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sábado, 23 de maio de 2015

Velhice

Um texto em homenagem aos amiguinhos Boretti, Kola e Guaianases, que estão me alcançando na marca dos 24 anos neste mês. Esta última (Guaianases) fica mais idosa já hoje.

Ontem eu estava sentado num banco da faculdade, aguardando duas pessoas que tinham ido ao banheiro, quando um rapaz alto e forte - provavelmente um estudante - se aproximou de mim e me cumprimentou:

- E aí mano, de boa?

- T-tudo bem. - disse eu, confuso por aquela inesperada abordagem. Ansiando que ele se afastasse tão rapidamente como se aproximara. Queria ficar só.

- Cara, na boa, cê não tem uma "seda" pra me arrumar aí, não?

Respondi que não tinha e ainda pedi desculpas por isso¹. O rapaz se afastou depois, e eu fiquei pensando que eu devo estar com uma aparência muito velha pro cara pensar que eu me acabo na maconha. Afinal, tem as irmãs (freiras) na faculdade, e duvido muito que ele teria pedido uma seda pra elas. Se veio até mim, é porque desconfiou que eu curtia um cigarrinho do capeta.

Aí eu comecei a pensar... eu sei que o tempo está passando, e que ele não está sendo nada generoso comigo. Mas também não imaginei que estivesse tão destruído assim. E comecei a lembrar de outras coisas que acontecem no dia-a-dia que fazem com que eu me sinta velho. Como quando a molecada acaba jogando a bola de futebol pra fora do condomínio bem na hora que eu estou passando pela calçada, e ao devolvê-la, ouço um "valeu, tio!".

Você percebe que está ficando velho quando come uma fritura e sente queimação logo em seguida, e fica passando mal. Ou quando está viajando de ônibus e começa a sentir dor nos pés, por causa de má circulação. Ou então quando revê um parente mais jovem - em geral, o filho de algum primo - e diz, abismado: "nossa, mas como que você cresceu!". E outras expressões passam a fazer parte do seu linguajar cotidiano, como "na minha época", "eu sou do tempo" e blá blá blá.

Ficar mais velho é fazer alguns exercícios nem tão pesados assim, mas amanhecer quebrado no dia seguinte. E também no outro, no outro e no outro. Uns quatro dias até se recuperar da maratona de atividades físicas. Ficar mais velho também é comer bastante e ver toda a gordura se concentrar na barriga, tal como no sistema capitalista, em que os recursos estão concentrados para uns poucos, que têm muito, e a grande maioria tem pouco.

Ficar mais velho é começar a fazer cálculos matemáticos, de quanto tempo já passou desde que o evento X aconteceu, ou então começar a especular se 24 anos correspondem a 1/4 da minha vida, 1/3, ou, ainda mais assustador, 1/2?

Ficar mais velho é perceber que você nem está tão velho assim, afinal de contas, ainda tem muita coisa pra viver. Em compensação, te faz pensar que sua amiga da mesma idade e que ainda está solteira realmente vai ficar pra titia. A menos que você (eu) arrume um véio careca e desdentado pra cuidar dela².


¹ Pensando melhor, eu deveria ter dito que havia acabado.

² Esse texto está uma bosta, mas não estou nem aí, pois minha vida também está.

quinta-feira, 19 de março de 2015

24

Uma postagem heterofóbica.

Domingo passado eu completei 24 anos. Ou, como diria o escritor George R.R. Martin em suas narrativas, foi comemorado o vigésimo quarto dia de meu nome. É aquele aniversário em que meninos recebem gracejos junto às parabenizações, com frases que dizem "o ano da decisão", "ou vai, ou racha" dentre outros. Pra quem não sabe, no Brasil, o 24 é popularmente considerado número de viado.

Agora, muito se engana quem acha que eu fico ofendido quando alguém insinua qualquer coisa a respeito da minha (as)sexualidade, sobretudo por causa de um número. Foi-se o tempo de escola, quando eu era adolescente, em que os primeiros dias de aula eram vivenciados com angústia, para saber se eu escaparia da humilhante atribuição do número 24 na chamada da lista de alunos (por duas vezes eu foi o 23). Afinal de contas, todo mundo sabe, se você for o 24 na chamada, automaticamente, você é gay. Porque, na matemática, o principal axioma que permeia esse campo do conhecimento é o de que a homossexualidade é uma característica intrínseca e indissociável deste número. Entretanto, essa teoria não é aceita de modo unânime e inconteste pela comunidade científica. Há quem diga que ainda não foi definitivamente provado que o número vinte e quatro possui em si o princípio ativo homossexualizante. Tudo o que existem, segundo os adeptos dessa corrente, são indícios. Inclusive, um doutor em farmácia afirmou recentemente que tomar 24 gotas de qualquer medicamento não “enviada” mais uma pessoa do que tomar 23 ou 25 gotas do mesmo medicamento. Bem como, dizem os estudiosos do assunto, calçar sapato tamanho 24, ter 24 no número do RG, do celular ou até mesmo tatuado no bumbum não faz de ninguém um gay.

Muitos levam tão a sério essa brincadeira sobre o número 24, que inventam desculpas para não assumir seus 24 anos. "Estou fazendo um quarto de século menos um", dizem os espertinhos dos números (sobretudo aqueles que já leram Malba Tahan) ou "Vou fazer 23 anos duas vezes, depois salto direto para o 25". Ao contrário dessas pessoas, eu digo que assumo os meus 24 anos com muito orgulho. Primeiro, porque ter 24 anos pra mim não significa nada mais além do fato de que faz 24 anos que nasci. Segundo, porque é ótimo fazer 24 anos! Pense bem... existe apenas uma opção para quem não quer fazer 24 anos, que é a de não sobreviver até completar tal idade. E como eu gosto de estar vivo, é com muito orgulho que assumo que completei minha vigésima quarta primavera (que, em tese, é a vigésima terceira, pois eu nasci no verão). Esse texto é dedicado a todos os nove-um (91) que, assim como eu, já passaram ou passarão pelo ritual dos vinte e quatro anos em 2015, se tudo der certo. Parabéns pra nóis!


P.S. ah, o texto original terminava ali em cima. Mas, como no domingo ocorreu um fato atípico, não posso deixar passar em branco aqui... Gostaria de agradecer a todo o povo de Brasília e do Brasil inteiro que foi para as ruas para celebrar meu aniversário e me homenagear. Recebam o meu mais sincero obrigado!


Multidão aglomerada em frente ao Congresso Nacional, para prestar homenagem a mim.


Fãs mostram cartazes com demonstrações de carinho.