci em lugar algum com uma camiseta de banda, tipo Slipknot, Guns ‘n Roses ou algo do gênero. Mesmo assim, certa vez, um cara que estudava comigo se aproximou de mim e falou:

- Cara, você se parece muito com o Robson¹.

- Desculpe, mas não conheço esse elemento. – respondi.

- Cara, o Robson, guitarrista dos Robinstones.

- Continuo sem saber quem é. Não conheço tal banda também.

- Ô loco! Como não? Que instrumento você toca? – envergonhado, assumi que não sabia tocar nenhum. – Ah, fala sério, qual você toca? – e eu insisti que não sabia tocar sequer berimbau, que só tem uma corda, ou mesmo uma gaita caipira, que é praticamente só assoprar que o som já sai em forma de música.

A ideia aqui não é criticar os estereótipos das outras pessoas, mas propor uma reflexão sobre ele. Vou contar um episódio que aconteceu comigo mesmo há uns 3 anos, e mostra bem como é sério esse negócio do estereótipo. Eu estava voltando da faculdade, quando desci do ônibus. Já era bem tarde, a rua estava deserta, e eu tinha que caminhar cerca de 300 metros da parada de ônibus até o prédio onde eu morava. Enquanto caminhava, vi uma pessoa lá longe, também caminhando na direção contrária, isto é, em minha direção.

Na hora gelei. Meu coração acelerou. Já comecei a pensar no pior. Comecei a orar a Deus, pedindo pra ele perdoar todos os meus pecados e dizendo que se ele me livrasse daquele problema dessa vez eu jurava que eu realmente pararia de vestir lingerie feminina. E enquanto eu andava, torcia para que a pessoa que vinha na outra direção estivesse de camisa azul. Isso porque onde eu moro, camisa azul é uniforme de motoristas e cobradores de ônibus. E é aqui que está o meu primeiro estereótipo: quem trabalha é cidadão de bem, não comete crimes e não causa problemas para a sociedade.

Alguns segundos depois, para meu desespero, percebi que o sujeito que vinha em minha direção, além de não estar de azul, estava de chinelo, com um boné aba reta, uma bermuda de mano, e de quebra possuía a tez negra. Naquele momento, tive certeza de que iria morrer. Aqui estão outros estereótipos (é um conjunto deles, mesclados): uma pessoa que está na rua depois das 11 da noite e não está com mochila nas costas, nem com uniforme de cobrador, provavelmente não está fazendo coisa boa na rua. Se estiver vestido igual mano então, na certa é bandido. E se for negro, meu amigo, pode se preparar pra abotoar o paletó. Perceba que neste caso o estereótipo foi um pouco além e se tornou um claro preconceito, pois além das generalizações sem evidências, envolve atitudes negativas a respeito de determinadas características. Se eu pudesse resumir a Escala Subjetiva de Medo do Kily, ela ficaria mais ou menos assim:

- a roupa da pessoa é azul: é cobrador ou motorista de ônibus. Logo, nenhum medo;

- a roupa da pessoa não é azul: sinal de possível perigo. Logo, sinto medo;

- a pessoa está com boné aba reta e bermuda de mano: assalto na certa. Logo, sinto pavor;

- além do item anterior, a pessoa é negra: latrocínio garantido. Logo, me borro todo.

O desfecho da história é óbvio, dado que três anos depois, estou aqui postando esse texto: não fui assaltado, tampouco estuprado, e nada aconteceu. Apenas passei ao lado do rapaz negro, que nenhuma atenção deu para mim, e cheguei são e salvo em casa. E isso fez com que eu me sentisse muito mal, pois eu me percebi um tremendo preconceituoso naquele dia.

O terceiro elemento que faz parceria com o estereótipo e com o preconceito é a discriminação. A discriminação, diferente do estereótipo e do preconceito, é uma ação propriamente dita, muitas vezes embasada nos outros dois. A questão é que o estereótipo e o preconceito são pensamentos, ideias, valores, que não necessariamente são externalizados. Já a discriminação necessariamente é expressa através de comportamentos. E apesar de ser a mais explícita das três – no sentido de que acontece de modo que todos possam observar – ela deve ser também a mais velada de todas. Afinal, os estereótipos e até mesmo preconceitos vivem sendo expressos através de piadas. Mas a discriminação é um assunto tabu, pois ninguém quer ser chamado de racista, de misógino ou de homofóbico.

A discriminação pode ocorrer de formas sutis, como na hora de escolher sentar ao lado de uma pessoa no ônibus, só para não ter que sentar ao lado de outra, que, no caso, possui alguma característica “discriminável”. Suponhamos que nesse exemplo, a pessoa a quem evitei seja um homem com a barba por fazer, o cabelo despenteado e as roupas surradas. Se eu sinto nojo dele, porque julgo que a aparência dele denota pobreza e sujeira, a minha ação de afastamento foi preconceituosa. Outra forma um pouco menos sutil é a pessoa que diz: “não, eu não sou uma pessoa preconceituosa. Eu até tenho um amigo gay”, como se estivesse fazendo um favor para o gay (que ao se assumir publicamente como gay, perde sua dimensão humana, deixa de existir enquanto pessoa, e passa a ser somente um gay), ao ser amigo dele. Mas a discriminação pode ser ainda mais explícita, como infelizmente ainda acontece na Europa, onde a torcida chama os jogadores brasileiros de macacos e ainda atiram banana dentro do campo em alusão ao símio que aprecia essa iguaria.

Esse texto procurou explorar de modo bem humorado, o tripé estereótipo-preconceito-discriminação. Ao meu ver, ter estereótipos ou preconceitos não são o grande problema. O problema é tê-los e não saber/assumir que tem. É negá-los. Uma pesquisa feita pela Folha de São Paulo em 1995 investigou a temática do racismo. Na pesquisa, 80% dos respondentes afirmaram que acreditavam que ainda existia racismo no Brasil. Porém, quando perguntados se já haviam discriminado alguém, a maioria dos pesquisados responderam que não. O que depreende-se disso? Que o Brasil é um país racista, mas sem racistas. E essa negação pode levar a discriminação, o último e mais perigoso estágio desse tripé. Algumas pessoas podem alegar que não sabiam que eram preconceituosas. Sinto dizer, mas o desconhecimento não muda os efeitos da discriminação sobre suas vítimas. O primeiro passo rumo a qualquer mudança é reconhecer que o problema existe, e que ao contrário do que se pensa, ele é muito sério, e afeta toda a nossa sociedade.

¹ Robson aqui representa o nome de um músico. Como não me recordo qual músico o cidadão se referia quando me disse isso, preferi colocar um nome fictício. O mesmo se sucede com o nome da banda citado na sequência do texto. Vale ressaltar que, apesar da minha ignorância no tema, ao que tudo indica, se tratava de um nome expressivo no cenário do rock mundial, o que tornava a meu desconhecimento quase uma blasfêmia.

terça-feira, 31 de março de 2015

Papel Higiênico

Um texto escrito no banheiro.¹

Cá estou eu pensando: “qual será o lado correto do rolo de papel higiênico?”.
Pode parecer uma pergunta tola para alguns, mas eu a considero extremamente relevante – eu diria, uma das perguntas filosóficas mais importantes da história da humanidade. Pra quem não sabe, o papel higiênico é uma ferramenta muito importante na vida de qualquer pessoa. Desde o mais pobre até o mais velho. E o uso dessa ferramenta começou há muito, muito tempo atrás. Inicialmente, o papel higiênico usado nada mais era do que folha de alguma planta. Algumas vezes, nossos ancestrais utilizavam folhas com propriedades urticantes. E aí o resultado desse uso não era muito legal.
O tempo passou, passou e passou mais um pouco, até chegarmos na Era Moderna do Papel Higiênico. Com o declínio do feudalismo e o advento do capetalismo¹, o tipo de papel higiênico se tornou motivo de status social. Enquanto a burguesia já utilizava o atual papel higiênico extra macio, de folhas duplas e com cheirinho de flores (pra deixar um odor agradável na pele dos consumidores), o proletariado utilizava sabugo de milho recém consumido para realizar suas limpezas – num típico reaproveitamento de material por parte dos menos abastados. E, abaixo deles, os miseráveis, que faziam das próprias mãos suas ferramentas de limpeza pós-uso da latrina.
Felizmente, o papel higiênico se popularizou e tornou-se um recurso disponível até para a parcela mais pobre da sociedade (da qual faço parte). No entanto, é um produto cuja venda é realizada de forma abusiva pelos fabricantes, que competem pela venda de um material de má qualidade, anunciado como sendo “o que há de melhor e mais moderno no mercado atualmente” e sob a alegação de uma falsa promoção. Já me cansei de ver no mercado as promoções do tipo “Leve 16 e pague 15” (inclusive, já vi até o antológico “Leve 15 e pague 16”). O que os consumidores precisam saber é que a qualidade do material é tão pífia que não vale a pena essa suposta economia.
Inicialmente, os rolos de papel higiênico não eram afixados em nenhum lugar específico. Alguns optavam por deixá-lo no chão. Outros, na mesa da cozinha. E essa falta de padrão gerava alguns transtornos para os consumidores. No primeiro caso, o vira-lata da família podia ir lá e comer todo o papel higiênico, fazendo uma enorme bagunça no banheiro. No segundo, o usuário, desprevenido, podia acabar usando o banheiro, sem saber que não havia munição disponível para seu usufruto, assim que encerrasse sua obra. Então, um cara muito inteligente, cujo nome não pode ser pronunciado em voz alta sem que a pessoa morra, teve a ideia de criar um suporte para manter fixo o rolo de papel higiênico. Diz a lenda que na verdade esse cara roubou a invenção de um colega seu, o verdadeiro idealizador do projeto. Não se sabe se isso é verdade ou mito. Tudo o que se sabe é que o suposto criador do invento, cujo nome não pode ser pronunciado em voz alta sem que a pessoa morra, morreu depois de concluir sua invenção, afogado na própria privada – e, como ainda diz a lenda, logo após pronunciar seu próprio nome em voz alta, cumprindo assim a supracitada profecia.
Com a súbita morte do falecido inventor desse genial invento recém inventado, uma questão ficou sem resposta: qual é o lado correto do rolo do papel higiênico? A ponta que puxamos para utilizar o produto deve ficar na parte de cima ou de baixo do rolo?
Uma pergunta, à primeira vista tão trivial, tem sido objeto de análise de inúmeros cientistas, que almejam alcançar uma resposta definitiva para a polêmica questão, baseada em evidências empíricas. E é uma pergunta de grande relevância social, dado que o consumo de papel higiênico cresce a cada ano, com preços exorbitantes, preços esses que sobem mais do que o da gasolina e o da energia elétrica juntos. Só podemos concluir uma coisa disso: alguém está ganhando muito dinheiro com essa desinformação. E, provavelmente, temo dizer, esse alguém é um chefão da indústria do papel higiênico.
Visando responder ao questionamento da área, os pesquisadores se debruçam sobre três indicadores, para chegar numa resposta definitiva. São eles: a) facilidade do manuseio; b) economia do produto; c) estética da configuração escolhida. E, a disputa, seguindo esses parâmetros, segue empatada.
Quando o assunto é facilidade do manuseio, a Corrente “A” leva a melhor. As últimas pesquisas apontam que com a ponta para cima, as chances da ponta se romper é menor, o que ajuda o usuário a utilizar o produto. Em contrapartida, no quesito economia do produto, a Corrente “B” leva a melhor. De fato, parece existir uma relação inversamente proporcional entre a facilidade de manuseio do produto e a quantidade de produto utilizado. Segundo defensores da Corrente “B”, que preconiza que a aba móvel deve ficar para baixo, isso impede desperdícios e facilita que a linha pontilhada destaque o papel, quando assim for desejado pelo usuário. E, finalmente, quando chegamos no critério de desempate, a estética da configuração escolhida é o mais polêmico de todos. E é nesse quesito que os estudiosos da área mais têm se dedicado, pois é nele que parece que há uma esperança para ambas as correntes desempatarem o embate, e venceram essa disputa, que já dura mais de cinco décadas no meio científico. No entanto, a questão estética é influenciada pelo design do papel higiênico de cada fabricante. E como o design varia de empresa para empresa, fica difícil chegar a um consenso. Teóricos da área afirmam que deveria haver uma síntese epistemológica, visando estabelecer um parâmetro cientificamente válido e ontologicamente consistente para que todas as fábricas adotem, ao confeccionar seus produtos. No entanto, outros teóricos acreditam que isso seria um retrocesso, ao abrir mão da pluridiversidade do fenômeno papelesco higienesco.
Enquanto os cientistas não encontram uma solução, continuamos acompanhando esse embate, com importantes consequências para toda a sociedade. Espero que uma solução ocorra em breve, para que os preços desse produto caiam ainda mais e para que deixemos de ser explorados pela terrível indústria do papel higiênico.


¹ Agradeço a Tampinha pelas ricas contribuições e sugestões feitas durante a confecção desse texto. Dedico a ela essa publicação. O termo "capetalismo" é uma sugestão que tem a marca registrada dela. É um termo que se refere ao sistema socioeconômico criado pelo capeta.



Procuradas pela produção do Pra Gente Rir, apenas uma das correntes
sobre o Dilema do Papel Higiênico foi encontrada para expressar sua
opinião sobre o tema. Acima, segue uma ilustração que mostra o posicionamento
dessa corrente teórica.

quinta-feira, 19 de março de 2015

24

Uma postagem heterofóbica.

Domingo passado eu completei 24 anos. Ou, como diria o escritor George R.R. Martin em suas narrativas, foi comemorado o vigésimo quarto dia de meu nome. É aquele aniversário em que meninos recebem gracejos junto às parabenizações, com frases que dizem "o ano da decisão", "ou vai, ou racha" dentre outros. Pra quem não sabe, no Brasil, o 24 é popularmente considerado número de viado.

Agora, muito se engana quem acha que eu fico ofendido quando alguém insinua qualquer coisa a respeito da minha (as)sexualidade, sobretudo por causa de um número. Foi-se o tempo de escola, quando eu era adolescente, em que os primeiros dias de aula eram vivenciados com angústia, para saber se eu escaparia da humilhante atribuição do número 24 na chamada da lista de alunos (por duas vezes eu foi o 23). Afinal de contas, todo mundo sabe, se você for o 24 na chamada, automaticamente, você é gay. Porque, na matemática, o principal axioma que permeia esse campo do conhecimento é o de que a homossexualidade é uma característica intrínseca e indissociável deste número. Entretanto, essa teoria não é aceita de modo unânime e inconteste pela comunidade científica. Há quem diga que ainda não foi definitivamente provado que o número vinte e quatro possui em si o princípio ativo homossexualizante. Tudo o que existem, segundo os adeptos dessa corrente, são indícios. Inclusive, um doutor em farmácia afirmou recentemente que tomar 24 gotas de qualquer medicamento não “enviada” mais uma pessoa do que tomar 23 ou 25 gotas do mesmo medicamento. Bem como, dizem os estudiosos do assunto, calçar sapato tamanho 24, ter 24 no número do RG, do celular ou até mesmo tatuado no bumbum não faz de ninguém um gay.

Muitos levam tão a sério essa brincadeira sobre o número 24, que inventam desculpas para não assumir seus 24 anos. "Estou fazendo um quarto de século menos um", dizem os espertinhos dos números (sobretudo aqueles que já leram Malba Tahan) ou "Vou fazer 23 anos duas vezes, depois salto direto para o 25". Ao contrário dessas pessoas, eu digo que assumo os meus 24 anos com muito orgulho. Primeiro, porque ter 24 anos pra mim não significa nada mais além do fato de que faz 24 anos que nasci. Segundo, porque é ótimo fazer 24 anos! Pense bem... existe apenas uma opção para quem não quer fazer 24 anos, que é a de não sobreviver até completar tal idade. E como eu gosto de estar vivo, é com muito orgulho que assumo que completei minha vigésima quarta primavera (que, em tese, é a vigésima terceira, pois eu nasci no verão). Esse texto é dedicado a todos os nove-um (91) que, assim como eu, já passaram ou passarão pelo ritual dos vinte e quatro anos em 2015, se tudo der certo. Parabéns pra nóis!


P.S. ah, o texto original terminava ali em cima. Mas, como no domingo ocorreu um fato atípico, não posso deixar passar em branco aqui... Gostaria de agradecer a todo o povo de Brasília e do Brasil inteiro que foi para as ruas para celebrar meu aniversário e me homenagear. Recebam o meu mais sincero obrigado!


Multidão aglomerada em frente ao Congresso Nacional, para prestar homenagem a mim.


Fãs mostram cartazes com demonstrações de carinho.


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Metacognição

Para Senhorita Rocha e para minha amiga de Guaianases.
Para minha amiga de Guaianases e para Senhorita Rocha.

Essa semana eu andei de avião pela primeira vez na minha vida. Durante o voo, alguns pensamentos um tanto obsessivos permearam a minha mente. E é sobre eles que quero refletir nessa postagem.

Pra quem não sabe, a metacognição é a capacidade inerentemente humana de refletir sobre os seus próprios pensamentos. É como se fosse o pensamento do pensamento. Sendo assim, vou contar um pouco sobre o que pensei, e sobre o que penso sobre tais pensamentos.

Ao entrar no avião, comecei a emitir vários respondentes, tais como tremores, sudorese, taquicardia, enurese diurna e copracrasia, todos eliciados pelo medo da experiência que me aguardava. Por algum motivo, temos a falsa sensação de que, ao voarmos pela primeira vez, nossa chance de morrer aumentou substancialmente, a um nível crítico, se comparado com outras experiências de nosso cotidiano. É como se acendesse um sinal vermelho de perigo dentro de nós, avisando que corremos um grande risco de finarmos.

Bom, eu sou um cara inteligente. Eu sei refletir sobre as coisas. Veja bem, recentemente, temos visto acidentes com aeronaves com uma certa frequência. Mesmo assim, se calcularmos no Brasil, o número de voos comerciais que são feitos saindo de todos os aeroportos do país, e que chegam em seus destinos com segurança, e contabilizarmos também aqueles com algum acidente fatal, veremos que é um número irrisório. Não faço a menor ideia de como fica essa estatística, mas acredito que fique bem abaixo de 0,01% de voos que terminam em tragédias. Sendo assim, não há motivos racionais para ficar com medo da experiência “andar de avião”.

Mas vamos abrir um precedente e considerar que esse argumento é inválido, e que de fato as chances de se morrer num dia normal, que são de 0,0001% sobem para assustadores 5% (isto é, a cada vinte voos que decolam, é provável que pelo menos um deles seja vitimado por uma tragédia). Então, considerando que o perigo que corremos num voo é real, o medo passa a ser justificado? Pensemos no medo segundo seu valor adaptativo. Pra quem não sabe, do ponto de vista evolutivo, o medo tem duas funções básicas para qualquer espécie animal: preparar seu organismo física e emocionalmente para lutar ou fugir, frente a um inimigo ou situação de perigo real. Em nosso exemplo hipotético, qual é o perigo real? A queda do avião. Considerando esse perigo real, de qual forma o medo pode nos auxiliar a preservar nossas vidas? Podemos lutar contra a queda do avião? Podemos de alguma forma fugir, saltar da aeronave, contornando dessa forma, o risco de morte?

Acredito que com esses dois argumentos – o argumento estatístico e o argumento da ineficácia funcional do medo – eu consigo convencer qualquer um de que o medo é inútil nessas situações. Afinal, é improvável que aconteça algum acidente. E, se acontecer, é improvável que o medo seja a variável determinante no desfecho da tragédia – a saber, sua sobrevivência ou sua morte.

Mas aí que vem o X da questão, que mesmo depois dessa metacognição, prevalece: mesmo sabendo disso tudo, na hora H, quando o avião decola e perde contato com o solo, como fazer para que o medo não tome conta de nós? Eis o problema que eu ainda não dei conta de solucionar. Talvez, a melhor solução seja tomar um calmante e dormir durante o voo. Torcendo, é claro, para que aquela não seja a última vez que você vai dormir.


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

O Chaveiro

Este texto segue um estilo teatral, nonsense. Para ler outro texto teatral nonsense já publicado neste blog (este outro pelo R), clique aqui. Meus agradecimentos a Srta. Rocha pela inestimável ajuda e comentários tecidos na fase de elaboração deste texto. Para conferir os trabalhos de minha amiga, acesse o blog dela clicando aqui.

Cena Única

Local da cena: Loja do Chaveiro. Um pequeno ponto comercial, composto de um balcão de vidro, onde estão expostos vários modelos de chaves e de fechaduras. Do lado de dentro do balcão, está o chaveiro, confeccionando a cópia de uma chave. Na parede ao fundo, dois papeis A4 estão pregados na parede. Num deles consta a tabela de preços dos serviços prestados pelo chaveiro e noutro, em letras maiúsculas, ocupando boa parte da página, alinhado à esquerda, constam os dizeres: “NÃO FASSO FIADO”. Uma porta dá para o fundo da loja, inacessível ao público. Do lado de fora do balcão está um cliente, de pé em frente ao balcão, aguardando a conclusão da cópia pelo chaveiro.

CHAVEIRO – Já estou terminando sua cópia, amigo. É dois segundos.
CLIENTE 1 – Espero que dessa vez dê certo. Já é a terceira vez que tenho que retornar aqui na sua loja porque uma chave que o senhor me copia não entra na fechadura da porta de casa.
CHAVEIRO – Eu sinto muito pelo transtorno. Dessa vez vai funcionar, amigão.
CLIENTE 1 – É o que vamos ver.
(Entra outro cliente na loja)
CHAVEIRO – Boa tarde, amigão.
CLIENTE 2 – Boa tarde. Você tem algum DVD do Chaves?
CHAVEIRO – Tenho sim. Tenho os volumes 1, 2 e 3. Sai 5 dilmas cada.
CLIENTE 2 – E se levar os três tem algum desconto?
CHAVEIRO – (Pára o trabalho e olha para o Cliente 2) Olha, se o senhor levar os três eu faço um preço bom pro senhor. De vinte dilmas deixo pra quinze pro senhor, no pagamento à vista.
CLIENTE 2 – Então fechou. Eu vou levar.
CHAVEIRO – (Abandona seu trabalho de cópia da chave e pega os três DVDs numa gaveta, coloca numa sacola e entrega pro cliente. O Cliente 1 observa a cena incrédulo, por ter sido passado pra trás no atendimento) Tá aqui, amigão!
CLIENTE 2 – Beleza. (Entrega uma nota de vinte reais para o chaveiro)
CHAVEIRO – O senhor não tem trocado, não?
CLIENTE 2 – (Apalpa o bolso da camisa social e em seguida a enfia no bolso, à procura de dinheiro) Vixi, o pior é que eu não tenho. Tá ruim de troco?
CHAVEIRO – Então, eu até tenho troco, mas tá na minha gaveta e ela tá trancada e eu perdi a chave.
CLIENTE 2 – Caramba, que merda, hein? Pô, eu conheço um chaveiro muito bom, o cara é ponta firme, vou te deixar um cartãozinho aqui. (Tira um cartão do bolso e coloca em cima do balcão)
CHAVEIRO – Valeu, amigão.
CLIENTE 1 – Deixe um cartão pra mim também.
CLIENTE 2 – Toma. (Entrega um cartão para o Cliente 1) Bom, e como fazemos? O que você tem aí de 5 reais? Mais algum DVD do Chavinho?
CHAVEIRO – Tenho não, amigo. O volume 4 tá em falta, a procura tá sendo grande e eu não tive tempo de fazer mais cópias dele ainda. Mas eu tenho aqui um DVD da Kelly Key, com uma coletânea de canções dela mais o ensaio dela na Revista Playboy.
CLIENTE 2 – Opa, pode ser. Me passe ela aqui. (Pega o DVD passado pelo chaveiro) Agora só não errar o presente de aniversário do filhão, né gente? (diz rindo, dando uma cotovelada no Cliente 1, este contrariado pela demora) Até mais pessoal! (Sai da loja)
CHAVEIRO – Até! (olhando para o Cliente 1) O seu o que que era mesmo?
CLIENTE 1 – (Gritando) A chave bendita!
CHAVEIRO – Ah, sim. Sim. Aqui está, prontinha. A cópia e a original que o senhor me trouxe de modelo. (Entrega as duas para o Cliente 1) São dez paus.
CLIENTE 1 – (Gritando) Dez paus por uma chave que eu já paguei e não funcionou?
CHAVEIRO – Olha, calma, amigão. Eu tive meus gastos, essa é a terceira chave que eu gasto para resolver seu problema. O senhor precisa entender o meu lado também.
CLIENTE 1 – Tudo bem, já chega dessa ladainha. Mas é bom que funcione dessa vez. (Tira um baralho do bolso e começa a folhear as cartas) Hum, mas que droga. Está faltando o dez de paus desse baralho, acho que tirei ele quando fui jogar truco.
CHAVEIRO – Não tem problema, faz por sete pro senhor, pra melhorar pro seu lado e pra ficar bom pra nós dois, amigão.
CLIENTE 1 – (Falando baixo, consigo mesmo) Sete de paus, sete de paus? Ah, achei! Aqui está, sete de paus. Certinho?
CHAVEIRO – Certinho. Muito obrigado senhor. Volte sempre!
CLIENTE 1 – (à parte, para a plateia) Espero nunca mais ter que voltar.
CHAVEIRO – (à parte, também para a plateia) Eu sei que ele voltará.
(O Cliente 1 sai da loja, ao mesmo tempo em que entra um garoto de 12 anos)
GAROTO – (arfando de cansaço) Oi, seu chaveiro.
CHAVEIRO – Moleque! Por que demorou tanto, assim? Que horário de almoço é esse que demora mais de 2 horas pra voltar?
GAROTO – Desculpa seu chaveiro, mas é que eu tava lá no...
CHAVEIRO – (interrompe a fala do garoto) Não quero nem mais, nem menos. Preciso que você corra pra mim fazer uma entrega lá na Banca do Tião, daqui a três quadras. Eu já teria ido lá, mas é que não posso deixar a loja sozinha.
GAROTO – O que é pra levar lá?
CHAVEIRO – Esse CD aqui. (entrega para o garoto uma capinha protetora contendo o objeto indicado) Diga para ele que no CD já tem o crack do Brasfoot e a chave de registro do jogo.
GAROTO – Sim senhor, seu chaveiro. E quanto ele tem que pagar?
CHAVEIRO – São cinco contos, como nós combinamos. Ele já tá sabendo do preço. Mas avise pro Tião não bancar o engraçadinho pra cima de mim: nada de contos dos Irmãos Grimm. Quero contos que engrandeçam nossa cultura regional.
GAROTO – Sim senhor. Vou lá. (sai correndo)
CHAVEIRO – Vá, meu filho. (para si próprio, esfregando as mãos) Eis aí a minha próxima cliente.
(Entra uma mulher, de aproximadamente 40 anos)
CLIENTE 3 – Boa tarde, Chaveiro.
CHAVEIRO – Boa tarde. (em tom galanteador, com uma certa mesura) Em que posso servi-la?
CLIENTE 3 – Chaveiro, aqui você também troca segredo?
CHAVEIRO – Claro que sim! (coloca os cotovelos sobre o balcão, apoiando o queixo nas mãos, começa a falar mais baixo, em tom de fofoca) Vai, me conta: qual é o seu segredo?
CLIENTE 3 – (Também diminui o tom de voz) Eu fico até constrangida de falar, mas é que a sua mulher está dormindo com o açougueiro.
CHAVEIRO – (de súbito, assume trejeitos homossexuais) Mentira? Como você sabe disso?
CLIENTE 3 – Porque o açougueiro é meu marido, e eu flagrei os dois em pleno ato.
CHAVEIRO – E quando foi isso?
CLIENTE 3 – Ontem à noite, enquanto eu dormia. Em meu sonho.
CHAVEIRO – Impossível! Ontem à noite eu algemei minha esposa junto a cabeceira da nossa cama, totalmente despida, e joguei a chave fora. Pelo menos, foi assim que sucedeu em meu sonho! Não seria possível para ela estar em dois lugares ao mesmo tempo, seria?
CLIENTE 3 – Oh, Chaveiro, então qual é a chave deste mistério?
CHAVEIRO – Sinto muito, minha senhora. Mas desvendar o segredo da chave de mistérios é um serviço que há algum tempo já deixei de prestar, pois é muito difícil e dá pouco retorno.
CLIENTE 3 – (levando a mão direita à testa, em tom de tragédia) Oh, é uma pena. (e após uma pausa) E qual é o segredo que irá trocar pelo meu, Chaveiro?
CHAVEIRO – Ah, já ia me esquecendo, minha caríssima. (e diminuindo o tom de voz, acrescenta) Mas devo adverti-la que este é um segredo mui valioso, portanto deve permanecer guardado a sete chaves.
CLIENTE 3 – Literalmente?
CHAVEIRO – (arregala os olhos para a Cliente 3) Que pergunta tola, minha senhora. Bem sabes a resposta!
CLIENTE 3 – Perdão, Chaveiro. Rogo-te pelo seu perdão por tamanho disparate!
CHAVEIRO – (à parte, para a plateia) Que dramalhão! (e para a Cliente 3, em tom de voz mais baixo) O meu segredo não deve ser confiado a ninguém. E ei-lo entregue para ti: debaixo destas roupas, minha última peça consiste num ínfimo fio dental.
CLIENTE 3 – Oh, que repugnante visão! Por que estás usando apenas fio dental?
CHAVEIRO – É que o creme dental acabou e esqueci de comprar outro. Mas hoje mesmo passarei no mercado, para voltar a escovar meus dentes.
CLIENTE 3 – Ah, mas assim é melhor. (e após uma pausa) E me diga uma coisa: quanto foi essa troca de segredos, Chaveiro?
CHAVEIRO – Hum, deixe-me ver... O seu segredo foi bem revelador. Em contrapartida, eu o troquei por um a altura. Portanto, são cinquentinha.
CLIENTE 3 – Cinquentinha eu não tenho. Mas posso te pagar com uma 51? (diz isso, ao mesmo tempo em que retira da bolsa uma garrafa de Pirassununga)
CHAVEIRO – Aceito!
CLIENTE 3 – Mas antes de consumar o pagamento, eu solicito um conselho seu, Chaveiro.
CHAVEIRO – Será um prazer. Sobre o que se trata?
CLIENTE 3 – É que já faz exatamente uma semana que não consigo esvaziar o conteúdo dos meus intestinos. E eu queria saber se o senhor tem a chave para solucionar esse problema.
CHAVEIRO – Ah, mas isso é muito simples. (abre uma gaveta e de lá retira um poderoso laxante) Aqui está: esse remedinho é a chave que irá destrancar seus esfíncteres e que abrirá as portas do seu alívio. Recomendo que tome uma colherzinha desse produto, e que depois disso, passe no meu primo Relojoeiro, que ele tem uma solução para intestinos preguiçosos que não funcionam na hora certa. Ele diz que é tiro e queda: pegue esse produto com ele, e seu intestino continuará funcionando como um reloginho.
CLIENTE 3 – (sorrindo) Me ajudou muito, Chaveiro. Até mais.
CHAVEIRO – Foi um prazer ajudá-la, minha cara. (A Cliente 3 deixa a loja) Mais uma cliente satisfeita! E vem a próxima.
(Uma moça de aproximadamente 25 anos, muito bonita, entra na loja)
CHAVEIRO – Boa tarde, moça. Em que posso ajudá-la?
CLIENTE 4 – Boa tarde, Chaveiro. Estou profundamente apaixonada. Estou desesperada! Preciso de sua ajuda!
CHAVEIRO – Acalme-se, meu bem. Conte seu problema para mim.
CLIENTE 4 – Oh Chaveiro, me apaixonei por um homem mais velho, mas ele não dá a mínima para mim. Quero que me ajude a encontrar a chave para o coração deste homem.
CHAVEIRO – E quem é este homem? Me fale mais sobre ele, para que eu possa ajudá-la.
CLIENTE 4 –Quão tolo, és, Chaveiro! Este homem és tu!
CHAVEIRO – Eu?
CLIENTE 4 – Sim. Tu, Chaveiro. E como faço para ter acesso ao interior de seu coração?
CHAVEIRO – Antes, diga-me, menina: o que faz da vida?
CLIENTE 4 – Sou estudante de Serviço Social.
CHAVEIRO – Perdeste seu tempo então.
CLIENTE 4 – Como disse?
CHAVEIRO – Digo que, se acesso ao interior de meu coração é o que queres, está no caminho errado. Não o conseguirá através do Serviço Social. Precisas cursar Medicina, fazer especialização em cardiologia, e só assim terás acesso ao interior de meu coração.
CLIENTE 4 – Não há outro modo, meu senhor?
CHAVEIRO – Absolutamente! A menos, é claro, que escolhas o caminho mais fácil.
CLIENTE 4 – E qual seria este?
CHAVEIRO – Bem, há o açougueiro. E, como deves saber, ele possui facas, instrumentos perfurocortantes, verdadeiramente afiados. Podem auxiliar-te a acessar o interior de meu coração.
CLIENTE 4 – Tens razão, Chaveiro. A primeira opção me parece a certa, porém, está tão distante. Não sei se sou capaz de esperar tanto tempo. Creio definhar se não conquistar seu coração para mim. Por outro lado, a segunda opção, embora de solução imediata, não me parece tão certa. Preciso de tempo para pensar, refletir, e decidir-me. Mas agradeço-te pelos conselhos, Chaveiro. Você é o melhor. (levanta-se, preparando para sair)
CHAVEIRO – De nada, minha jovem. Estou ao seu dispor. A propósito, este serviço foi orçado em 50 dilmas.
CLIENTE 4 – Tudo isso, Chaveiro? Mas não disponho de tal quantia em espécie comigo. Posso pagar-lhe com cheque?
CHAVEIRO – Mas é claro, senhorita.
CLIENTE 4 – Oh, mas isto é ótimo. (enfia as mãos no interior de sua bolsa) Felizmente, eu carrego este apetrecho em minha bolsa. Sejamos breves. (retira da bolsa um tabuleiro de xadrez, monta apenas algumas peças e ensaia duas ou três jogadas, até colocar o rei do Chaveiro em xeque) Xeque!
CHAVEIRO – Muito bem! E um belo xeque. Sinto-me pago, moça.
CLIENTE 4 – Agora preciso ir. Mas devo voltar em breve, em busca de seu coração, Chaveiro.
CHAVEIRO – Aguardarei ansioso, minha cara. (A Cliente 4 sai da loja. Olhando para o balcão, diz para si mesmo) Oh, ela esqueceu o tabuleiro aqui. Mas agora já foi.
(O Cliente 1 reaparece)
CLIENTE 1 – Estou de volta!
CHAVEIRO – Tão cedo não esperava vê-lo. Mas se retornou, é porque meus serviços agradaram.
CLIENTE 1 – (Gritando) Nada disso. Mais uma vez sua chave não funcionou!
CHAVEIRO – Então façamos uma nova cópia. Nada de desistirmos. É como eu sempre digo: a chave para o sucesso é a perseverança.
CLIENTE 1 – (Gritando) Basta! Não quero mais seus serviços! Já entrei em contato com aquele chaveiro cujo cartão peguei de seu outro cliente. E ele ficou de ir em minha casa daqui meia hora. Irá resolver o problema pessoalmente. Só vim até aqui para reaver o meu dinheiro.
CHAVEIRO – Seu dinheiro?
CLIENTE 1 – Sim, meu dinheiro! Como o serviço não foi realizado a contento, sinto-me em meu direito de reivindicar a devolução do montante pago.
CHAVEIRO – (olha para o tabuleiro em seu balcão. Em seguida, olha para o cliente e diz) O senhor aceitaria, por um acaso, o ressarcimento em forma de cheque?
CLIENTE 1 – (pego de surpresa) Não vejo nenhum mal. Desde que eu seja ressarcido.
CHAVEIRO – (desfaz o último movimento realizado pela Cliente 4, vira o tabuleiro 180 graus e diz) Pois bem, que assim seja então. (Repete o movimento de xeque realizado pela Cliente 4)
CLIENTE 1- Pois bem, estou ressarcido. Vira as costas e vai embora.
CHAVEIRO - (olhando para a plateia) E assim foi mais um dia de trabalho. Abaixa as portas e vai embora.

FIM.

Se este texto não fez nenhum sentido para você, tampouco o fez para mim.