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sábado, 15 de setembro de 2012

O Emprego - Parte IV


{Chega ao final esta saga, com a quarta parte da trilogia, que foi um dos grandes erros que cometi na minha vida. Até que enfim estou livre deste texto, e agora posso partir para produções mais interessantes, num futuro próximo.}

Tentando cumprir o desafio que Bazé lhe propôs, Matheus estava numa rua escura, praticamente deserta. Num canto onde a escuridão imperava totalmente, duas silhuetas observavam, ocultas por sua pela também negra: Cotó e Fósforo. Finalmente, depois de dez minutos sem qualquer sinal de vida, uma idosa surgiu, caminhando lentamente, apoiada em sua bengala, alheia a qualquer coisa a sua volta.

- Parada aí vovó! – gritou Matheus, anunciando o assalto.

Eis que a velha dá um grito de susto, ao mesmo tempo em que tira da bolsa um spray de pimenta, lançando-o contra os olhos de Matheus, que grita de dor. Cego, Matheus só consegue pensar na dor. E a velha, com uma destreza impressionante, bateu com a bengala na virilha de Matheus, com força também impressionante para uma idosa. A excelente mira fez com que ela acertasse exatamente onde havia mirado: nos testículos de Matheus. Este não precisaria mais fazer vasectomia, pois o golpe o esterilizara por completo.

- Bandido! Vagabundo! Cafajeste!

A velha batia em Matheus, que começou a correr cegamente pela rua, até que finalmente a velha desistiu de persegui-lo e prosseguiu seu trajeto. Cotó e Fósforo foram até Matheus:

- Você tá bem mano?

- To. – respondeu Matheus, só agora conseguindo abrir os olhos.

- Cara, o seu tempo já ta acabando. Até agora você apanhou de uma velha, de um menino de 6 anos e de um tetraplégico.

- Eu sei. Mas pó deixar que no próximo não haverá erros.

[...]

Um homem vestindo terno passa pela rua, quando Matheus o aborda, em sua última tentativa de cumprir a missão de Bazé.

[Matheus] Mãos ao alto cara!

[Pastor Olívio] O Sangue de Jesus tem poder! (ergue as duas mãos para cima, uma delas segurando a bíblia) Matheus?

[Matheus] Pastor Olívio?

[Pastor Olívio] (sorri) Paz do senhor Matheus! (estende a mão direita, em cumprimento a ele)

[Matheus] (também sorri e retribui o aperto de mão) Paz do senhor Pastor Olívio. Como que o senhor tá?

[Pastor Olívio] Eu to bem, e você?

[Matheus] Bem também. Agora ergue as mãos de novo!!!

[Pastor Olívio] Ok, Ok.

[Matheus] Agora passa a grana!

[Pastor Olívio] Mas eu estou sem dinheiro, meu filho. Acabei de sair do culto, estou indo para casa à pé, pois nem dinheiro pro lotação eu tenho. Meu filho, a sua braguilha está aberta.

[Matheus] (olha para baixo) Hum, é mesmo. Peraí, segura pra mim fazendo um favor. (entrega o revólver para o Pastor Olívio, que segura a arma apontada para a barriga de Matheus, enquanto este fecha tranquilamente a braguilha) Pronto, obrigado! Agora mãos ao alto de novo!

[Pastor Olívio] Meu filho, mas por que prossegue com esta loucura? Acaso não conhece os caminhos de Deus? Por que não foste mais à igreja?

[Matheus] Falta de tempo, pastor. Lembra que eu te pedi para orar por mim, pois eu estava buscando um bom emprego? Então, era desse emprego que eu estava falando.

[Pastor Olívio] Meu Deus do Céu! Meu filho, mas isto vai contra os preceitos bíblicos. Você não pode roubar os outros.

[Matheus] Dane-se!

[Pastor Olívio] E você acha que consentirei com isso? Acha que permitirei que continue namorando com minha filha após saber disso? (olha para o chão)

[Matheus] Que foi? Que que o senhor tá olhando?

[Pastor Olívio] Seu cadarço. Está desamarrado.

[Matheus] Ah, é mesmo. Segura de novo aqui pra mim, fazendo um favor. (entrega a arma para o Pastor Olívio, ajoelha-se e amarra o tênis, enquanto tem a arma perigosamente apontada para sua cabeça) Obrigado. Voltando ao assunto... onde que a gente parou mesmo?

[Pastor Olívio] Na parte que você me assaltava.

[Matheus] Ah é. Então devolve meu revólver antes. (pega o revólver novamente) Ergue as mãos! Passa a grana!

[Pastor Olívio] Mas meu filho, quantas vezes eu tenho que te dizer que eu não tenho dinheiro.

[Matheus] Ah, e por falar em dinheiro, eu não dei o meu dízimo do mês passado. Mas olha que sorte, ele está aqui no meu bolso. Toma pastor. (entrega um envelope para o Pastor Olívio). Ore por mim.

[Pastor Olívio] Ok. Erga suas mãos. (Matheus entrega a arma para o Pastor Olívio, e ergue as mãos, à moda dos crentes. Com uma das mãos, o Pastor Olívio segura a arma de Matheus e a outra fica posicionada sobre a cabeça de Matheus, numa típica imposição de mãos.) Pai, nós estamos aqui nesta noite...

[Matheus] SIM PAI!

[Pastor Olívio] Para orarmos pela vida do teu servo Matheus, Pai...

[Matheus] SIM, OH PAI!

[Pastor Olívio] Oh Deus, nós te agradecemos pelo dízimo do teu servo...

[Matheus] SIM, OH DEUS!

[Pastor Olívio] E pedimos que o Senhor abra as portas do céu e que a vida dele transborde com as tuas bênçãos...

[Matheus] Ô ALELUIA!

[Pastor Olívio] Encha-o das tuas riquezas...

[Matheus] ALELUUUUIA!

Um carro da polícia passava naquela rua no momento da oração. Matheus e Pastor Olívio estavam tão concentrados que sequer perceberam. Os policiais, quando viram a cena, interpretaram-na de forma completamente distorcida. Ambos os policiais da patrulha daquela região viram um bandido de terno, assaltando um rapaz (Matheus). Este aparentava tanto medo que estava, além dos braços erguidos, com os olhos cerrados. O outro, além de apontar-lhe o revólver na fronte, impunha a mão na cabeça do outro, numa estranha ameaça que falava ao pé de seu ouvido. Assim que viram a cena, os policiais não titubearam. Pararam o carro, desceram já sacando as armas, e atiraram na cabeça do Pastor Olívio.

[Pastor Olívio] Por isso nós te pedimos e te agradecemos, em Nome de Jesus...

Estampido de tiros.

[Matheus] AMÉM!

[FIM]

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

O Emprego - Parte III


{Aprecie agora mais uma parte desta saga, que foi um dos maiores erros que já cometi neste blog.}

O escritório na verdade era uma cozinha simples, com um fogão repleto de restos de comida, especialmente pizza, e uma mesa de madeira ordinária com três cadeiras. Matheus sentara-se ereto numa delas, bem de frente a Bazé. Matheus sentia o insuportável cheiro de fezes que inundava a cozinha. E ele sabia exatamente de onde provinha o cheiro. Os sucessivos sustos que levara quando apontaram a arma para sua cabeça fizeram com que seus esfíncteres se soltassem, deixando que as fezes saíssem em abundância de seu interior, sendo apenas contidas pela cueca branca que usava. No escritório/cozinha, tentara se sentar com delicadeza, para impedir que a situação fosse ainda pior. Mas de nada adiantou. Quando se sentou, sentiu o excremento macio sendo apertado de encontro a sua bunda e espalhando-se em contato com o períneo e testículos. O odor foi quase que imediato. Sentado à sua frente, se Bazé sentia o cheiro, não o demonstrava de forma alguma.

- Então filho, o que é isso na sua mão? – indagou Bazé, levando a latinha de cerveja à boca.

Matheus olhou para a mão e lembrou-se que carregava o seu currículo e demais documentos. Disse para Bazé do que se tratava. Bazé pediu que lhe entregasse seu currículo. Pegando o currículo da mão de Matheus, Bazé tirou do bolso um isqueiro e queimou-o, sem sequer lê-lo, para estarrecimento de Matheus.

- Tu já matou? – perguntou Bazé.

- Não senhor.

- Já roubou?

- Não senhor.

- Tem passagem?

- Não senhor.

- Tu sabe usar uma arma?

- Não senhor, mas tenho interesse em aprender.

A bofetada pegou-o de surpresa. Sempre ouvira em palestras que, quando não tivesse experiência em algo, deveria demonstrar ao entrevistador que tinha interesse em aprender. Aparentemente, Bazé não gostara da resposta.

- Nunca mais repita isso, filho! – disse Bazé, em tom admoestador, mas sem erguer o tom de voz. E após uma pausa – Tu usa droga? Tem algum vício?

- Não senhor. Não senhor.

- Ótimo. – Bazé sorriu. Em seguida, levantou-se e começou a andar pelo pequeno escritório/cozinha. – Filho, eu gostei de você. Pra mim o cara tem que ter muito sangue frio e muito peito pra cagar, sentar em cima e fingir que ninguém percebeu. – Matheus enrubesceu. – Porém eu preciso fazer um teste contigo, pois preciso que tu me dê uma prova do teu valor, de que pode trabalhar pra mim. Tu topa fazer o teste?

- Sim senhor.

- Nunca mais me chame de senhor! – gritou Bazé, ao mesmo tempo que desferia nova bofetada em Matheus. Este sentiu que sua cabeça iria explodir, tamanha a força empregada na bofetada que recebera. Em seguida, numa súbita mudança de temperamento, Bazé disse sorrindo, com a voz mais mansa do mundo – Me chame de Bazé.

- Sim, Bazé. – falou Matheus, lutando contra a vontade de levar a mão para massagear a face atingida.

- Outra coisa importante: aparência! Se tu for trabalhar pra mim, precisa ter aparência. Olhe só para você, como está ridiculamente vestido! O que é que vão dizer de mim, se virem que um cara que trabalha pra mim se veste desse jeito? Trate de mudar de roupas para o teste.

- Sim se... Sim, Bazé. – disse Matheus, corrigindo-se a tempo.

- Ótimo. O teste será bem simples. Tu vai pegar uma arma e vai ter que fazer uns assaltos. Não me importa quem tu vai assaltar, desde que não seja alguém aqui das minhas quebradas. O importante é que tu levante 500 pilas pra mim até meia-noite. O Cotó e o Fósforo vão te emprestar uma arma pra tu poder trabalhar. Eles também vão te seguir e te vigiar pra ver se tu não tá trapaceando. Depois eles vão me contar como foi tudo. Tu tem até meia-noite pra voltar com pelo menos 500 pilas aqui, em dinheiro ou em produtos. Boa sorte.

- Obrigado. Prometo não decepcioná-lo, Bazé. – disse, Matheus.

- Mas é um viado mesmo... – disse Bazé consigo mesmo. – Ok filho. Mas antes trate de tirar essa merda de roupa.

[CONTINUA]

domingo, 12 de agosto de 2012

O Emprego - Parte II


{Quando comecei a escrever este texto, ainda me encontrava desempregado. Agora, no momento em que posto a parte II desta trilogia, já estuo trabalhando e me encontro extremamente cansado, apresentando sinais claros de burnout. Mas como isto não vem ao caso, passemos a continuação da história, que ainda segue meus princípios éticos de suprimir qualquer palavra de baixo calão do texto, substituindo-as por expressões mais leves.}

Assim que Matheus abriu e atravessou a porta, um dos rapazes que se encontrava sentado ali na sala gritou, após uma súbita injeção de adrenalina.

- Mas poxa vida! Atira nele Cotó! Atira!

O companheiro dele, Cotó, também com uma injeção de adrenalina a inundá-lo, sacou o revólver e já ia atirar, quando Zeca apareceu gritando e tentando apaziguar a situação:

- Droga, não atira não, Cotó! Esse aqui é o Matheus de quem eu tinha falado. O chefe de vocês vai conversar com ele para oferecer um trampo pra ele!

- Droga Zeca! E porque você não disse antes que esse tal de Matheus era branco? - indagou Fósforo, irritado com a situação, e também apreensivo para ver se Cotó realmente controlaria o impulso de puxar o gatilho.

- Ih, mano, foi mal. Eu esqueci completamente desse detalhe... – desculpou-se Zeca.

Matheus tinha taquicardia. O susto fora tremendo. Nem deu tempo para se recuperar da emoção inicial. A porta que dava acesso a outro cômodo da casa abriu-se. Dela, apareceu um homem negro, vestindo uma camiseta regata branca, que deixava os braços musculosos e cheios de tatuagem à mostra. Assim como os demais, também vestia shorts e chinelas. Tinha brincos nas orelhas, anéis em vários dedos e uma grande corrente pendurada no pescoço, com um pingente em formato de letra B.

- Mas o que é que tá acontecen... DROGA! – disse Bazé, o negro forte, da corrente no pescoço, ao mesmo tempo que sacava a arma e dava o primeiro tiro na direção de Matheus.

- Calma Bazé! Calma Bazé! – gritaram em uníssono, Cotó, Fósforo e Zeca. Os gritos serviram para que Bazé parasse, antes de puxar o gatilho pela segunda vez. Aparentemente, Bazé também confundira Matheus com um tira à paisana. Depois de explicarem o mal entendido para Bazé, este disse:

- Caras, vocês me assustaram legal! – e olhando para Matheus, que ainda tremia sem parar – E você deu uma sorte imensa, piá. Quando eu atiro, eu não costumo errar. – e depois mostrou um radiante sorriso, ao mesmo tempo que se aproximava e punha uma das mãos sobre o ombro de Matheus – Vamos entrar no meu escritório para conversarmos, campeão!

[CONTINUA]

quinta-feira, 12 de julho de 2012

O Emprego - Parte I

{Este texto possui o menor número de palavras de baixo calão possível, pois eu sou um menino educadinho. Dedico este texto para minha mãezinha, que sempre quer que eu arrume um emprego. Dedico também para todas as outras pessoas que estão na busca por emprego. E por último, mas não menos importante, dedico este texto ao Julius - que possui dois empregos -, a todos os cegos, aos analfabetos e às criancinhas desnutridas da África.}

Matheus vestia-se em traje social completo: camisa social, calça social, sapatos sociais, gravata e paletó. Tudo emprestado de seu amigo Zeca, que, por sua vez, pedira emprestado para um tio. De pé no quarto, besuntando o cabelo com azeite, Matheus terminava de se arrumar. Deitado na cama, estava Zeca, vestindo bermuda, camiseta regata e chinelas. A cabeça repousava sobre os braços, que estavam erguidos. E na cabeça, seu inseparável boné fedorento. Enquanto penteava o cabelo, Matheus conversava com Zeca.

- Zeca, foi muita gentileza do seu tio ter emprestado estas roupas para eu usar. Não sei o que seria de mim se não fosse esta ajuda.

- É, o meu tio é mó gente fina! - disse Zeca. - Pena que ele foi preso. - completou. - Por estupro. - completou mais uma vez. E após uma última pausa, encerrou seu pensamento - E virou mulherzinha na prisão...

- Cara, você é um amigão mesmo! - disse Matheus, tentando quebrar o incômodo silêncio. - Quando você me disse que conhecia um cara que poderia me conseguir uma entrevista para este emprego, eu não acreditei, mas você conseguiu mesmo! - e após uma pausa: - Zeca, eu já tentei emprego em outros lugares, mas nenhum em lugar com tanto prestígio quanto este. Se eu conseguir este emprego, meu currículo vai lá pra cima! Que Deus me ajude!

- Amém, mano! - respondeu Zeca, complementando sua resposta com uma eructação.

Matheus deu uma última conferida no espelho. Estava pronto. O cabelo, penteado para o lado direito, brilhava com o excesso de azeite que fora passado no mesmo. Totalmente bem vestido, ele sentiu-se importante usando aquela indumentária social. Anunciou a Zeca que estava pronto. Levantaram-se e saíram. Matheus levava apenas uma pasta transparente consigo, contendo documentos e currículos. Ele exultava com o fato de ter aquela oportunidade de emprego. Nos últimos dois meses, apenas três chances mais claras de emprego, todas mal sucedidas após a entrevista inicial. A frase "qualquer coisa entramos em contato" era seu recorde atual. Sendo um aluno totalmente aplicado, Matheus lamentava por ainda não ter conseguido um emprego, desde que partira em busca de um. Aparentemente, sua aplicação na sala de aula não tinha relevância no momento de buscar uma vaga no mercado de trabalho.

Andando lado a lado rumo ao local da entrevista de emprego, as figuras de Matheus e Zeca provocavam um enorme contraste: além da diferença de como se vestiam, Matheus era quase um palmo mais alto que o amigo, além de ser branco. Zeca, por sua vez, além de ser negro, cultivava um ralo buço acima do lábio, que ele insistia em chamar de bigode. Já Matheus, não possuía sequer um pelo no rosto. Até mesmo o jeito de andar dos dois formava um contraste bizarro: Matheus andava de maneira elegante, fazendo jus a roupa que vestia, enquanto que Zeca andava relaxadamente, agitando repetidamente os braços. Durante o trajeto, Zeca contava suas últimas conquistas amorosas: beijei uma gata, comi uma gostosa, uma coroa ajeitadona deu mole pra mim no baile e blá blá blá. Só não sabia ele que Matheus não prestava a menor atenção em sua palestra, absorto em seus próprios pensamentos, ansioso pela entrevista que o aguardava.

Matheus não sabia onde ficava o local de sua entrevista, por isso seguia os passos de Zeca. Após quase quinze minutos de caminhada e resenha, Zeca parou de falar de suas conquistas para finalmente anunciar que tinham chegado.

Indicando o lugar onde deveriam entrar, Zeca bateu na porta com um toque rítmico. Deveria se tratar de alguma espécie de código secreto. Do outro lado, uma voz masculina gritou que podia entrar. Zeca, fazendo uma mesura, pilheriou:

- O senhor primeiro, excelência.

Sorrindo, Matheus tomou a frente e girou a maçaneta para abrir a porta que Zeca lhe indicara.

[Continua]