sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Memórias do Cárcere - Parte IV

Penúltima parte da narrativa sobre minha aventura prisional.


CAPÍTULO 7 – O PANOPTISMO

Um recurso para o bom adestramento, que discutirei em separado, é o do panoptismo, ideia inaugurada pelo desocupado do filósofo Jeremy Bentham e posteriormente emprestada pelo invertido – no sentido freudiano – do Michel Foucault. Antes que isso se torne uma aula chata de filosofia, vou explicar o cerne da ideia do panoptismo: criar um ambiente cuja geografia transmita ao prisioneiro a sensação de que ele é/pode estar sendo observado ininterruptamente, sem que de fato seja necessário que as autoridades efetuem a observação o tempo todo.

A câmera disposta na frente da cela tinha esse intuito. A geografia da cela, confesso, não foi tão bem planejada para esse fim. Mas tudo bem, aquilo não era uma cadeia de verdade, então não podia se exigir muito. A vigilância era suficiente para nos controlar. Embora, ninguém ali pretendesse fugir. Não que pudéssemos fazê-lo, caso quiséssemos. Esse é um bom caso em que a premissa “querer é poder” não se aplica.

R, um dos autores desse blog, tinha uma teoria tão boa quanto a teoria de Bentham. Na casa onde cresci e vive até me mudar para Brasília, o banheiro era em formato de “L”, conforme imagem a seguir:

 Representação do banheiro da casa onde cresci. A parte mais clara esquematiza o meu provável campo de visão
quando estou tomando banho debaixo do chuveiro. A parte mais escura ilustra a minha eterna dúvida: haverá
alguém me espiando enquanto estou nu fazendo minhas abluções, com minhas vergonhas de fora?


Eu disse para R que, apesar da porta do banheiro estar fechada com chave, quando eu tomava banho, sempre temia que alguém entrasse no banheiro e ficasse espreitando, me espiando enquanto eu tomava o banho (sim, eu sou egocêntrico e acho que todo mundo quer me ver pelado). Para evitar tal sentimento, eu costumava tomar banho sempre voltado para o resto do banheiro, todo o tempo que eu podia, jamais para a parede do fundo do banheiro. É claro que eu não olhava sempre, pois me virava para pegar o sabonete, para lavar o corpo e também fechava os olhos para enxaguar o cabelo, cheio de espuma do shampoo. A grande teoria do R diz o seguinte: você nunca poderá ter certeza de que não tem ninguém te observando tomando banho, você só pode ter certeza de que não está sendo observado nos momentos em que você está observando se alguém o observa ou não. Acho que essa teoria é tão boa quanto a anterior – de Bentham – para ilustrar minha ideia sobre a observação policial no cárcere.

Aproximadamente trinta minutos depois (ou pode ter sido várias horas depois, pois perdi a noção de tempo no cárcere) fomos visitados por policiais, que nos assujeitaram, mandando que pegássemos nossos pertences e seguíssemos em fila indiana o caminho que eles nos indicavam. Eu já estava feliz, achando que minha reclusão estava para terminar precocemente, bem mais rápido do que eu esperava. Mas eu me enganara. Eles estavam apenas nos mudando de cela. Depois eu soube que era porque uma fêmea fora presa, a primeira até ali, e devido à falta de celas disponíveis, teriam que mudar nosso grupo de lugar, para que nossa antiga cela servisse de cela vip para a garota. Nada contra isso. Mas é curioso. Regras são regras. Podem tirar nossa roupa, nossa dignidade e nos subjugar à vontade. Mas botar uma garota na mesma cela que vários rapazes vai contra as regras, pois poderíamos estuprá-la. Aliás, bem provável que isso acontecesse, afinal, éramos quatro bandidos perigosíssimos e incontroláveis, transbordando testosterona e loucos para saciar nosso enorme apetite sexual; e não um grupo de quatro pessoas com argumentos razoáveis num protesto pacífico, que estariam presos com uma garota, que fazia parte do mesmo protesto e, portanto, era uma companheira, ainda que desconhecida, ligada a nós por uma mesma causa – e pela mesma injustiça.

Em nosso novo lar, já havia, para surpresa minha, entre quinze a vinte pessoas (não me recordo o número exato). A primeira impressão foi pesada – e ao mesmo tempo engraçada –, a de ver tanta gente numa mesma cela. Não sabia se eram presos políticos como nós quatro, ou se eram de outras ocorrências alheias a da manifestação. Logo depois, eu soube que estávamos todos no mesmo barco furado. O único negro da cela, ao ver Chris, exclamou, em tom jocoso:

- Até que enfim chegou outro negro aqui!

Todos riram de sua frase, mostrando o ar descontraído da cela. Ali todo mundo já estava amigo, contando sua trajetória daquele dia, os acontecimentos que culminaram em suas respectivas prisões. O anteriormente único negro citado, contou que foi atropelado por policiais para ser preso. Fiquei surpreso, o que teria feito aquele sujeito, para ser tratado pior do que animal? Devo ressaltar que reparei que ele tinha apenas uma mão. Eu soube posteriormente, há apenas alguns dias atrás, através de texto escrito por esse cara em jornal da UnB, que ele nascera daquele modo, e sofrera humilhações absurdas por parte de policiais por conta de sua raça e de sua deficiência. Parece que, depois dos policiais (que já estavam com sangue nos olhos desde o início da manifestação, visando ele, provavelmente por conta de sua cor) o capturaram, atropelando-o e algemando-o, em dado momento suas calças começaram a cair e ele pediu para que um dos policiais as erguesse por ele. Em tom zombeteiro, o policial teria respondido para ele próprio levantar, numa dupla afronta: primeiro pelo fato dele estar algemado, segundo por zombar da deficiência dele (posso ter subvertido um pouco da história original de meu companheiro de prisão, peço desculpas se o fiz, o objetivo não foi esse).

Imagem que mostra um dos vários atropelamentos acidentais sem querer querendo de propósito, ocorridos no dia da
manifestação. Este vídeo foi exibido ao vivo dentro do programa global Caldeirão do Huck, na Central da Copa. Num
desses atropelamentos, a vítima foi um de meus colegas de cárcere, que foi convertido como acusado.


Mesmo muitos de nós tendo passado por abusos e excessos policiais, todos estávamos tranquilos na cela, pois tínhamos a consciência tranquila e a certeza de que havia muitas imagens favorecendo os manifestantes. O pessoal continuava narrando suas aventuras, de modo bem humorado. Quando o grupo começava a rir ou a falar um pouco mais alto, aparecia um policial e nos dava bronca:

- Cala a boca, porra! Tão pensando que isso aqui é feira ou o quê?!

O tédio era tão grande na cela que, como observamos posteriormente, todos já havíamos trocado de lugar na cela umas três vezes, em relação ao lugar original que cada um ocupava no início. Aqui eu preciso abrir um parêntesis e contar algo bem engraçado que aconteceu na cela. Foi quando um advogado da OAB foi até a cela e emprestou seu celular para todos que quisessem fazer uma ligação. Eu não consegui entrar em contato com ninguém, mas isso não importa agora. O Chris, ao contrário de mim, conseguiu fazer sua ligação. Todo mundo conversava animadamente, enquanto as pessoas faziam suas ligações. Mas no exato instante que a ligação de Chris foi completada e ele falou, coincidiu um silêncio na cela.

- Oi amor. – disse Chris.

Essas palavras foram suficientes para todos exclamarem um “huuum” zombeteiro, tirando um sarro da cupidice de meu amigo.


CAPÍTULO 8 – A PUNIÇÃO GENERALIZADA

Recebemos algumas visitas durante nossa prisão. Dois advogados se ofereceram para assessorar os membros do movimento que foram presos, um deles, o advogado citado anteriormente quando da nossa chegada à delegacia.

Outra visita que recebemos foi da Deputada Distrital e psicóloga Érika Kokay, que inclusive entrou na cela e tocou meu ombro (o são, não o ferido). Eu nunca mais lavei o ombro desde então. Brincadeiras à parte, pouco conheço da trajetória política de Kokay, sei apenas de sua luta LGBT e em favor dos Direitos Humanos, sendo esta última a razão dela estar ali. Ou poderia ainda ser lobby político, já que ano que vem é ano de eleições. É difícil concluir quais eram as motivações dela estar ali. O discurso foi bonito. Suas intenções permanecem uma incógnita para mim. A conclusão foi que ela convidou para que todos comparecerem ao gabinete dela no Congresso, pois ela gostaria que fizéssemos nossos depoimentos na Comissão de Direitos Humanos (aquela bem polêmica, presidida pelo Deputado Marco Feliciano).

A Deputada Distrital Erika Kokay, que nos visitou no xadrez.


Os ânimos na delegacia estavam alterados, pois a mídia cobria o ocorrido, ou seja, o trabalho deles era de certa forma fiscalizado pela imprensa. Kokay só conseguiu entrar ali por conta de seu prestígio e de sua posição política. Algo inusitado aconteceu quando ela entrou na cela. Nós estávamos tossindo, pois o cheiro de spray de pimenta se fez muito forte dentro da cela. Há quem cogite a hipótese de algum policial ter ido pelo lado de fora da delegacia e espirrado spray de pimenta através da janela da cela, apenas para nos torturar naquele já apertado espaço. Não posso afirmar isso, mas o fato é que todos começaram a sentir irritação na garganta e a tossir simultaneamente. E para sorte nossa, Kokay chegou logo após o cheiro ficar mais forte, e também tossiu e sentiu um pouquinho do “tempero” apimentado da polícia.

Após a saída de Kokay, fomos visitados por policiais militares de diversas unidades, em especial do Choque, que iam até a grade da cela acompanhados de um policial civil, aí apontavam uma lanterna pra nossa cara e o policial do Choque apontava o dedo para um de nós. Alguns acham que ele estava escolhendo qual era o mais bonitinho, outros qual ele gostaria de adotar. Eu ainda acho que os policiais do Choque, após uma violenta ação policial, estavam tentando inverter a mesa e acusar alguns de nós de os agredirem! Que absurdo! Como é que um civil desarmado agride um policial do Choque que está com armas com bala de borracha, escudos e cassetetes, e ainda por cima junto de um pelotão igualmente armado e articulado entre si?

Alguns de nós, os lesionados (exceto eu, pois minha lesão não era ocasionada por agressão, e sim por burrice minha), foram retirados da cela para atendimento médico, entre eles o cara anteriormente citado, atropelado pelos policiais.

O primeiro policial civil que nos abordara chegou à cela um bom tempo após a saída de Kokay, dizendo que assinaríamos um papel em duas vias e depois seríamos dispensados. Disse que não era para lermos o documento, pois ele não tinha a noite toda – porra!

Ele chamou nome por nome para que assinasse os papeis. Um dos detentos rabiscou uma assinatura, gerando um enorme transtorno para si mesmo.

- O que você fez aí? Essa é a sua assinatura? – disse o civil.

- É. – respondeu o detento, com ar assustado.

- Tá assim no seu RG?

- Mais ou menos...

- Tá de brincadeira com a minha cara, porra! Cê acha que eu to brincando aqui? Agora você vai fazer igualzinha a outra assinatura, senão você não sai dessa cela aqui essa noite! Porra!
Aparentando medo, o cara copiou a primeira assinatura que inventara e, por um milagre, conseguiu reproduzi-la.

Uma das orientações do manual do bom manifestante é: ser for preso, jamais assine nada sem ler. Praticamente ninguém leu o documento, na euforia de sair logo dali e também pela ameaça do policial civil. Alguns, como eu, passaram rapidamente os olhos pelo documento, fazendo uma leitura dinâmica de seu conteúdo. Mas o fato é que todos estavam ansiosos para terem de volta algo que lhes custava muito e que só foram perceber assim que a perderam: suas liberdades.


Continua...

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Memórias do Cárcere - Parte III

Continuação de minha narrativa. Se você não leu a primeira e a segunda parte, clique aqui e aqui, mas não aqui.


CAPÍTULO 5 – O CARCERÁRIO

Em primeiro lugar, preciso dizer que eu fiquei numa cela. Mas eu não estava numa cadeia. Aquela cela serve apenas para manter autores em flagrante delito até os burocratas do sistema (delegado e juízes) decidirem o que fazer com os mesmos: encaminhar para a Papuda (prisão local), conceder liberdade, atiçar fogo e jogar as cinzas no lago Paranoá ou alguma outra decisão mirabolante da [in]Justiça.

O policial civil que conduziu a nós quatro para nosso novo lar não parecia muito simpático. Até hoje eu conjecturo o motivo dele estar tão puto. Estaria ele com raiva da gente? Era tão estranho aquilo. Até cinco minutos atrás, ele sequer nos conhecia, nunca nos vira antes (agora os policiais que participam da história não são os mesmos de antes, em sua maioria, são civis). Nem sabia exatamente por que estávamos sendo presos. Não desrespeitamos ele em nenhum momento. Então, o que era tudo aquilo? Era fingimento? Será que fazia parte da necessidade de seu trabalho que ele se imbuísse de uma expressão iracunda para transmitir maior seriedade ao exercício de suas funções? Conforme postula Erving Goffman, seria essa uma “representação do eu” daquele civil? Compreendo perfeitamente que cada um de nós, conforme afirma Goffman, atua conforme o ambiente em que está inserido, o cenário que está e os atores que interagem conosco. Mas mudanças tão drásticas e contraditórias de comportamento para mim são difíceis de imaginar. Não consigo pensar naquele civil num culto religioso, ou em seu lar, brincando com a filhinha de três aninhos, todo doce, e depois ir cheio de ternura para perto da esposa. Para mim é indissociável aquela postura do civil com sua personalidade (ainda que eu possa estar errado).

Antes de chegar à cela, perguntei-me se eu apanharia dos policiais, se sofreria alguma espécie de agressão ou tortura psicológica. Não estou pensando em nada exagerado, como em guerras, mas apenas umas porradas, socos e pontapés. Não lembro exatamente o que aconteceu, mas primeiramente só chegamos à cela Chris e eu, os outros dois caras ficaram para trás, acho que eles queriam nos mandar para a cela aos pares, estilo casais. Defronte a cela havia uma câmera. No entanto, o policial civil pediu (leia-se ordenou) que nos dirigíssemos ao ponto cego da câmera, isto é, ao único lugar onde a câmera não conseguia filmar. Óbvio que ele não disse que era o ponto cego, mas era só olhar a posição da câmera e o local onde ele nos mandou ir, e fazer as deduções lógicas.

Esquematização do lugar onde ficamos no início de nossa prisão. Existe apenas
uma coluna que separa o banheiro do resto da cela, sem qualquer privacidade ou
dignidade para o detento. E a câmera não inibe abusos policiais.


Prosseguindo, o civil ordenou que Chris e eu fôssemos até aquele cantinho e tirássemos nossa roupa. Ah, então chegara o momento da nudez. O tão temido momento da nudez! Eu, que antes dos dezoito anos, achava que o momento da nudez viria junto com a maioridade, no alistamento militar, quando iria para o tiro de guerra e tomaria banho com mais trinta homens pelados. E que logo após fazer dezoito anos e superar o mito da nudez do alistamento militar, passei a considerar que a exposição de minha nudez se daria através do coito, de exame de próstata e de autópsia – não necessariamente nessa ordem e não necessariamente cumulativos. Foi com a mesma esperança que eu tenho de um dia ganhar na loteria sem jamais jogar, que eu fiz a pergunta a seguir ao civil, esperando receber um “não” como resposta: toda a roupa, senhor?

- Toda a roupa, porra!

Não bastasse a prisão, eu fui preso com um negro. Como ficar nu junto com um negro e não se sentir inferiorizado? Como não se sentir uma criança comparado aos dotes do coleguinha ao lado? Naquele momento, aprendi uma técnica de como ficar nu sem se envergonhar. Já dizia Chespirito, através de sua personagem Chiquinha: o que os olhos não veem o coração não sente.

Sendo assim, basta tirar a roupa sem olhar para seu próprio corpo. Não tome consciência de sua ridícula nudez, e tudo sairá bem. Ah, e também não tome consciência da nudez da outra pessoa, principalmente se ela for negra. A menos que seja no coito, aí eu recomendo que você o faça, pois a visão é um importante sentido durante a cópula. Mesmo sem olhar, pude notar que eu me despi rapidamente, terminando primeiro que o Chris. Ele estava com vergonha de mostrar algo. É claro que eu não vou dizer aqui do que se trata (óbvio que não é o genital), para não constrangê-lo, caso a identidade dele seja eventualmente conhecida por algum leitor deste blog. Nós fizemos um juramento, de que algumas coisas que aconteceram entre aquelas três paredes, atrás das grades, manteríamos em segredo e levaríamos conosco ao túmulo.

Até hoje o Chris me relata que suou em bicas enquanto tirava a roupa, tudo porque vira com o rabo do olho que o policial civil vestia uma luva médica nas mãos naquele momento. Sabe o que eu pensei naquele momento, Kily?, relatou-me Chris. Eu pensei assim: “será que eles fazem exame retal gratuito aqui no corró?”.

É incrível como a nossa mente tem a capacidade de nos pregar peças. Digo isso, pois tenho certeza absoluta de que Chris nesse momento alucinou, e logo depois, fui eu quem teve uma alucinação, sendo a dele visual e a minha auditiva. Em momento oportuno, conto como foi. Com Chris e eu nus em pelo, o civil ordenou que fizéssemos três agachamentos, ao que ele contou: UM! DOIS! TRÊS!

Satisfeito com o fato de nenhum artefato bélico ter sido expelido por nossos respectivos ânus, ele ordenou que colocássemos novamente a cueca (eu, além de cueca, humilhantemente usava também samba-canção). Fui vestindo minha roupa, pensando em minha amada namorada, para quem eu guardava a sete chaves a minha casta nudez, expondo-a totalmente apenas no recôndito de meu banheiro. E de repente, todo aquele voto de pureza jogado por água abaixo, tudo por culpa d’O Estado¹. Em seguida, mandou pegarmos nossas calças e tirarmos o cinto. Ele perguntou para Chris se ele estava com carteira, ao que ele respondeu que estava. Ele mandou Chris tirar o dinheiro da carteira, e ele obedeceu.

- Agora come!

Eu gelei. E se aquele desgraçado pedisse pra eu comer o meu dinheiro também? Eu estava com uma quantia considerável na algibeira, e não estava com fome a ponto de querer comer meu dinheiro. Preferia usá-lo para comprar algo mais apetitoso, quem sabe um pastel na Viçosa. Percebi que Chris não comeu o dinheiro e que ele informou quanto tinha, guardando-o na carteira a seguir. Posteriormente, Chris me contou que o civil dissera “conta”. Por algum motivo macabro, eu alucinei “come”.

Depois de ordenar que colocássemos nossas calças (porra!), entramos sem camisa e descalços em nosso novo lar, fedendo a urina (o lar fedia a urina, e não nós dois).

Nossos coleguinhas vieram em seguida, tendo sua humilhação dobrada, pois ficaram nus diante de nós. De minha parte, em respeito ao assujeitamento deles, olhei para o nada, evitando vê-los nus. Naquele momento, Chris e eu estávamos na cela, mas ainda de pé, com as mãos para trás, minhas calças caindo devido ao meu corpanzil raquítico e a ausência de cinto. Logo depois que os amiguinhos pelados entraram na cela (realmente, não consegui detectar o procedimento padrão para presidiários, pois eles permaneceram pelados, sem o mesmo direito que a nós foi dado, de vestir pelo menos as calças), o civil resolveu perguntar se todo mundo era di maior. Eu, Bin Laden – apelido carinhoso que o civil me deu durante meu período de reclusão, e que pegou até o final –, afirmei que sim, Chris também. Já os dois companheiros, bem mais altos que eu – o que não é lá grande coisa, sequer é motivo de orgulho, já que sou nanico –, afirmaram serem di menor. O outro policial, que agora acompanhava nosso policial-camareiro, soltou um “porra” (o vocábulo, e não o fluído corporal), que assim como todos os outros que eles falavam, não tinha qualquer função sintática na frase, denotando apenas uma fragilidade verbal dos membros da corporação.

Menores não podem ficar presos junto com maiores de idade. É essa a regra. Eles eram maiores do que eu, na altura, mas quem sou eu pra mudar o regulamento? Nem os policiais têm esse poder. Então a opção foi dar continuidade ao jogo segundo as regras pré-estabelecidas. Continuemos com a farsa!



CAPÍTULO 6 – OS RECURSOS PARA O BOM ADESTRAMENTO

Alguns minutos depois, um policial civil munido de câmera fotográfica foi até nossa cela registrar aquele momento. Foi tão lindo! Achei doce aquele gesto dele, imortalizando aquela confraternização na delegacia, deixando Chris e eu fazermos poses, tirando foto de frente, de perfil e num ângulo de 45 graus (ou de 135 graus, dependendo do seu ponto de vista).

Chris e eu sentamos no chão da sala, cheirando a fezes. Então percebi que Chris estava com os olhos brilhando, a olhar na direção de meus pés. Foi quando senti meu rosto ruborizar: pela primeira vez em muito tempo, alguém via meus pés nus. A parte mais sagrada de meu corpo, o meu mais poderoso órgão sexual estava ali, despido de qualquer meia, polainas ou outro calçado que pudesse escondê-lo da cobiça alheia. E justo para um podofílico (podo, do latim PODUS, que significa pés, não tem nada a ver com pedofílico).²

- Finalmente eu vi seus pés. – disse Chris, em tom zombeteiro.

Sem graça, eu dei alguma resposta ininteligível. Tentei lembrar-me da última vez que alguém vira meus pés. Provavelmente, fora a seis meses atrás, quando eu estava em minha casa, em minha cidade natal. Obviamente, as pessoas que viram minhas vergonhas foram meus pais e minha irmã, as únicas pessoas que tinham esse direito, pois sabia eu serem as únicas que não me atacariam ao vê-los. Nem minha namorada via meus pés – eu não permitia tal disparate –, senão tenho certeza que ela me faria de gato e sapato (sem sapato), me usando como seu objeto sexual. Eu bem sei as armas que eu tenho escondido dentro de minhas meias, por isso as guardo e uso com sabedoria.

Entendi, naquele momento, que este era um dos principais recursos para o bom adestramento na prisão. Um dos objetivos da prisão é o de tirar toda individualidade do preso, sua dignidade e sua personalidade. Meu cognome, Bin Laden, já era uma dica de que o objetivo dos policiais era o de me humilhar. Alguns minutos depois, enquanto Chris e eu continuávamos sentados no chão da cela, mais dois vagabundos foram levados para o mesmo cantinho nosso. Era a vez de sua humilhação particular. Particular, e nada íntima. Chris e eu pelo menos tivemos a sorte de não sermos observados por nenhum outro recluso, quando tirávamos nossas roupas. Não posso responder pelo Chris, mas de minha parte, procurei não manter contato visual com o lugar onde os novos companheiros estavam (o ponto cego da câmera). O que relato a seguir foi apenas auditivo, embora eu possa imaginar a cena que se passava, já que eu passara pela mesma coisa minutos antes. Os dois rapazes foram conduzidos ao cantinho do nudismo, onde o mesmo policial civil com quem eu antipatizei mandou que eles tirassem a roupa. Um dos caras tentou ser educado com o policial e questionar – educadamente – se aquilo realmente era necessário. Só que uma coisa é importante que seja dita sobre policiais: eles não querem educação; eles querem submissão.

Devido à insistência do recente preso em questionar a retirada de sua indumentária, o civil decidiu humilhá-lo mais um pouco, fazendo alusão à pequenez de seus órgãos genitais:

- Que que foi, tá com vergonha de mostrar o pinto? Você tem o pinto pequeno? Tira logo essa porra dessa roupa que agora eu quero ver o tamanho desse pinto!

Assim que ambos tiraram a roupa, o policial disse que realmente os ditos-cujos deles eram pequenos. Eu não vi os respectivos pênis, mas mesmo assim tenho que defendê-los: tenho certeza que mesmo que eles tivessem uma tromba de elefante entre as pernas, o civil ainda assim diria que tinham genitálias pequenas. A ideia aqui é muito simples, explorar um mito cultural grandemente difundido e com grande valor para o ego masculino, submetendo-os a mais uma de inúmeras outras formas de humilhação.

Outro recurso para o bom adestramento é a privação de qualquer contato com o mundo externo. Exceto, é claro, que estávamos numa delegacia que ficava ao lado do Estádio. Então, enquanto o Neymar estava sendo exibido para um bilhão de pessoas, fazendo gols e se consagrando ainda mais, eu estava ali, bem perto dele, preso, escondido do mundo, que até hoje não sabe quem eu sou, mesmo eu sendo muito mais inteligente que o futebolista. A janela da cela não me permitia ver nada, além de um ínfimo pedaço do céu. Como eu nunca fui escoteiro, não conseguia determinar o horário. Tirar a noção do tempo é um importante recurso para adestrar o sujeito. Sabe quando o ano está acabando e você diz assim: “nossa, mas como passou rápido, parece que foi esses dias mesmo que o ano estava começando!”? Então, na prisão é exatamente assim, só que ao contrário. Quando você acha que está preso há um ano, descobre que deu entrada na delegacia há dez minutos. Agora eu entendo por que os presidiários dos cinemas fazem pauzinhos na parede da cela. É uma tentativa de não enlouquecer e manter o controle sobre algo em suas vidas, no caso, sobre o tempo.

Depois de algum tempo (que não sei quanto tempo foi porque perdi a noção do tempo), quando os dois novos encarcerados estavam na mesma cela que Chris e eu, começamos a conversar sobre ideologia política, anarquismo e essas bobagens que poderia ser discutida numa lanchonete, dentro de um ônibus ou numa cela de delegacia. Quando um policial passou pela cela, um dos novatos (não sei o Chris, mas eu já me sentia o veterano do xadrez) perguntou para ele se poderia ler dentro da cela. Já que não estava fazendo nada, ele gostaria de ler para passar o tempo.

Não tem nenhum mal no cara ler na cela. Só tem um problema nisso. Os policiais não querem que o preso sinta-se confortável ali. Se o tédio é um modo de impor sofrimento no vagabundo, então entediado lhe deixaremos. Esse é um dos lemas da prisão.

O militarismo costuma ser marcado por sua disciplina, tanto no que diz respeito à postura física, imponência, conduta ilibada, quanto o respeito à hierarquia, ao comando superior. E esta característica do militarismo é de alguma forma passada para os presos. A questão do machismo, da virilidade, do falar grosso, “que nem homem”, também são questões próprias deste adestramento. Foi ali naquela cela que eu percebi que o que acontece na escola, o que vivenciei por pelo menos onze anos de minha vida em sala de aula, é apenas uma forma minimizada de tratamento disciplinar, se comparado ao que acontece ali na cela. O palavrão, usando o substantivo “porra” como interjeição, o uso de verbos no imperativo, fazem parte desse adestramento, que visa tirar não só a liberdade espacial e temporal, de determinar por quanto tempo eu tenho delimitada a geografia de onde posso transitar, mas visa também tirar a liberdade individual, de escolher, de decidir sobre mim mesmo, tentando mostrar que minha única opção é a submissão. Na escola, aprendi o a-bê-cê-dê. E ali na prisão, tentaram me ensinar o ô-bê-dê-cê.


¹ Posteriormente, um amigo meu também foi preso em manifestação, e fiquei pasmo quando vi que em seu boletim de ocorrência, no campo “vítima”, constava a seguinte expressão: O Estado.

² Esta terceira parte da narrativa está extremamente didática.


Continua...

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Memórias do Cárcere - Parte II

Segunda parte de minha narrativa. Confira a primeira parte aqui.

Nota: Eu sou preconceituoso. Como todo mundo, tenho meus preconceitos. O problema não é ter preconceitos, mas sim ser incapaz de admití-los. Um de meus preconceitos é com a polícia, em geral. Embora a minha crítica seja com a corporação policial, a organização em si, muitas vezes eu penso através de metonímias, aplicando o mesmo pensamento que tenho em relação ao todo às partes. No entanto, quero deixar isso bem claro, pois nem todo policial é arrogante, prepotente ou abusivo. Só que automaticamente, eu os julgo assim. Infelizmente - para mim, para a sociedade e para todos os policiais -, essas características acabam sendo apenas um sintoma de todo um sistema doente e corrompido. A culpa disso não é dos policiais. Eles também são vítimas.


CAPÍTULO 3 – OS CORPOS DÓCEIS

Um exemplo de um corpo dócil.

- DEITA NO CHÃO! DEITA NO CHÃO!

Mas eu não estou com sono!

Joguei-me ao solo, sendo tão competente em obedecer ao comando do policial que parecia um transeunte pulando na frente do carro do CJ no GTA San Andreas – desculpem-me a nova analogia ao jogo, mas é que são muitas as semelhanças com a vida real. Para entenderem melhor, clique aqui. Na queda, eu consegui me ferir, não de forma letal, mas ralando o ombro direito e posteriormente ficando com um hematoma em formato circular, cuja circunferência tinha o tamanho próximo ao da de uma bola de tênis. De quadra.

Deita no chão! Deita no chão!

Mesmo sem ver o policial, eu tinha consciência de que a arma ainda era apontada para mim. Senti o segundo policial agachando-se perto de mim, segurando o meu braço direito e levando-o até as costas, com tanto carinho que nem minha mãe faria igual. Creio que o policial estava curioso para ver se eu era flexível, ele queria ver se era capaz de me fazer tocar minha própria nuca com meu dedo médio, estando meu cotovelo atrás das costas. Correção: ele sabia que conseguiria isso, o que ele queria mesmo era verificar se teria que me causar fraturas ou não para conseguí-lo.

Ilustração de como é feita a imobilização policial. Acho ela importante em determinados contextos.
Mas não oferecemos resistência, não estávamos armados e não fomos pegos em flagrante delito para recebermos tal tratamento.

Então voltamos ao início do texto. Se era objetivo do policial causar-me dor, ele estava sendo bem sucedido. Agora, se era seu objetivo levar-me a implorar clemência, neste aspecto ele não alcançou sucesso (ele também não conseguiu me fazer perder os controles esfincterianos). Eu tenho um enorme nariz. Com uma capacidade descomunal de sugar oxigênio. E naquele momento, ele trabalhava afoito na busca por mais ar, na tentativa de encontrar suas propriedades analgésicas e reduzir o desconforto causado pelo policial nas minhas costas. Se alguém olhasse para a estranha figura que eu fazia naquele momento, se lembraria de um peixe pulando no chão, de modo tolo, tentando sobreviver.

O que mais me irrita em lembrar daquele momento, é que eu não tinha nenhuma arma na mão, nenhuma pedra, coquetel molotov ou qualquer coisa que justificasse o excesso de poder do qual o policial fazia uso naquele momento. Provavelmente, se depois eu tivesse a audácia de perguntar ao policial porque tivera aquele comportamento, ele talvez dissesse a mesma frase nacionalmente atribuída ao Capitão Bruno, três meses depois: “Foi porque eu quis”. Quiçá acrescentasse um “porra”, no final da frase, por força do hábito.

Imagem autoexplicativa.

Outros policiais se aproximavam. Um deles “deixou o pé” na minha cabeça, seu enorme coturno me fazendo fechar os olhos. Do estranho ângulo de visão que eu tinha naquele momento, vi o policial que havia me chutado, em seu ar imponente, com mão no coldre, peito pra fora e barriga pra dentro, como manda o código de conduta do bom policial.

Opa, você bateu na minha cabeça, mas eu sei que foi sem querer, então tá desculpado, seu policial.

Esta fala aconteceu apenas na minha cabeça posteriormente, quando rememorei os acontecimentos daquela tarde. Evidentemente, o policial não fez qualquer menção ao pequeno – mas ainda assim desnecessário – chute que me dera. Na remota possibilidade de ter sido um choque acidental, não estava em seus planos pedir desculpas. Afinal, eu era apenas um vagabundo. E policial que é policial não pede desculpas, quem dirá para um vagabundo.

Eu nunca fui preso antes, sequer havia recebido uma abordagem de rotina por um policial. Mas já assisti Polícia 24 Horas o suficiente para compreender como se dá o processo de assujeitamento e submissão que os policiais impõem sobre o bandido – porque aqui no Brasil é assim: quem vai preso é bandido. As pessoas de bem não vão presas. Inclusive, se elas forem muito honradas, podem até galgar cargos honrados, lá no Senado ou na Câmara dos Deputados.

Prosseguindo, quando recebi ordens para levantar, o fiz calado. Mesmo antes de receber os comandos do policial, mantive as mãos para trás – em posição militar de “descansar” – e minha cabeça abaixada, iniciando a farsa que se dava início naquele momento: minha submissão física simbolizava uma submissão moral aos policiais; eles fingiam que têm esse poder, eu fingia que é real e todo mundo fingia que acreditava.

Quando levantei, percebi o Chris deitado próximo de onde eu estava – ele também não estava com sono, mas o pedido do policial era tão gentil que não havia como resistir. Aqui preciso glorificar seu gesto, pois Chris teria conseguido escapar da “abordagem” policial, mas foi altruísta ao ponto de colocar sua preocupação comigo acima de sua própria segurança e, principalmente, acima de seus instintos de sobrevivência.
 
A imagem do dia: enquanto os holofotes se voltavam para Neymar, ali ao lado do Estádio, no escuro
centenas de pessoas eram abordadas por uma despreparada força policial, agindo com excesso de poder.

Fui colocado lado a lado de Chris. Em seguida, fui parcamente revistado pelo policial, que não estava muito animado para tocar meu corpo a procura de facas, granadas e, quem sabe, metralhadoras. Pra quem não sabe, eu sou cabeludo e barbudo, e costumo amarrar o meu cabelo, seja penteado para trás ou repartido no meio, num rabo de cavalo frouxo. Só ressalto essa informação, porque a seguir o policial puxou-me com força pelo cabelo, me obrigando a dar dois passos cambaleantes em sua direção, tendo destreza para não perder o equilíbrio, já que eu ainda estava em posição de assujeitamento foucaultiano. Posteriormente, Chris disse que o policial me tratou igual uma quenga. Realmente, eu me senti uma prostituta sendo puxada pelo cabelo enquanto é possuída por trás.

O policial torceu meu braço, aí não sei se foi necessário ou não – acho que nunca é, afinal, o que eu poderia fazer ali? Fugir? Matar todos os policiais armados até os dentes da manifestação e me intitular o Emiliano Zapata brasileiro? –, e finalmente me colocou as “pulseiras” nas mãos. Como eu estava com as mãos para trás, nem pude perceber se fiquei bonito de algemas.

Lembro-me de um policial ter feito uma ou outra pergunta. Recordo-me ainda do policial abaixando a cabeça de meu amigo, dizendo que era melhor ele abaixar a cabecinha, senão o próprio policial teria que fazê-lo. Bem intimidador. Finalmente, fomos forçados a entrar na viatura. Os policiais queriam nos levar para dar um passeio. E era um convite bem persuasivo. Impossível recusar. Até que a parte de trás da viatura não era de todo desconfortável. Só ficou apertadinho quando tivemos que dividir a traseira do carro com mais dois vagabundos como nós. Só que pros policiais, fundo de viatura é igual coração de mãe: sempre tem espaço para mais um.

Seria falso dizer que eu não estava com medo. Seria uma mentira das grandes! Eu estava cagando de medo. Não literalmente. Por sorte eu havia tomado meu remédio para copracrasia naquela manhã, antes das provas da faculdade. Racionalizando, eu não tinha a menor convicção de que os policiais me levariam para uma delegacia. Ah, como eu queria que levassem! Nunca desejei tanto ser preso. Mas naquele momento, coisas absurdas – ou não – se passaram por minha cabeça. Os hômis podiam muito bem simplesmente nos levar para o meio do mato, dar quatro disparos e resolver tudo por ali. Afinal, quem nos conhecia? Quem poderia provar que havíamos sido presos? Eu realmente pensei “cara, eu me ferrei legal agora!” quando percebi que estava isolado na hora da prisão, que não havia nenhuma testemunha para filmar a minha cara e a cara dos policiais que me prendiam. A falta de imagens e de testemunhas é um perigo tremendo em manifestações, especialmente numa cidade gigante como Brasília.

Pensei em mamãe. Pensei em papai, em minha irmã. Pensei em minha querida namorada e também em meus amigos. Todos eles, que sequer sabiam que eu tinha ido numa manifestação. Pensei num colega de minha idade que morrera meses antes, e em como aquilo ainda mexia comigo. Pensei em minha própria morte, seria eu o primeiro a ser executado ou o último? Seriam os demais que veriam meu corpo tombar após o tiro, o sangue a jorrar abundantemente de meu corpo, já sem vida, ou seria eu quem veria um a um meus coleguinhas de bacu serem mortos, toda a tortura psicológica antecedendo cada execução, para enfim, ao final, chegar a minha vez? Como as pessoas que eu amava reagiriam ao saber que eu estava morto? Qual seria a reação de colegas e amigos de faculdade ao saberem que duas das mentes mais brilhantes da turma haviam sido friamente assassinadas por policiais? Fiz minhas preces a Papai do Céu, desejando de todo o meu coração que aquelas não fossem as últimas.

É indescritível a felicidade e o peso que saíram de cima de mim quando vi que estacionaram o carro defronte a delegacia. Nunca estive tão convicto de que poderia morrer a qualquer momento quanto estive naqueles poucos minutos entre o local de minha prisão e a delegacia. Mesmo depois de passar inúmeros e verdadeiros cagaços na cidade grande, achando que seria assaltado, roubado, sequestrado ou algo do tipo, foi vindo daqueles que deveriam me proteger que passei a situação de maior medo da minha vida. Desci todo feliz e faceiro – apenas por dentro, pois por fora eu tinha que manter as aparências e continuar minha encenação goffmaniana de assujeitado foucaultiano.


A Representação do Eu na Vida Cotidiana, livro que embasa a teoria de Erving Goffman, que 
afirma que atuamos socialmente, conforme o contexto em que estamos. Brinco um pouco com
a ideia central do pensamento goffmaniano em meu texto.

Ao comando do policial (sem sequer um “por favor”, acreditam numa coisa dessas?) descemos da viatura cabisbaixos. Agora eu compreendia que aquela cara de arrependimento que eu cansei de ver nos programas do Datena e afins não passava de uma representação. Ninguém se sentia culpado de nada, aliás, sentia sim, todo mundo se sente culpado de ter sido pego. Marchamos para dentro da delegacia, como se dançássemos “Que Bonita a Sua Roupa”. Com a cabeça abaixada, não vi os abutres da imprensa ali na porta, filmando, fotografando e imortalizando aquele belo momento de nossas vidas.

Nossa entrada triunfal na delegacia. O primeiro e o quarto cara são "di menores", o segundo sou eu
(o que tem o cabelo de viado bicha) e o terceiro é o meu amigo Chris.


CAPÍTULO 4 – INSTITUIÇÕES COMPLETAS E AUSTERAS

Em Brasília, aquela era a segunda vez que eu adentrava uma delegacia. A primeira na qualidade de autor em flagrante delito (qual delito mesmo, seu policial?). Fomos colocados num canto, um ao lado do outro, todos olhando para a parede, ainda com as algemas nas mãos. Embora eu não tivesse visto, tenho certeza que havia várias pessoas na delegacia naquele momento, cidadãos resolvendo problemas de suas vidas, aguardando para serem atendidos pelos agentes da polícia civil. Nossa, mas que humilhação! Mas você deve ter morrido de vergonha por aquela situação humilhante, de ser tratado como bandido, não é Kily? Sou obrigado a confessar que não. Não me senti envergonhado, tampouco humilhado. Naquele momento, devo dizer que não senti nada disso. Isso não era mais tão importante assim. Eu tinha preocupações maiores naquele momento, como a de saber qual a repercussão daquela manifestação, tanto em âmbito local quanto em âmbito nacional. Será que alguém que me conhecia poderia saber de minha prisão pela televisão ou pela internet?

O problema era que no meu bolso direito da frente, estava o meu celular. Mas eu sabia que as regras da minha vida haviam mudado a partir do momento em que o policial apontara a arma para mim e me mandara deitar no chão. A partir daquele momento, eu perdi todos os meus direitos, em especial o direito de ir e vir. Eu perdi o direito de por a mão no meu bolso (aí de mim se o tivesse feito naquela ocasião, o policial provavelmente interpretaria como uma tentativa de sacar alguma arma, e me alvejaria sem dó), perdi o direito de cutucar o nariz, perdi o direito de roer as unhas, perdi o direito de fazer uma ligação e também perdi o direito de querer que alguém estivesse se preocupando comigo enquanto eu estava no cárcere.

Dentro da delegacia, estava um homem de aproximadamente 50 anos, elegantemente vestido de terno. Ele nos dirigiu a palavra, apesar de comandos em contrário dos policiais e, creio eu, do delegado. Ele se apresentou como sendo advogado do movimento, e que era para ficarmos tranquilos que em poucas horas ele nos tiraria dali e que era para nos recusarmos a dar qualquer depoimento, resguardando-nos em nosso direito de permanecer em silêncio.

Evidentemente, notei que os ânimos estavam alterados. Creio que policiais, sejam militares ou civis, não gostam da imprensa bisbilhotando o seu trabalho. E desta vez, haveria forte pressão do lado de fora da delegacia para saber tudo o que acontecia do lado de dentro.

Começava ali um período de espera. E para fins informativos, contarei a seguir o que acontece no sub-mundo do cárcere, onde câmeras não penetram, sobre o qual os filmes e documentários tentam falar a respeito, mas que tive a felicidade de vivenciar, de uma maneira muito reducionista, é claro, algumas horinhas deste ambiente.

Michel Foucault atuando na peça shakespereana "Hamlet", com a famosa frase "Ser ou não ser? Eis a questão."
Além desse trabalho, ele também atuou no filme "A Família Addams", como Tio Chico.

 
Vigiar e Punir, outro livro que brinco muito durante este texto. Escrito pelo historiador e filósofo Michel Foucault,
ele trabalha com a ideia do sistema prisional e sua lógica. Relaciono apenas um pouco de meu texto com a ideia
foucaultiana, brincando com os títulos dos capítulos do autor francês.


Continua...

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Memórias do Cárcere - Parte I

Dia 15 de junho de 2013 - acontecimentos importantes:
- aniversário de minha querida irmã;
- abertura da Copa das Confederações com a partida Brasil x Japão;
- dia em que fui preso pela primeira vez.

Exatamente cinco meses depois, decidi iniciar uma narrativa reconstituindo a  minha primeira experiência prisional. Pretendo dividir o texto em dez capítulos (provavelmente em cinco postagens). O nome dos capítulos, para quem for conhecedor, são com os nomes dos capítulos do livro "Vigiar e Punir", de Michel Foucault. O objetivo deste texto é tratar um assunto sério, de forma bem humorada, mas sem perder um caráter crítico de denúncia do que aconteceu naquele dia. Para transmitir uma sensação de realidade durante a narrativa, em alguns momentos, serei obrigado a utilizar os palavrões que de fato foram ditos naquele dia. Então, sem mais delongas, passemos a minha história, baseada em fatos reais...


CAPÍTULO 1 – ILEGALIDADE E DELINQUÊNCIA

Eu estava deitado no chão, com um policial montado nas minhas costas, me imobilizando tal qual o faria um lutador Krav Magá, enquanto outro apontava uma arma para mim. Ao mesmo tempo em que 90% do meu cérebro se concentrava na dor causada pelas carícias do policial, os 10% restantes tentava compreender como eu conseguira chegar àquela situação.

Tudo começou quando eu tive a estúpida ideia de ir a uma manifestação que acontecia próximo ao Estádio Nacional de Brasília. Não, eu não chamei a manifestação de estúpida. Apenas a minha ideia de ir até lá o foi. Junto comigo, consegui arrastar um amigo – o Chris –, que nos levou até as imediações do Estádio em seu carro. É claro que posteriormente mamãe achou que a culpa de tudo era do Chris, que ele era uma péssima influência para mim, que eu não sabia escolher muito bem as minhas amizades, e todo aquele blá blá blá que as mães superprotetoras costumam dizer a respeito dos filhos, achando que os culpados de nossas enrascadas sempre são os filhos das outras mães.

Foto de Chris, depois de ser preso. O ponto preto na foto é para preservar
a identidade de meu amigo militante.


Considero a causa da manifestação muito nobre. Realmente, era pertinente a pauta dos manifestantes (embora tardia). Mas para quem não compreende o que eu fui fazer ali naquela manifestação, ofereço uma explicação simples. Toda a minha vida... Tá certo, não toda a minha vida, mas pelo menos nos últimos oito anos da minha vida, eu estive reclamando dos políticos e de tudo que é feito de errado nesse país. E essa era a minha primeira chance de fazê-lo perante câmeras, dando força à massa, com a possibilidade de ser ouvido (juntamente com os demais) e fazer alguma diferença, ao invés de reclamar junto a uma roda de amigos, sem nenhuma mudança real no mundo.

Então, explicado o motivo que me levou até lá, vamos aos fatos. Depois de estacionar o carro a quase um quilômetro de distância da manifestação, meu amigo e eu descemos do veículo, ele carregando apenas sua carteira, enquanto eu, que não uso carteira, levava comigo meu dinheiro e minha identidade na algibeira das calças. Vai que eu preciso dela, pensei comigo. Mal sabia eu o quão certo eu estava naquele meu pensamento.

Ao chegar a minha primeira manifestação, vi que o clima era pesadíssimo. Nunca vi tantos policiais em minha vida. Nem quando eu peguei seis estrelas no GTA San Andreas. Lá tinha gambés de tudo quanto é tipo, policiais para todos os gostos: PM, Cavalaria, CHOQUE, BOPE, Segurança Nacional. E é claro, havia os manifestantes, alguns isolados iguais a mim, que souberam do movimento através da comoção promovida via facebook, outros fazendo parte de algum movimento político local – em sua maioria do movimento “Maconheiros da UnB”.

CJ ferrado com seis estrelas. Nem lá no jogo aparece tanto policial assim.

VIVA O CHOQUE!

Manifestantes estavam tranquilos, antes do pau começar a comer de verdade.


A Cavalaria formava uma linha impedindo a passagem dos manifestantes para o outro lado. E no outro lado, o que tinha era o Estádio. O senhor Sandro Avelar, Secretário de (In)Segurança Pública do Distrito Federal, foi inteligente ao deixar a manifestação bem longe do Estádio e, consequentemente, dos holofotes da imprensa. Ora, manifestação que não causa barulho e incômodo, manifestação que não é ouvida, não tem sentido de existir. Por sorte, descobri nesses grupos pessoas muito engajadas e corajosas – com uma coragem que confesso não tenho –, que tomavam a frente, encaravam os policiais e a Cavalaria, e tentavam furar o bloqueio. Em dado momento, o bloqueio foi ultrapassado de maneira magistral, pois os manifestantes conseguiram ficar lado a lado com os torcedores, na fila que dava acesso ao Estádio. Aí do ponto de vista do ilustríssimo tenente-coronel Zilfrank Antero, creio que a situação ficou mais delicada, pois descer a porrada em vândalos vagabundos é uma coisa, agora bater em torcedor, o “cidadão de bem”, já é uma coisa completamente diferente.

O bandido do Governador do Distrito Federal Agnelo Queiroz,
e seu pupilo pau mandado o Secretário de Segurança Pública do GDF,
Sandro Avelar. Diz a lenda que Agnelo é médico, e que Avelar entende de segurança pública.


Esqueci-me de dizer que eu não sou cidadão de bem. Eu sou uma pessoa extremamente perigosa, que ofereço riscos descomunais a toda sociedade, portanto é papel da polícia proteger as pessoas de bem da minha pessoa.

Nesse momento em que torcedores alienados e manifestantes ficaram próximos, formando um estranho grupo de pessoas em sua maioria vestidas de amarelo (vai Brasil!) ou de preto, a tensão aumentou, com troca de elogios de lado a lado. Não serei hipócrita de dizer que os manifestantes foram gentlemen, esbanjando amor e educação. Mas como eu estava do lado de cá, obviamente defenderei meus companheiros e lhes apresentarei a estupidez que ouvi vinda do lado de lá, dos torcedores. Um senhor, com lá seus 60 anos, na fila que dava acesso ao Estádio, gritou para nós dizendo que éramos um bando de invejosos, que não tínhamos condições para comprar um ingresso e por isso ficávamos fazendo baderna ao invés de irmos estudar para almejarmos uma vida melhor. Considerando que aquela bobagem dita pelo tiozinho fosse verdade – e, pensando bem, no fundo é, pois tem muita gente em todo o país que gostaria de ter condições de assistir a um jogo da seleção brasileira nos estádios –, gostaria apenas que ele me dissesse onde estão as escolas de qualidade para o povo estudar e almejar essa vida melhor, o que lhes permitirá, quem sabe, num dia longínquo, ter seu próprio dinheiro para comprar o ingresso de uma pífia partida da seleção brasileira.

Não sei em que momento aconteceu, mas alguém, de maneira muito inteligente, remodelou o posicionamento da fila de torcedores, deixando-os agora em zigue-zague, numa área de acesso restrito aos mesmos, por sua vez deixando-nos isolados, ainda que próximos a eles. Foi nesse momento que escutei o primeiro tiro. Haviam lançado em nossa direção uma bomba. Eu, muito inteligente, fiquei olhando deslumbrado para o objeto que caía próximo a mim. Assim que atingiu o solo, o mesmo se desfez numa nuvem de fumaça, causando tosse, irritação nos olhos e na garganta e, os três componentes mais importantes para a estratégia policial: desespero, correria e dispersão dos manifestantes.

Ainda fui obrigado a ouvir o narrador oficial do Estádio dizendo para os torcedores que houve um pequeno tumulto do lado de fora do Estádio, mas que a polícia já havia controlado a situação e que não era para as pessoas entrarem em pânico. Um gás fora disparado contra os manifestantes, mas ele não era tóxico. Ah, apenas se certifiquem de tapar a boca, nariz e olhos com um pano – se possível todos os outros orifícios do corpo também. E caso tenha alguma irritação, NÃO COCE OS OLHOS!



CAPÍTULO 2 – A OSTENTAÇÃO DOS SUPLÍCIOS

Quando percebi, após me afastar ao máximo do local onde a bomba caíra, eu e mais um grupo de aproximadamente vinte pessoas estávamos afastadas do grupo maior de manifestantes. Felizmente, meu amigo Chris ainda estava comigo. Tivemos que dar uma volta para tentar voltar junto ao grupo principal, pois uma das mais importantes regras do Manual Manifestante Federal é: não ande sozinho, nem em pequenos grupos. Os policiais são como leões no deserto. E nós, como antílopes. Quem já assistiu qualquer documentário do Discovery Channel sobre as savanas africanas sabe muito bem o que acontece quando um antílope se dispersa do bando...

Situação de rua do lado de fora do Estádio Nacional de Brasília na tarde do dia 15 de junho de 2013.

Um dos problemas da manifestação é saber quem está no comando. Por exemplo, se eu gritar “ATACAR!” no meio da massa, é perigoso, dado os ânimos alterados, que alguém obedeça ao meu comando. Portanto, quando alguém assumiu a liderança de nosso grupo dissidente e decidiu puxar alguns cones e placas de ferro no meio da rua, impedindo a passagem de carros, outras pessoas que ali estavam imitaram a primeira e fizeram o mesmo. Inclusive, uma das pessoas que teve esta impensada – ou não – atitude, foi meu amigo Chris. Para ver esta cena, clique aqui.

Eu fiquei apenas observando, desejando mentalmente controlar a ação de meus colegas, para impedi-los de tal gesto. Era ilógico o que faziam. Ninguém pretendia ficar ali para resistir e manter o trânsito fechado. Então, para que fechar a pista? Evidentemente, a merda aconteceu logo em seguida. Um dos manifestantes segurava um cone, levando-o em direção a rua, quando um policial de moto chegou e começou a falar-lhe educadamente:

- Tá de brincadeira comigo, porra? Pensa que eu sou palhaço, caralho? Pega essa merda e tira já daqui. – e após uma pausa, como se não tivesse sido suficientemente intimidador, acrescentou: - Porra!

Nesse momento, Chris abaixou-se do alto de seu um metro e oitenta e cinco para cochichar no meu ouvido um sábio conselho, que eu paguei muito caro por não seguir imediatamente. Acho melhor a gente dar um pique até ali, Kily, pois o policial passou o rádio pros parceiros dele, disse-me Chris. Entretanto, eu continuei imóvel, observando deslumbrado o policial dando uma comida de rabo no manifestante. Não percebi a seriedade da situação. Olhei para o lado para dizer “vamos” para Chris, mas acabei parando no “vã”. Ele não estava mais ao meu lado. Procurei-o, e vi ao longe meu amigo negro correndo, já a uns cem metros de distância.

Desta vez, fui mais rápido e prontamente comecei a correr. Mas nem tinha passado para segunda marcha ainda, quando escutei um tiro vindo em minha direção. Instintivamente, levei as mãos ao rosto, tentando me proteger – como se eu fosse capaz de segurar o projétil com as mãos e me salvar desta forma. Olhei para os lados, ao mesmo tempo que parava de correr, procurando de onde viera o tiro. Foi quando vi um policial na garupa de uma moto, apontando uma arma maior do que eu, gritando para mim: DEITA NO CHÃO! DEITA NO CHÃO!

Abre parênteses:

Hoje, quando reconstruo esses fatos, penso o que poderia ter acontecido de diferente. Imagino como eu teria me saído se eu ignorasse o comando policial e tivesse tentado correr em zigue-zague, quantos milissegundos eu conseguiria fugir até que o policial frustrasse a minha fuga. Pensando bem, três coisas poderiam acontecer se eu tivesse feito isso. A primeira possibilidade é que o policial ficaria puto e daria um tiro em mim, mirando no lugar mais doloroso possível, ou naquele que provavelmente me trouxesse maiores transtornos futuros – leia-se “no meio da minha bunda”. E a segunda possibilidade, não melhor do que a primeira, com base no que eu vi na televisão no dia seguinte, era do policial também ficar puto e decidir brincar de Carmageddon no meio da rua, me atropelando para me parar. Uma terceira possibilidade, que eu considero tão remota que só vou enumerá-la a título de curiosidade, é a de que eu sairia correndo tão rápido que o policial sequer conseguiria focalizar a mira em mim, abismado com tamanha velocidade. Eu fugiria dele e ficaria chamando-o mentalmente de otário, depois disso, deixando-o sem dormir por várias noites, até superar por ter fracassado na prisão do Usain Bolt brasileiro.

Os policiais adotaram uma abordagem educada, respeitando os Direitos Humanos,
parando manifestantes que corriam com todo o carinho do mundo.

O jogo que os policiais pensaram estar jogando durante o expediente.

Felizmente, nada disso aconteceu, caso contrário eu descobriria que a única possibilidade benéfica para mim (a terceira) também era a única impossível. Rapidamente, eu olhei para o Estádio e só então notei que eu estava muito longe dele, e consequentemente também longe do restante dos manifestantes. Considerei ainda que o policial me tinha bem no centro de sua mira. Naquele momento não importava se sua mira concentrava-se em minha cabeça, em meu peito ou em minha virilha, o que importava é que ele estava armado e que dentro da arma tinha uma bala com o meu nome escrito nela. Eu não sabia se a bala era de borracha ou de verdade (daquelas que matam), eu só sabia que era daquelas que machucam dodói. Foi por isso que eu obedeci ao comando policial, o que não adiantou muita coisa, pois no fim das contas, dentre várias infrações penais a mim cominadas, eu vim a responder por desacato e resistência. A única resistência que eu tive foi resistência a dor, como verão a seguir.

Fecha parênteses.


Continua...