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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

O Chaveiro

Este texto segue um estilo teatral, nonsense. Para ler outro texto teatral nonsense já publicado neste blog (este outro pelo R), clique aqui. Meus agradecimentos a Srta. Rocha pela inestimável ajuda e comentários tecidos na fase de elaboração deste texto. Para conferir os trabalhos de minha amiga, acesse o blog dela clicando aqui.

Cena Única

Local da cena: Loja do Chaveiro. Um pequeno ponto comercial, composto de um balcão de vidro, onde estão expostos vários modelos de chaves e de fechaduras. Do lado de dentro do balcão, está o chaveiro, confeccionando a cópia de uma chave. Na parede ao fundo, dois papeis A4 estão pregados na parede. Num deles consta a tabela de preços dos serviços prestados pelo chaveiro e noutro, em letras maiúsculas, ocupando boa parte da página, alinhado à esquerda, constam os dizeres: “NÃO FASSO FIADO”. Uma porta dá para o fundo da loja, inacessível ao público. Do lado de fora do balcão está um cliente, de pé em frente ao balcão, aguardando a conclusão da cópia pelo chaveiro.

CHAVEIRO – Já estou terminando sua cópia, amigo. É dois segundos.
CLIENTE 1 – Espero que dessa vez dê certo. Já é a terceira vez que tenho que retornar aqui na sua loja porque uma chave que o senhor me copia não entra na fechadura da porta de casa.
CHAVEIRO – Eu sinto muito pelo transtorno. Dessa vez vai funcionar, amigão.
CLIENTE 1 – É o que vamos ver.
(Entra outro cliente na loja)
CHAVEIRO – Boa tarde, amigão.
CLIENTE 2 – Boa tarde. Você tem algum DVD do Chaves?
CHAVEIRO – Tenho sim. Tenho os volumes 1, 2 e 3. Sai 5 dilmas cada.
CLIENTE 2 – E se levar os três tem algum desconto?
CHAVEIRO – (Pára o trabalho e olha para o Cliente 2) Olha, se o senhor levar os três eu faço um preço bom pro senhor. De vinte dilmas deixo pra quinze pro senhor, no pagamento à vista.
CLIENTE 2 – Então fechou. Eu vou levar.
CHAVEIRO – (Abandona seu trabalho de cópia da chave e pega os três DVDs numa gaveta, coloca numa sacola e entrega pro cliente. O Cliente 1 observa a cena incrédulo, por ter sido passado pra trás no atendimento) Tá aqui, amigão!
CLIENTE 2 – Beleza. (Entrega uma nota de vinte reais para o chaveiro)
CHAVEIRO – O senhor não tem trocado, não?
CLIENTE 2 – (Apalpa o bolso da camisa social e em seguida a enfia no bolso, à procura de dinheiro) Vixi, o pior é que eu não tenho. Tá ruim de troco?
CHAVEIRO – Então, eu até tenho troco, mas tá na minha gaveta e ela tá trancada e eu perdi a chave.
CLIENTE 2 – Caramba, que merda, hein? Pô, eu conheço um chaveiro muito bom, o cara é ponta firme, vou te deixar um cartãozinho aqui. (Tira um cartão do bolso e coloca em cima do balcão)
CHAVEIRO – Valeu, amigão.
CLIENTE 1 – Deixe um cartão pra mim também.
CLIENTE 2 – Toma. (Entrega um cartão para o Cliente 1) Bom, e como fazemos? O que você tem aí de 5 reais? Mais algum DVD do Chavinho?
CHAVEIRO – Tenho não, amigo. O volume 4 tá em falta, a procura tá sendo grande e eu não tive tempo de fazer mais cópias dele ainda. Mas eu tenho aqui um DVD da Kelly Key, com uma coletânea de canções dela mais o ensaio dela na Revista Playboy.
CLIENTE 2 – Opa, pode ser. Me passe ela aqui. (Pega o DVD passado pelo chaveiro) Agora só não errar o presente de aniversário do filhão, né gente? (diz rindo, dando uma cotovelada no Cliente 1, este contrariado pela demora) Até mais pessoal! (Sai da loja)
CHAVEIRO – Até! (olhando para o Cliente 1) O seu o que que era mesmo?
CLIENTE 1 – (Gritando) A chave bendita!
CHAVEIRO – Ah, sim. Sim. Aqui está, prontinha. A cópia e a original que o senhor me trouxe de modelo. (Entrega as duas para o Cliente 1) São dez paus.
CLIENTE 1 – (Gritando) Dez paus por uma chave que eu já paguei e não funcionou?
CHAVEIRO – Olha, calma, amigão. Eu tive meus gastos, essa é a terceira chave que eu gasto para resolver seu problema. O senhor precisa entender o meu lado também.
CLIENTE 1 – Tudo bem, já chega dessa ladainha. Mas é bom que funcione dessa vez. (Tira um baralho do bolso e começa a folhear as cartas) Hum, mas que droga. Está faltando o dez de paus desse baralho, acho que tirei ele quando fui jogar truco.
CHAVEIRO – Não tem problema, faz por sete pro senhor, pra melhorar pro seu lado e pra ficar bom pra nós dois, amigão.
CLIENTE 1 – (Falando baixo, consigo mesmo) Sete de paus, sete de paus? Ah, achei! Aqui está, sete de paus. Certinho?
CHAVEIRO – Certinho. Muito obrigado senhor. Volte sempre!
CLIENTE 1 – (à parte, para a plateia) Espero nunca mais ter que voltar.
CHAVEIRO – (à parte, também para a plateia) Eu sei que ele voltará.
(O Cliente 1 sai da loja, ao mesmo tempo em que entra um garoto de 12 anos)
GAROTO – (arfando de cansaço) Oi, seu chaveiro.
CHAVEIRO – Moleque! Por que demorou tanto, assim? Que horário de almoço é esse que demora mais de 2 horas pra voltar?
GAROTO – Desculpa seu chaveiro, mas é que eu tava lá no...
CHAVEIRO – (interrompe a fala do garoto) Não quero nem mais, nem menos. Preciso que você corra pra mim fazer uma entrega lá na Banca do Tião, daqui a três quadras. Eu já teria ido lá, mas é que não posso deixar a loja sozinha.
GAROTO – O que é pra levar lá?
CHAVEIRO – Esse CD aqui. (entrega para o garoto uma capinha protetora contendo o objeto indicado) Diga para ele que no CD já tem o crack do Brasfoot e a chave de registro do jogo.
GAROTO – Sim senhor, seu chaveiro. E quanto ele tem que pagar?
CHAVEIRO – São cinco contos, como nós combinamos. Ele já tá sabendo do preço. Mas avise pro Tião não bancar o engraçadinho pra cima de mim: nada de contos dos Irmãos Grimm. Quero contos que engrandeçam nossa cultura regional.
GAROTO – Sim senhor. Vou lá. (sai correndo)
CHAVEIRO – Vá, meu filho. (para si próprio, esfregando as mãos) Eis aí a minha próxima cliente.
(Entra uma mulher, de aproximadamente 40 anos)
CLIENTE 3 – Boa tarde, Chaveiro.
CHAVEIRO – Boa tarde. (em tom galanteador, com uma certa mesura) Em que posso servi-la?
CLIENTE 3 – Chaveiro, aqui você também troca segredo?
CHAVEIRO – Claro que sim! (coloca os cotovelos sobre o balcão, apoiando o queixo nas mãos, começa a falar mais baixo, em tom de fofoca) Vai, me conta: qual é o seu segredo?
CLIENTE 3 – (Também diminui o tom de voz) Eu fico até constrangida de falar, mas é que a sua mulher está dormindo com o açougueiro.
CHAVEIRO – (de súbito, assume trejeitos homossexuais) Mentira? Como você sabe disso?
CLIENTE 3 – Porque o açougueiro é meu marido, e eu flagrei os dois em pleno ato.
CHAVEIRO – E quando foi isso?
CLIENTE 3 – Ontem à noite, enquanto eu dormia. Em meu sonho.
CHAVEIRO – Impossível! Ontem à noite eu algemei minha esposa junto a cabeceira da nossa cama, totalmente despida, e joguei a chave fora. Pelo menos, foi assim que sucedeu em meu sonho! Não seria possível para ela estar em dois lugares ao mesmo tempo, seria?
CLIENTE 3 – Oh, Chaveiro, então qual é a chave deste mistério?
CHAVEIRO – Sinto muito, minha senhora. Mas desvendar o segredo da chave de mistérios é um serviço que há algum tempo já deixei de prestar, pois é muito difícil e dá pouco retorno.
CLIENTE 3 – (levando a mão direita à testa, em tom de tragédia) Oh, é uma pena. (e após uma pausa) E qual é o segredo que irá trocar pelo meu, Chaveiro?
CHAVEIRO – Ah, já ia me esquecendo, minha caríssima. (e diminuindo o tom de voz, acrescenta) Mas devo adverti-la que este é um segredo mui valioso, portanto deve permanecer guardado a sete chaves.
CLIENTE 3 – Literalmente?
CHAVEIRO – (arregala os olhos para a Cliente 3) Que pergunta tola, minha senhora. Bem sabes a resposta!
CLIENTE 3 – Perdão, Chaveiro. Rogo-te pelo seu perdão por tamanho disparate!
CHAVEIRO – (à parte, para a plateia) Que dramalhão! (e para a Cliente 3, em tom de voz mais baixo) O meu segredo não deve ser confiado a ninguém. E ei-lo entregue para ti: debaixo destas roupas, minha última peça consiste num ínfimo fio dental.
CLIENTE 3 – Oh, que repugnante visão! Por que estás usando apenas fio dental?
CHAVEIRO – É que o creme dental acabou e esqueci de comprar outro. Mas hoje mesmo passarei no mercado, para voltar a escovar meus dentes.
CLIENTE 3 – Ah, mas assim é melhor. (e após uma pausa) E me diga uma coisa: quanto foi essa troca de segredos, Chaveiro?
CHAVEIRO – Hum, deixe-me ver... O seu segredo foi bem revelador. Em contrapartida, eu o troquei por um a altura. Portanto, são cinquentinha.
CLIENTE 3 – Cinquentinha eu não tenho. Mas posso te pagar com uma 51? (diz isso, ao mesmo tempo em que retira da bolsa uma garrafa de Pirassununga)
CHAVEIRO – Aceito!
CLIENTE 3 – Mas antes de consumar o pagamento, eu solicito um conselho seu, Chaveiro.
CHAVEIRO – Será um prazer. Sobre o que se trata?
CLIENTE 3 – É que já faz exatamente uma semana que não consigo esvaziar o conteúdo dos meus intestinos. E eu queria saber se o senhor tem a chave para solucionar esse problema.
CHAVEIRO – Ah, mas isso é muito simples. (abre uma gaveta e de lá retira um poderoso laxante) Aqui está: esse remedinho é a chave que irá destrancar seus esfíncteres e que abrirá as portas do seu alívio. Recomendo que tome uma colherzinha desse produto, e que depois disso, passe no meu primo Relojoeiro, que ele tem uma solução para intestinos preguiçosos que não funcionam na hora certa. Ele diz que é tiro e queda: pegue esse produto com ele, e seu intestino continuará funcionando como um reloginho.
CLIENTE 3 – (sorrindo) Me ajudou muito, Chaveiro. Até mais.
CHAVEIRO – Foi um prazer ajudá-la, minha cara. (A Cliente 3 deixa a loja) Mais uma cliente satisfeita! E vem a próxima.
(Uma moça de aproximadamente 25 anos, muito bonita, entra na loja)
CHAVEIRO – Boa tarde, moça. Em que posso ajudá-la?
CLIENTE 4 – Boa tarde, Chaveiro. Estou profundamente apaixonada. Estou desesperada! Preciso de sua ajuda!
CHAVEIRO – Acalme-se, meu bem. Conte seu problema para mim.
CLIENTE 4 – Oh Chaveiro, me apaixonei por um homem mais velho, mas ele não dá a mínima para mim. Quero que me ajude a encontrar a chave para o coração deste homem.
CHAVEIRO – E quem é este homem? Me fale mais sobre ele, para que eu possa ajudá-la.
CLIENTE 4 –Quão tolo, és, Chaveiro! Este homem és tu!
CHAVEIRO – Eu?
CLIENTE 4 – Sim. Tu, Chaveiro. E como faço para ter acesso ao interior de seu coração?
CHAVEIRO – Antes, diga-me, menina: o que faz da vida?
CLIENTE 4 – Sou estudante de Serviço Social.
CHAVEIRO – Perdeste seu tempo então.
CLIENTE 4 – Como disse?
CHAVEIRO – Digo que, se acesso ao interior de meu coração é o que queres, está no caminho errado. Não o conseguirá através do Serviço Social. Precisas cursar Medicina, fazer especialização em cardiologia, e só assim terás acesso ao interior de meu coração.
CLIENTE 4 – Não há outro modo, meu senhor?
CHAVEIRO – Absolutamente! A menos, é claro, que escolhas o caminho mais fácil.
CLIENTE 4 – E qual seria este?
CHAVEIRO – Bem, há o açougueiro. E, como deves saber, ele possui facas, instrumentos perfurocortantes, verdadeiramente afiados. Podem auxiliar-te a acessar o interior de meu coração.
CLIENTE 4 – Tens razão, Chaveiro. A primeira opção me parece a certa, porém, está tão distante. Não sei se sou capaz de esperar tanto tempo. Creio definhar se não conquistar seu coração para mim. Por outro lado, a segunda opção, embora de solução imediata, não me parece tão certa. Preciso de tempo para pensar, refletir, e decidir-me. Mas agradeço-te pelos conselhos, Chaveiro. Você é o melhor. (levanta-se, preparando para sair)
CHAVEIRO – De nada, minha jovem. Estou ao seu dispor. A propósito, este serviço foi orçado em 50 dilmas.
CLIENTE 4 – Tudo isso, Chaveiro? Mas não disponho de tal quantia em espécie comigo. Posso pagar-lhe com cheque?
CHAVEIRO – Mas é claro, senhorita.
CLIENTE 4 – Oh, mas isto é ótimo. (enfia as mãos no interior de sua bolsa) Felizmente, eu carrego este apetrecho em minha bolsa. Sejamos breves. (retira da bolsa um tabuleiro de xadrez, monta apenas algumas peças e ensaia duas ou três jogadas, até colocar o rei do Chaveiro em xeque) Xeque!
CHAVEIRO – Muito bem! E um belo xeque. Sinto-me pago, moça.
CLIENTE 4 – Agora preciso ir. Mas devo voltar em breve, em busca de seu coração, Chaveiro.
CHAVEIRO – Aguardarei ansioso, minha cara. (A Cliente 4 sai da loja. Olhando para o balcão, diz para si mesmo) Oh, ela esqueceu o tabuleiro aqui. Mas agora já foi.
(O Cliente 1 reaparece)
CLIENTE 1 – Estou de volta!
CHAVEIRO – Tão cedo não esperava vê-lo. Mas se retornou, é porque meus serviços agradaram.
CLIENTE 1 – (Gritando) Nada disso. Mais uma vez sua chave não funcionou!
CHAVEIRO – Então façamos uma nova cópia. Nada de desistirmos. É como eu sempre digo: a chave para o sucesso é a perseverança.
CLIENTE 1 – (Gritando) Basta! Não quero mais seus serviços! Já entrei em contato com aquele chaveiro cujo cartão peguei de seu outro cliente. E ele ficou de ir em minha casa daqui meia hora. Irá resolver o problema pessoalmente. Só vim até aqui para reaver o meu dinheiro.
CHAVEIRO – Seu dinheiro?
CLIENTE 1 – Sim, meu dinheiro! Como o serviço não foi realizado a contento, sinto-me em meu direito de reivindicar a devolução do montante pago.
CHAVEIRO – (olha para o tabuleiro em seu balcão. Em seguida, olha para o cliente e diz) O senhor aceitaria, por um acaso, o ressarcimento em forma de cheque?
CLIENTE 1 – (pego de surpresa) Não vejo nenhum mal. Desde que eu seja ressarcido.
CHAVEIRO – (desfaz o último movimento realizado pela Cliente 4, vira o tabuleiro 180 graus e diz) Pois bem, que assim seja então. (Repete o movimento de xeque realizado pela Cliente 4)
CLIENTE 1- Pois bem, estou ressarcido. Vira as costas e vai embora.
CHAVEIRO - (olhando para a plateia) E assim foi mais um dia de trabalho. Abaixa as portas e vai embora.

FIM.

Se este texto não fez nenhum sentido para você, tampouco o fez para mim.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Chaves

Faz alguns meses que decidi escrever um texto sobre o seriado Chaves no meu blog. Mas, devido à correria do dia-a-dia, ao cansaço e até mesmo à preguiça, acabei procrastinando, e por fim desistindo. Hoje, recebi a triste notícia da morte de Roberto Gómez Bolaños, o Chespirito, Pequeno Shakespeare, apelido dado a ele por conhecidos, devido a sua genialidade.

Ele partiu hoje, depois de uma vida extremamente produtiva, deixando sua marca por onde passou. A eternidade física é uma ilusão, mas acredito que Bolaños alcançou a imortalidade em seus personagens, pois sua obra continuará viva em minha lembrança e em meu coração.

Em homenagem a esse brilhante mexicano, que conquistou muita gente com a sua obra e com seus personagens, decidi que devia ressuscitar essa publicação. Se eu puder ter só um pouquinho daquele talento para fazer esta homenagem, já me sentirei realizado.

Obrigado, Chespirito!





CHAVES

Sou um fã da obra de Roberto Gómez Bolaños. Mesmo sabendo todas as falas de antemão e já conhecendo as piadas manjadas dos episódios, ainda sou capaz de me deliciar assistindo Chaves, Chapolin, Dr. Chapatin, Chaveco, Don Caveira e Pancada Bonaparte. Tenho uma sensação de paz quando estou vendo um episódio do Chespirito.

Na internet, a série Chaves é alvo de inúmeras discussões. Discussões estas que envolvem acontecimentos ao longo dos episódios, como erros de gravações que foram ao ar, incongruências entre informações dos personagens, traduções brasileiras e muitas outras curiosidades. São inúmeros os fóruns de discussão sobre esses temas. E a seguir, tentarei trazer a minha contribuição sobre alguns fatos (que considero) curiosos relacionados à série. Afinal, acho que são esses debates levantados que geram todo o imaginário que permeia Chaves e faz dela uma série que vem atravessando gerações e fazendo parte da infância de milhões de pessoas.

Então, passemos as curiosidades.



1 – O filme do Pelé

Quem não se lembra do episódio Vamos ao Cinema, em que toda a turma da vila vai pegar um filminho? Fora o microfone que acidentalmente aparece nas cenas do cinema, eu quero destacar outro fato desse episódio. Se eu perguntar para várias pessoas o que tem de mais marcante no episódio, provavelmente ouvirei delas que é o Chaves resmungando diversas vezes a frase “seria melhor ter ido ver o filme do Pelé”. Fiquei me questionando, qual seria esse filme do Pelé que O Menino do Oito se referia nesse episódio. Não cheguei a uma resposta, mas descobri algumas coisas interessantes.

A primeira delas, é que no episódio original, o qual assisti para escrever este post, o Chaves não faz nenhuma alusão ao Rei do Futebol, o que seria bem estranho mesmo, já que a série é mexicana. O filme que ele cita é outro. Na versão original, o Chaves refere-se ao filme El Chanfle. Pra quem não sabe, El Chanfle é um filme estrelado pelo mesmo elenco que compõe o seriado Chaves. Como se sabe, Chespirito tinha esse hábito mesmo de entrelaçar suas obras, umas nas outras. Quem não se lembra do Seu Madruga lendo o gibizinho do Chapolin Colorado? Portanto, o filme citado na versão original, nada mais é do que o próprio filme escrito e estrelado Bolaños.

A segunda descoberta interessante diz respeito ao próprio Pelé. Pra quem não sabe, o Edson já atacou de ator também, produzindo algumas pérolas no cinema nacional e internacional. Dentre elas, Edson participou de um filme brasileiro, Pedro Mico, mas por algum motivo, teve sua voz dublada pelo Milton Gonçalves. Será que ele é tão ruim ator assim?

Outra pérola do Edson é no filme Os Trombadinhas, em que ele fez uma cena que quase lhe rendeu o Óscar de Melhor Ex-Jogador de Futebol em Longa-Metragem. A cena a qual eu me refiro pode ser visualizada clicando aqui.

Bom, mas estou me desviando do objetivo desse texto para curiosidades sobre o Pelé. Voltemos ao tema principal do texto. Conjecturas à parte, não se sabe o que se passava na cabeça da galera do estúdio de dublagem da série no Brasil, quando decidiu citar o filme do Pelé no episódio do cinema. Provavelmente, jamais saberemos qual era o filme do Pelé que o Chaves preferia ter ido ver. O que sabemos, é que se todos os filmes do Pelé são um lixo, misericórdia do filme que eles estavam assistindo naquele cinema...



2 – A esquina

Já repararam na quantidade de pontos comerciais que ficam na esquina da Vila? A barbearia onde o Seu Madruga trabalhou ficava na esquina. O tão sonhado sanduíche de presunto que o Chaves queria comprar ficava na esquina. E o restaurante que a Dona Florinda assumiu ficava onde? Adivinhe? Se você respondeu “na esquina”, você acertou!

Além disso, a esquina também já abrigou um terreno baldio, que foi mostrado no episódio em que as crianças iam lá jogar futebol (não o nosso, mas o americano). Não se sabe se o terreno baldio fica na mesma esquina ou em outra, mas é provável que fique em outra.

Essa quantidade de pontos comerciais na esquina me levou a pensar no quão ruim é aquele ponto comercial. E em como o poder público investe pouco no comerciante. Devem ter feito uma mandinga das bravas naquele lugar, quem sabe a Bruxa do 71 não lançou um feitiço no antigo proprietário do imóvel, por não corresponder ao seu amor platônico? Estava bom de chamar um padre pra exorcizar aquele lugar, quem sabe até com o mesmo padre que ouviu a confissão do Chaves quando ele foi embora da vila por acharem que ele era um ladrão.



3 – Que Bonita Sua Roupa

No episódio Uma Aula de Canto, foi cantada uma das músicas mais famosas do Chaves, Que Bonita Sua Roupa. Sobre esta música, é interessante, em primeiro lugar, identificar que na versão mexicana, o título da música é Que Bonita Vecindad. Vecindad é uma palavra espanhola que pode ser traduzida como vizinhança. Mas a vizinhança em português virou “sua roupa”. Mais uma salva de palmas para os tradutores do seriado.

A coreografia da música é tão simples, que não precisa ser nenhum Michael Jackson para replicá-la, nem a ajuda do coreógrafo Fly. Entretanto, um possível erro na dança do pessoal da Vila é discutido até hoje. Tal erro é discutido, para saber de quem seria a culpa, e o que de fato teria acontecido no momento da gravação. Clique aqui para assistir ao clipe e acompanhar a discussão a seguir.

Com 1:30, Seu Madruga ri olhando em direção aos bastidores, movimento uma das mãos e dando um passo, como se deixando de dançar. A seguir, ele volta a coreografia. Entretanto, alguns segundos antes, pode-se perceber que os pulos do Mestre Linguiça estão dessincronizados em relação aos pulos dos demais personagens. Os defensores de Don Ramón o eximem de culpa nisso, atribuindo-a a Ruben Aguirre, o Professores Jirafales. Apesar do possível erro na coreografia, o episódio foi ao ar desse jeito, para curiosidade geral. E a maior curiosidade de todas consiste no fato de haver pessoas discutindo esse tema até hoje.



4 – Números estranhos

Mesmo Chaves tendo mais de mil episódios, incluindo esquetes, em todos os episódios em que Seu Madruga participa, sua dívida de aluguel com o Seu Barriga continua a mesma: 14 meses de aluguel. Seu Madruga jamais ficou devendo 13 ou 15 meses. Lembrem-se ainda que, num episódio, o Seu Madruga paga pelo menos um mês de aluguel. Mas ele continua devendo quartorze.

E por falar em quatorze, esse é o número da casa da Dona Florinda. O número da casa da Dona Clotilde é 71 e a da casa do Seu Madruga é 72. Qual é a lógica da numeração das casas na Vila? E será que podemos dizer que na Vila tem pelo menos 72 casas? Além das três casas em maior evidência, sabe-se ainda que tem a número 8, onde mora o Chaves, a 24, que fica subindo as escadas ao lado do barril do Chaves, onde já moraram Glória e Paty, mas também Jaiminho e Chiquinha, nas últimas temporadas. Só que, no Festival da Boa Vizinhança, os expectadores do espetáculo dirigido por Seu Madruga não chega a 20 gatos pingados (incluindo o Seu Barriga e o Mestre Linguiça, que nem ali moram).



5 – Seu Madruga

O Seu Madruga já deixou bem claro que não suporta ser acordado às 11 da madrugada. Aliás, porque Don Ramón em português ficou Seu Madruga?

Voltando a ideia inicial, todo mundo fala que o Seu Madruga é vagabundo, que não é muito dado ao trabalho, que é caloteiro, não paga o aluguel. Contudo, ele trabalhou num extenso hall de profissões que daria inveja em muita gente. Já vi o Seu Madruga trabalhando de marceneiro, barbeiro, pedreiro, jardineiro, boxeador, fotógrafo, professor de violão, vendedor de balões, vendedor de churros, terapeuta (conselheiro sentimental do Jirafales) além de já ter sido eventualmente diretor de Festival da Boa Vizinhança e de ter dado uma aula para a turminha que deixou a metodologia pedagógica do Professor Jirafales no chinelo.

Além de todos esses trabalhos, o Seu Madruga é um exemplo de homem, que disse algumas das frases que marcaram minha infância. Posso dizer que ele foi o primeiro filósofo que entrei em contato na minha vida. Encerro esta sessão com algumas de suas célebres frases:

A vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena.

As pessoas boas devem amar seus inimigos.

Não existe trabalho ruim. O ruim é ter que trabalhar.



6 – A menina da escola

Num dos episódios que se passam na escola, um acontecimento muito estranho ainda me deixa com muitas dúvidas (link). Vou me limitar a descrever as falas da versão brasileira, embora haja diferença para a versão mexicana. O Professor Jirafales pergunta para a classe se alguém pode dizer o nome de tribos brasileiras. Uma menina, até então figurante, responde “os tamoios”. Todos olham espantados para ela. Logo em seguida, ela acrescenta: “posso ir ao banheiro?”. E o Professor Jirafales responde: “sim, Iara, sim”. E eis que a menina, após dizer essas seis palavras, levanta-se e sai da sala. E nunca mais aparece na série, em nenhum outro episódio.

Mais estranho ainda é o burburinho que fica na sala após a saída dela, principalmente a fala da Pópis, que diz, com sua voz fanha: “ih, menina, você viu? Eu nunca vi um negócio desses, que temperamental, hein? Você viu só? E se fosse eu o professor ia dar uma tremenda bronca”. Completamente sem sentido. A única coisa que consegui apurar sobre esta cena, é que a atriz que interpretou Iara foi Angélica María.



Concluindo...

Eu tenho muita coisa pra falar ainda, como as referência épicas na versão brasileira a Pedro de Lara, Maitê Proença e muitas outras. Mas isso vai ficar, quem sabe, para outra oportunidade. Essas curiosidades foram inspiradas em minha própria experiência com a série. Algumas coisas foram inspiradas no vídeo do Danilo Gentili sobre o Chaves, embora outras, que são parecidas, foram mera coincidência. É com um sentimento de tristeza, mas também de profundo carinho por tudo o que Chespirito produziu e chegou até mim, que encerro esta postagem.