quarta-feira, 30 de abril de 2014

The Big Bang Theory

Agradeço a minha senhora, que me ajudou e riu antes das idiotices aqui escritas. Pra quem estranhar o estilo de escrita por mim adotado nesta postagem, já aviso de antemão que fui obrigado a mudar meu estilo pessoal nesse texto, pois ele foi utilizado como artigo-teste para concorrer a uma vaga como colunista no renomado site do Yahoo.


Há sete anos atrás, começava nos Estados Unidos uma série que veio a ser uma de minhas favoritas: The Big Bang Theory. A identificação com os personagens foi instantânea, já que eu também sou um nerd – embora não tão inteligente quanto os personagens–, sempre tive problemas com mulheres e sempre tive gostos considerados estranhos. Graças ao R – que sempre esteve mais inteirado dos produtos norte-americanos antes mesmo destes chegarem a terras tupiniquins –, eu comecei a assistir esse seriado. Inicialmente, assistíamos juntos, rindo dos dilemas vivenciados por Sheldon, Leonard, Howard e Raj.

No entanto, o que nós mais temíamos aconteceu. Infelizmente, e eu digo isso com uma enorme dor no coração, a série chegou ao Brasil. Mais especificamente, chegou ao SBT. E chegou aqui com uma dublagem horrível, uma das piores que eu já vi em toda a minha vida. Os personagens provavelmente foram dublados por adolescentes na faixa dos 13, 14 anos, ficando com suas vozes originais totalmente descaracterizadas.

Foi então que eu pensei comigo: se era para trazer essa série ao Brasil, ao invés de estragar algo tão bom de minha vida, porque simplesmente não compraram os direitos da série para fazer uma adaptação 100% brasileira? Aí, ao invés da história se passar em Pasadena, ela poderia se passar em São Paulo, por exemplo. Inclusive, com cenas ambientadas na Avenida Paulista ou na Rua Augusta.

Então, foi pensando nisso, que eu projetei em minha mente, e agora compartilho com os leitores do blog, como seria a versão verde-amarelo da famigerada série The Big Bang Theory.

... Que, é claro, no Brasil se chamaria “A Teoria da Grande Explosão”. Então, sem mais delongas, passemos ao elenco de minha versão nacional:




LEONARD LEAKEY HOFSTADTER

O protagonista da série, um físico experimental, que se apaixona por sua linda vizinha, e que na versão norte-americana é interpretado por Johnny Galecki, na versão nacional será interpretado pelo astro brasileiro Selton Mello, protagonista em séries de renome nacional como “Os Aspones” e “O Sistema”.





Selton Mello, laureado com o prêmio de sexto melhor ator do filme "O Auto da Compadecida", será escalado para interpretar o físico da USP, Leonardo Leite Estreito.



SHELDON LEE COOPER

Há quem discorde, e considere Sheldon o verdadeiro protagonista da série. Controversas à parte, é evidente que Parsons rouba a cena na série, sendo responsável por uma grande porcentagem das risadas e dos fãs da sitcom.



Na versão brasileira, ele será interpretado pel’O Melhor do Brasil, e nosso amado Rodrigo Faro! Na versão nacional, o físico teórico interpretado por Faro se chamará Celso Licurgo.



HOWARD JOEL WOLOWITZ

O judeu baixinho com pinta de pegador, o rei das cantadas de TBBT, é motivo de chacotas pelos amigos por ser o único que não tem Doutorado no grupo (ele possui apenas Mestrado). Como a educação não é o forte do Brasil, na adaptação ele terá apenas um Tecnólogo em Mecatrônica. Os demais personagens serão menos instruídos também.



E para dar vida a tão divertido personagem, será convocado um nome de peso: Tadeu Mello, célebre por sua interpretação de Tatá na renomada série “A Turma do Didi”, do Dr. Renato. Tadeu Mello encarnará Ronaldo João Guimarães.










RAJESH KOOTHRAPPALI


Um dos personagens mais carismáticos da série é o indiano Raj, devido a sua fobia social e dificuldade de falar com mulheres e com homens afeminados. Na versão brasileira, seria mantido sua ascendência indiana, apenas o nome de seu personagem mudará.






Raj será interpretado por Rodrigo Lombardi. O motivo da escolha, é óbvio: ele já tem experiência no papel, já que viveu Raj antes, só que na premiada novela global “Caminho das Índias”. No entanto, desta vez Lombardi atuará sob o nome de Muhammed Al-Addin.







PENNY

E por fim, vamos a musa de TBBT: Penny! Penny é a vizinha de Leonard, que deixa ele e seus amigos, exceto Sheldon, é claro de queixo caído. A missão de pegar o bastão de Kaley Cuoco e de dar vida a menina da série, que deixa os marmanjos babando na frente da televisão não é uma das mais fáceis.







Cuoco, além de lindíssima, dá um show de interpretação a cada novo episódio. Por isso, escolhi uma atriz à altura, para honrar a versão norte-americana, dando vida a “Penny brasileira”, a também lindíssima e ótima atriz Sheron Menezes! Se a Halle Berry fosse brasileira, eu escalaria ela pra série.

Sheron Menezes terá a honra de interpretar Patty.





A seguir, veja outros atores que integrarão a série:

AMY FARRAH FOWLER




A engraçadíssima Ingrid Guimarães interpretará Amélia Silvana da Silva.


BERNADETTE ROSTENKOWSKI


 
A pequena Berenice Rosa Castro será vivida pela simpaticíssima Danny Pink.


STUART


O talentosíssimo e experiente ator Dan Stulbach estará na pele do deprimido Estevão.


* Desisti de arrumar o layout da publicação. Na visualização prévia a publicação fica perfeita, mas quando publico, aí as imagens desalinham todas e vão lá pra casa do chapéu. ¬¬'

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Cidade Fantasma





UMA POSTAGEM FANTASMAGORICAMENTE ASSUSTADORA!








Janeiro de 2014. Ligo o computador. Abro o navegador. No browser, digito o endereço do site que desejo visitar. Orkut.

Sou direcionado para a página de login do site. Sou inundado por estranhas emoções. Difícil até de descrever. Um misto de nostalgia com melancolia, quando percebo que estou revisitando um site que não entro há pelo menos quatro anos. E que praticamente ninguém mais entra também. Fui um dos últimos a abandonar o Orkut.

Na página de login, tento me lembrar de como ela era antigamente. Várias fotos de pessoas sorrindo, representando os usuários do Orkut, com a famigerada frase do site: “Quem você conhece?”.

Digito meu e-mail no campo login. Até aí, fácil. Tenho o mesmo login para todos os sites dos quais possuo cadastro. Até por isso que minha caixa de entrada do e-mail principal enche todos os dias, repleto de spams enviados pelos sites. Mas quando chega na hora de digitar a senha, aí vem o problema. Qual é mesmo a minha senha?

Penso em minha senha padrão atual e a descarto imediatamente como minha senha do Orkut. Assim como muitos usuários da internet, cometo o erro de utilizar como senha de minhas contas algum número ou palavra significativa de minha vida. E, geralmente, é algo que é significativo APENAS naquele momento. Sendo assim, minha senha atual não devia ter nada a ver com a senha antiga. Comecei a fazer um esforço mental para me lembrar de quais eram as senhas que eu utilizava alguns anos atrás. Seria o nome da fonte daquele jogo que eu tanto gostava? Ou talvez seria a soma dos dígitos que compõe o número do meu RG com os números 11.111.111-1? Quem sabe, fosse o nome da cidade onde eu sonhava morar, junto com o ano que eu pretendia atingir essa meta de minha vida? Meu Deus, quantos sentimentos estranhos posso ter com o simples ato de revisitar um site de relacionamentos antigo! Comecei a pensar em outros usuários do Orkut que também abandonaram a plataforma. Qual seria a senha deles?

Existem dois tipos básicos de ex-usuários do Orkut. O primeiro grupo é composto por pessoas que excluíram suas contas antes de deixar o site. E o segundo grupo é composto por pessoas que foram gradativamente visitando menos o site, até finalmente abandoná-lo de vez. Mas suas contas ficaram lá. Suas vidas, suas ações. Desse segundo grupo, qual seria a reação das pessoas ao serem confrontadas com suas antigas senhas? Alguns talvez dissessem: “normal, eu sempre usei a mesma senha, então eu uso ela até hoje”. Outros no entanto, se surpreenderiam. E aqueles que colocaram a data de início de um antigo namoro? O nome de um jogador de futebol que até já se aposentara? A comida preferida, que tivera de abandonar, por motivos de saúde?

Tentei duas senhas antigas, mas falhei na autenticação de usuário em ambas. Quando já estava para clicar em “esqueceu a sua senha?”, me ocorreu uma terceira senha antiga. Digitei ndpaoqvpfdda e cliquei em entrar. E não é que entrou? Achei aquilo incrível. Uma combinação aparentemente aleatória de letras, mas que na verdade representavam as iniciais das palavras de uma frase significativa para mim, era a senha que tinha ficado em meu Orkut quando eu o abandonei. O mais impressionante nisso tudo é que, enquanto o Orkut era logado, eu pensei na frase que servia de base para a senha, e como aquilo não dizia mais nada sobre mim, sobre quem eu era ou sobre o que eu acreditava!

Assim que o Orkut foi logado e eu fui jogado na página inicial, mais recordações vieram a mim. A primeira lembrança era de quando eu acessava o Orkut antes. Logo na página de entrada, algumas informações interessantes surgiam. O número de usuários do Orkut (quando entrei, o número estava na chegando aos 30 milhões, e em pouco tempo, o número dobrou para 60 milhões, até essa função ser desativada do site), o número de visitantes de minha página pessoal no dia e na semana, bem como o link para o perfil das últimas pessoas que visitaram o meu.

Agora, o Orkut estava bem diferente. No período em que utilizei o site, vivenciei duas mudanças de layout, uma mais traumática do que a outra: a primeira, com apenas algumas alterações no modo de navegação, a segunda, radical ao extremo.

Comecei a navegar pelo site. Abri várias abas no navegador simultaneamente: meu scrapbook, meus depoimentos, minhas comunidades, meus amigos. Nas páginas de recados e de depoimentos, vi juras de amor eterno, promessas de amizades que jamais acabariam, frases de efeito como “nem o tempo, nem a distância serão capazes de nos separar, meu grande amigo”. Sorri, abobalhado. É claro que as promessas não se cumpriram. Eu nem tinha mais contato com aquelas pessoas que escreveram tais recados. Amizade eterna? Enquanto durou... E essas pessoas? Estariam vivas? Casadas? Com filhos? Será que ainda moravam no mesmo lugar? Só tinha um jeito de saber: pesquisando sobre a vida dessas pessoas na nova rede social do momento.

Entrei em minhas comunidades e ri comigo mesmo das coisas que eu gostava. As comunidades geralmente diziam muito sobre uma pessoa. Diferente da maioria, eu cultivava um número baixo de comunidades, pois gostava de estar inteirado do que acontecia nas que eu fazia parte. Eu bem sabia que outras pessoas também estranhariam se vissem suas próprias comunidades. Quiçá diriam: “EU gostava disso?”. Quantas comunidades inúteis! Imaginei aquele cara, numa comunidade do tipo “eu amo academia”. Será que ele choraria quando visse que agora, ao invés de uma barriga de tanquinho, começava a ver uma barriguinha proeminente se formar? E aquele outro, que estava na comunidade intitulada “eu sento no fundão”? Fundão de que? Se já terminou a escola há tanto tempo, e não começou a faculdade? Só se for no fundão do busão agora, pois escola ficou lá no [fundão do] seu passado.

Entrei na lista de meus amigos. "Amigos". Que palavra forte as redes sociais costumam adotar! Preferia que eles colocassem “contatos”, e deixasse a meu critério decidir quem era amigo e quem não era. Provavelmente, a maioria dos contatos ficasse no segundo grupo. Recordei-me de como era status ter muitos amigos. Como era ser popular ter uma conta de Orkut com mil amigos e com uma mensagem de perfil lotado na descrição do “quem sou eu?”, acompanhado de um link direcionando para o “profile 2”, só atingível para quem tinha MUUITOS amigos. Pensando bem, o que mudou? Hoje em dia ainda não é assim? Quantas garotas postando foto no mural do facebook e se sentindo realizadas por receberem trocentas curtidas? Algumas ainda acrescentam um título na foto, só pra chamar mais a atenção e receber mais elogios: “feia”. Meu conselho para essas meninas: vai lavar a louça!

No perfil de algumas pessoas, não resisti e entrei. Vi o perfil de uma garota da minha idade, que só na época em que estudei com ela, a vi trocar de namorado duas vezes. Em seu perfil, uma foto dela sendo abraçada por trás pelo seu então atual namorado, que, curiosamente, não era nenhum dos três com quem eu a vi antes. Soube, por meio de conversa com amigos (amigos mesmo?) que ela agora estava noiva de um cara de outra cidade, onde ela estudava. Eu sabia que não era aquele carinha da foto, pois eu o conhecia de vista. Nos depoimentos, juras de amor eterno. Nos recados, mensagens extremamente melosas. Tudo no passado.

Pense numa cidade fantasma. Por cidade fantasma, não entenda uma cidade COM fantasmas, mas uma cidade que um dia teve pessoas ali vivendo, mas que por algum motivo (ataque zumbi, peste mortal ou catástrofe natural) agora não tem mais ninguém. É exatamente assim que me sinto no Orkut. Quantas pessoas se envolviam diariamente com aquele site, depositando ali toda a sua intimidade, fotos, pensamentos, sentimentos e emoções, se abrindo totalmente, e que agora tinham suas histórias ali registradas. Quantas pessoas que até mortas já deveriam estar, mas que suas contas permaneciam como um tributo a sua existência e a sua passagem pela Terra.

Eu, em meus devaneios, crio uma história absurda: supondo que a raça humana fosse extinta, o que pensaria um alienígena que viesse ao nosso planeta e dominasse nossa linguagem e também a nossa tecnologia, ao entrar no Orkut? Quais as impressões ele teria dos seres que antes aqui viviam? O que as redes sociais, agora cidades fantasmas, diriam sobre nós?


Página de login do Orkut.


Modelos irreais e inatingíveis do Orkut.


Versão brasileira dos modelos do Orkut.


Layout do Orkut, verrsão 0.0947853.675.13.9 (para internet explorer): perfil do Kleber Sá.


Layout do Orkut com algumas inovações: perfil do Eduardo.


Layout do Novo Orkut: perfil do Robson.


Layout do novo Novo Orkut: perfil da Mari.


O Orkut hoje.


E o novíssimo Novo Orkut do mercado.


E pra finalizar, a foto de um fantasma de verdade.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Boas Festas

Última postagem de 2013.

Este texto é dedicado a minha querida amiga Youssef, representando todas as pessoas que são chatas e não apreciam muito as festas de final de ano. O texto é puramente descritivo, baseado em um caso vivenciado por mim. Não estou pedindo para que ninguém passe a pensar como eu, apenas peço um pouco mais de tolerância e respeito para com os milhares de Grinchs misantropos espalhados pela sociedade.

Eu estava na minha baia, sentado junto ao computador, redigindo mais um dos inúmeros documentos a que estava acostumado. Era apenas mais um dia rotineiro no escritório. Quando digo “rotineiro”, mas não quero que o leitor entenda esse adjetivo como algo negativo. Pelo contrário, eu o utilizo como uma das coisas mais maravilhosas que poderiam me acontecer.

Cito que eu estava em minha amada e repetitiva rotina, porque ela estava para ser abalada. Mal sabia eu que eu estava prestes a receber um enorme chute em meus testículos. Graças a Deus, não literalmente, pelo menos. A dona Goreth, minha chefe – e a mulher mais doce que eu já conheci depois de mamãe e vovó –, seria a responsável pelo chute.

Dona Goreth era uma velhinha cuja idade era uma incógnita (mas que deveria ter pelo menos uns setenta anos), magra e de aspecto frágil, que parecia que se espirrássemos em sua direção, ela sairia voando igual uma folha de árvore abandonada ao vento. Brincávamos que ela era tão leve que parecia precisar de uma âncora amarrada a uma das pernas em dias de vendaval. Difícil acreditar que uma mulher desse porte pudesse chutar meus colhões.

Enquanto eu trabalhava a dona Goreth, apesar de ser minha chefe, gentilmente bateu em minha porta pedindo licença pela interrupção, pedindo que eu a encontrasse na cozinha, onde os funcionários tomavam um cafezinho e tinham alguns momentos de descontração no dia de trabalho. Eu estava salvando o documento no computador, quando percebi que ela chamava os demais funcionários em suas baias. Marchamos todos em direção a sua sala.

Com os doze funcionários apertadamente reunidos na cozinha, a dona Goreth anunciou, com sua voz suave:

- Gente, tá chegando o Natal e nós precisamos marcar a data da nossa confraternização e fazer o sorteio do amigo secreto.

Creio que não foi apenas um chute, mas sim dois chutes, um em cada gônada: confraternização e amigo secreto!

Ouvi alguns aplausos e risinhos de felicidade, todos satisfeitos pela festinha. O povinho do escritório é bem festeiro, adora essas ocasiões. O único alienígena ali sou eu.

- Só que vocês sabem muito bem que nosso escritório possui uma peculiaridade: é no Natal que tem mais serviço, que o negócio aperta. Hoje é dia 20 de novembro, então falta pouco mais de um mês pro Natal ainda. Só que eu queria marcar nossa festinha pra no máximo daqui duas semanas. – após uma pausa, continuou, olhando para mim e mais duas colegas de trabalho – Eu queria saber de vocês três, que são os que estudam, como que tá as aulas, as provas? Já acabou, não acabou, como é que é?

- Ah, a minha acaba sexta-feira agora, só faltam mais duas provas, dona Goreth. – disse uma das funcionárias, a minha esquerda.

- Pra mim faltam quatro provas ainda, mas até semana que vem acabam todas. – respondeu a funcionária a minha direita.

Após um momento de silêncio, percebi que todos olhavam para mim, que era o único que ainda não respondera a dona Goreth. Só percebi isso quando recebi uma discreta cotovelada da funcionária da direita.

- Eu ainda tenho todas as provas e alguns trabalhos para fazer, dona Goreth, nem sei quando acabam, mas não se preocupem comigo. Podem fazer a festinha sem mim mesmo, não quero atrapalhar vocês. – disse eu, torcendo para ela morder a isca e aceitar minha ideia.

- DE JEITO NENHUM! – falou dona Goreth, em tom sério, mas maternal. – Todo mundo ter que participar, Kily, inclusive você! Faço questão da sua presença lá. Trate de ver até quando vão suas provas e me dê uma resposta amanhã, para marcarmos o dia da confraternização.

- Sim senhora. – respondi.

- Por ora, vamos fazer o sorteio do amigo secreto. – disse ela, sorrindo e pegando em sua mesa uma caixinha improvisada, que continha papeizinhos dobrados, cada um contendo o nome dos funcionários da empresa. Eram 14 papeis, sendo doze com os nossos nomes, mais um com o nome da dona Goreth e outro com o do Seu Chico, marido dela e nosso patrão.

Gelei. Não queria participar do amigo secreto. Entretanto, em nenhum momento dona Goreth disse que a participação era facultativa. Pelo visto, não teria jeito, eu teria que abdicar de minha vontade e encarar aquela confraternização como um ônus pelo excelente emprego que eu tinha dentro da empresa. As frustrações que eu não passava trabalhando, acabaria passando na confraternização. Ou “festinha”, como preferiam chamar meus coleguinhas.

- Dona Goreth, eu acho que eu não quero participar do amigo secreto. – arrisquei, depois de tomar coragem.

Todos olharam para mim. Dona Goreth olhou para mim surpresa, como se de súbito meu rosto estivesse repleto de chagas. Ela disse, naquele tom em que não cabia contra-argumento:

- Mas é claro que você quer participar! Todo mundo vai participar! – e depois, soltou o seu mais belo sorriso.

Ela distribuiu papel um a um, inclusive para mim, ignorando meu desejo, como se eu estivesse cometendo um erro de julgamento. Ao final, sobraram dois papeis.

- Esse aqui é o meu e o outro eu vou deixar na mesa do Francisco. – disse ela, já que seu simpático marido não se encontrava no momento.

Mas que droga! Mas que grande droga! Mas que drogona! Sem o amigo secreto, eu poderia faltar da festinha e inventar uma desculpa depois. Dor de cabeça, morte na família, ônibus quebrado, ou outro imprevisto. Qualquer coisa! Mas com amigo secreto, eu não teria coragem de deixar uma pessoa sem presente. Detesto amigo secreto, mas eu acho uma sacanagem que participa de amigo secreto e falta no dia da revelação ou se esquece do presente. São os maiores trolls do fim de ano.

Após um burburinho, quando o pessoal conversava e brincava na cozinha, uns sorrindo e dizendo “que bacana! Adorei ter tirado essa pessoa!”, outros fingindo tentar ver quem as demais pessoas tiraram, outros ainda dando indireta sobre o presente que gostariam de ganhar, eu sorria e tentava fingir que eu era um ser humano normal ali naquela cozinha.

Todos voltaram altivos e aparentemente mais motivados para o trabalho após aquilo. Agora só dependiam de mim para marcar o dia da festinha. Voltei para minha baia, sentei-me em minha cadeira, querendo me afundar no trabalho pelas duas horas que restavam antes de ir embora, e esquecer aquela festinha estúpida. Foi quando lembrei que eu tinha me esquecido de abrir meu papelzinho e ver quem era meu amigo ou minha amiga secreta.

Que droga, do jeito que eu sou azarado, vou tirar a pessoa que menos tenho afinidade nesse escritório. To até vendo já! Vou abrir esse papel e vai estar o nome da Bárbara aqui. Ao menos se eu tirasse a Suzana, que é a única que eu conheço bem os gostos... aí pelo menos diminuiria a minha desgraça... Acabar jamais.

Abri o papel. Vi o nome ali escrito. E sorri.

Obrigado meu Deus. Eu te amo do fundo do meu coração! Ô glória!

No papel, escrito numa caligrafia dura e feia, meu próprio nome: Kily! Eu havia tirado eu mesmo! Eu estava fora do amigo secreto! Já comecei a fazer planos. Iria ver em que dia cairia a minha última prova e diria para dona Goreth no dia seguinte para marcar a confraternização no dia dessa prova. Depois, eu inventaria a desculpa de que a prova fora remarcada de última hora e por isso eu não pude ir. Quanto ao amigo secreto, bem, para isso eu inventaria uma desculpa depois. O importante era que eu estava salvo.

Até 2014, com o Pra Gente Rir rumo a 1 milhão de visualizações!

Memórias do Cárcere - Parte V

Última parte de minha primeira experiência prisional, ocorrida no fatídico dia 15 de junho último.


CAPÍTULO 9 – O CORPO DOS CONDENADOS

Depois que todos assinaram o termo comprometendo-se a comparecer na Justiça quando intimado, fomos retirados aos pares da cela, cada um pegando o saco de lixo preto com nossos pertences, e formando nova fila na escada da delegacia. Como estratégia para evitar a imprensa, sairíamos pelos fundos da delegacia, indo direto para o Instituto Médico Legal.

Fomos todos colocados em um enorme camburão, que não sei descrever muito bem como era. Só destaco que o mesmo era relativamente confortável, tendo duas portas na parte traseira e uma divisória que se estendia por toda a parte destinada aos presos, de modo que fomos divididos em dois grupos. Havia assentos para cada um de nós. Depois de sentar na ponta do camburão, comecei a colocar meu cinto, minha camiseta e a calçar meu tênis.

Durante o trajeto, pela primeira vez com seus aparelhos celulares depois da prisão, todos começaram a tentar contato com familiares. Escutava um companheiro gritando que recebera mensagem de alguém dizendo que o viu na televisão. Outro que estava no G1. E assim por diante. Tentei contato com minha querida namorada, mas em vão. Tentei falar com minha mãe, pois temia que ela tivesse visto algo pela TV e estivesse angustiada pela falta de notícias. Liguei para todo mundo que eu podia, mas sem sucesso. Enquanto os demais já contatavam familiares e amigos e os acalmava, contando sua odisseia, eu sentia-me sozinho, sem ninguém a se importar comigo. Foi tão triste.

Subitamente, recebi uma ligação. Era uma colega da faculdade. Que por sinal quase não falava comigo. Julguei que ela tivesse visto algo e estivesse preocupada comigo, para me ligar na noite de sábado. Quando atendi, em meio ao barulho do camburão, o seguinte diálogo se desenrolou:

- Oi Kily, tudo bem?

- Oi Berenice, mais ou menos, e com você?

- Eu estou bem. Deixa eu te perguntar: você está com seu notebook por perto agora?

- Não, não to. Eu to no camburão.

- Ah ta. – disse Berenice, com a voz mais natural do mundo. – É que se você tivesse com ele, eu ia te pedir um favor, queria ver se você podia me ajudar com um trabalho da facul.

Fiquei perplexo, pois ela não percebera o que eu dissera antes. Já que ninguém se preocupara comigo até então, Berenice seria o anjo enviado do céu para quem eu primeiramente compartilharia minha aventura.

- Berenice, não posso te ajudar agora. É que eu to preso.

Senti um súbito silêncio do outro lado da linha, como se Berenice digerisse o sentido daquelas palavras.

- Mentira? – disse ela, incrédula. – Como?

- Verdade. Nas manifestações de hoje à tarde, na abertura da Copa das Confederações.

- Sério? Mas como você tá? Tá bem? Tá machucado?

- Eu to bem. Na verdade eu estou indo para o IML agora fazer exame de corpo de delito. Fiquei preso até agora e daqui a pouco serei solto.

Conversamos por mais um ou dois minutos, ela me dando forças e dizendo que morava ali perto, que, caso eu precisasse, podia ligar para ela que ela me buscava, me levava para casa e faria o que estivesse ao seu alcance. Tranquilizei-a dizendo que ligaria sim, caso fosse necessário. Despedimo-nos e desligamos.

Algum tempo depois, já no IML, abriram as portas do camburão e só descia aquele que era chamado para os exames. Fui um dos últimos a ser chamado. Enquanto aguardava que me chamassem, eu recapitulava tudo o que vivenciara naquele dia. Desde as provas na faculdade, pela manhã, o trajeto para as manifestações, as manifestações, a prisão, o cárcere e até mesmo a nudez. Sentia-me triste, pois sempre me conservei imaculado para minha linda namorada, para que apenas ela contemplasse a minha maravilhosa nudez, após tirar minha roupa ansiosamente, como quem desembrulha um bombom Sonho de Valsa.

Que droga, era para você ser a próxima pessoa a me ver pelequinha, namorada! Mas eu prometo que a próxima pessoa será você! Eu juro por tudo que é mais sagrado! Vou defender a minha nudez com unhas e dentes daqui para a frente, e os próximos olhos que contemplarão meu corpo como veio ao mundo, além de mim, serão os seus., pensei comigo.

Então fui chamado. Assim que entrei na saleta onde se encontrava o médico e o cumprimentei educadamente, o mesmo disse para mim:

- Tire a roupa.

De novo? Oh não!, pensei. Lá vamos nós de novo!

- Precisa tirar toda a roupa? – indaguei, de modo suplicante.

Depois de um segundo de hesitação, o médico respondeu:

- Tire a camiseta e apenas abaixe a calça e a cueca.

Depois de barganhar e conseguir uma pequena conquista (pelo menos meus pés estariam a salvo de serem expostos desta vez), obedeci ao comando do doutor. Ele me observou, indagando se eu sofrera alguma lesão. Afirmei que não, mas o hematoma em meu ombro direito negou veementemente.

- E isto daí? – perguntou o médico, apontando para a marca.

Expliquei para ele como consegui aquilo. Mesmo não se tratando de uma lesão causada por agressão policial, ele aproximou-se de mim com uma fita métrica e mediu o diâmetro do hematoma, anotando em seguida num papel. Ordenou que eu me virasse. De costas para o médico, aguardei que ele avaliasse minha bela bunda e o resto de meu corpo. Depois ele ordenou que eu me virasse novamente. Neste momento, tive um pensamento mórbido. Imaginei o médico com um pandeiro, tocando um som enquanto eu sambava com o meu gingado paulista, rodando em tom dançante até voltar a ficar de frente para ele, no momento em que ele cantasse um “pedi pra parar, parou!”.

Encerrada a inspeção, vesti-me e saí da saleta do médico, voltando para o camburão, decidido novamente a cumprir meu juramento anterior, de guardar meu corpitxo para minha namorada.

Depois que todos foram examinados pelo médico, um policial disse que chamaria um por um pelo nome completo, o mesmo deveria depois repetir o nome completo e olhar para uma câmera, em seguida estaria livre, juridicamente falando.

Novamente, fui um dos últimos a ser solto para a liberdade. Senti-me um pássaro sendo solto de uma gaiola, pronto para bater asas e voar pelos céus. Foi lindo!


CAPÍTULO 10 – A MITIGAÇÃO DAS PENAS

Assim que saí, encontrei-me com três conhecidos meus, bons companheiros e amigos, que não deixaram nem o Chris nem a mim na mão, oferecendo apoio enquanto estávamos encarcerados. O grupo fez uma roda ali mesmo na frente do IML e cantou uma música por mim desconhecida, tirou foto para o jornal Correio Braziliense e também concedeu entrevista para a única emissora de televisão ali presente, a Record. Foi decepcionante, achei que eu ficaria com os olhos doendo de tantos flashes que seriam disparados quando eu saísse do cárcere. Mas eu ainda saí bem pequenininho no Correio Braziliense, lá ao fundo da foto.

Quando contei para minha mãe que eu fui preso, ela ficou uma fera, disse que eu estava fazendo coisa errada e aquele pensamento bem brasileiro mesmo, de que quem não comete crime não vai preso.

Enquanto estávamos presos, anotamos os e-mails na camiseta de um dos companheiros, que se comprometeu a mandar e-mail para todo mundo, para que não perdêssemos contato e que continuássemos conversando. Mantivemos contato por algum tempo. Embora eu ainda tenha o e-mail de todos, não temos conversado mais.

Um dos companheiros escreveu um excelente texto em um jornal da UnB, muito bacana mesmo (bem melhor do que esse texto aqui).

Seis meses e meio depois, posso dizer que nada aconteceu. Não fui intimado para nada, e creio que não serei intimado. Na ocorrência que eu retirei numa outra delegacia logo depois, um absurdo: a ocorrência citava os artigos dos “infratores”, como se todos tivessem cometido os mesmos crimes. Um ou dois dos presos foi flagrado portando maconha, mas a ocorrência tratava como se todos nós estivéssemos portando e usando substância entorpecente.

Não há provas contra nós. Apenas a palavra dos policiais. Existe um vídeo, que pode ser visto no Youtube¹, em que apareço caminhando lentamente, atravessando a rua, em meio a outros manifestantes. Fui preso sem fazer nada. Os outros manifestantes ao meu redor estavam interditando uma rua. A ação deles pode ser classificada como crime? Não sei, não entendo o suficiente de leis. O que eu entendo é que o crime não pode ser generalizado, o crime é individual e eu não posso ser punido pela ação de outras pessoas. Não existe nenhuma prova contra mim, assim como tenho certeza que não existe nada contra inúmeros outros manifestantes. Vi pessoas que foram presas estando apenas AJOELHADAS com um cartaz na mão, que inclusive dizia “mais amor por favor”.


Que cada um faça o seu julgamento sobre tudo o que aconteceu. Para mim, há vilões e mocinhos dos dois lados: do lado da polícia e do lado dos manifestantes. Mas o importante também, é que não se perca o foco, de quem realmente têm sido os grandes vilões desse país: uma classe política corrupta e pouco preocupada em acabar com as mazelas sociais deste país.


¹ Posso ser visto no vídeo atravessando a rua entre 3min51seg e 3min55seg.