quinta-feira, 25 de junho de 2015

Redução da Maioridade Penal

Postagem número 100.¹

"Se não vejo na criança uma criança, é porque alguém a violentou antes, e o que vejo é o que sobrou de tudo que lhe foi tirado"
Betinho                                        

A convenção social diz que devemos ser tolerantes e respeitar as opiniões alheias, mesmo que contrárias às nossas. Mas eu confesso que não consigo respeitar muito a opinião de quem é a favor da redução da maioridade penal, porque considero esta uma opinião ignorante e extremamente egoísta.

Recentemente, tem-se discutido no Congresso Nacional a proposta de redução da maioridade penal de 18 para 16 anos. E as discussões do plenário têm se estendido também para outros lugres, como entre amigos e familiares, no meio acadêmico e até mesmo nas redes sociais. Pra começar, eu tenho uma opinião bem radical sobre o assunto: eu não só sou totalmente contra a redução da maioridade penal, como também acho que este é um assunto tão impensável que nem deveria ser tema de discussão na atualidade. Fora o retrocesso que, ao meu ver, acontecerá com a aprovação de tal proposta, os argumentos em favor de tal redução são pobres, reducionistas e tendenciosos. Meu objetivo nesse texto é fazer uma reflexão sobre o assunto, explicando alguns dos motivos pelos quais eu sou contra a redução da maioridade penal.

Primeiramente, o argumento basal que permite dizer se devemos, ou não, condenar as pessoas por suas ações é a nossa crença de que elas têm poder de decidir aquilo que fazem. Essa consideração de que temos um livre arbítrio é fundamental para justificar a atribuição de culpa às pessoas pelas escolhas ditas erradas que elas tomam ao longo da vida. Mesmo que o livre arbítrio exista - veja bem, não estou sequer assumindo que ele existe, estou apenas considerando tal possibilidade -, duvido muito que ele seja esse livre arbítrio romântico idealizado pelas pessoas, em geral: um livre arbítrio que está acima de qualquer coisa, do tipo que assume que se a pessoa realmente tiver uma postura moral correta, nada irá dissuadi-la de se comportar moralmente. Podem colocar uma faca em sua garganta, que mesmo assim ela continuará seguindo os seus princípios. Pode vir até a passar fome, mas jamais agirá contra a lei. Tudo pode estar errado em sua vida, mas ainda se comportará segundo aquilo que aprendeu ser o certo.

Tenho a sensação de que as pessoas que apoiam a redução da maioridade penal se consideram cidadãos exemplares, modelos da moral e dos bons costumes vigentes, pagadores de seus impostos, trabalhadores e cumpridores da lei. E, em contrapartida, os marginais, segundo o pensamento de tais puritanos, são apenas pessoas que decidiram - conscientemente e sem nenhuma pressão do ambiente para isso - seguir o caminho mais "fácil": o caminho do crime. Tal pensamento puritano me enche de nojo. Desconsiderar a influência que o meio social exerce sobre o indivíduo é de uma estupidez absurda. "Ah, mas eu conheço um cara que também veio de família simples, de um lugar adverso, e nem por isso virou bandido. Esse sim é um exemplo de alguém que venceu na vida". Tá aí outra coisa que me enoja: utilizar casos que são exceções para refutar a regra geral. Vou dar um exemplo: imagine que um menino tenha uma família desestruturada, uma mãe com muitos outros filhos, um pai ausente, que ainda por cima é alcoólatra, passando necessidade em casa. Você realmente acredita que existe um livre arbítrio que transcende a todas as adversidades enfrentadas por essa criança? Você acha que a influência positiva da professora na escola - se ele frequentar uma - será o suficiente para que essa criança, que até fome passa, trace um caminho melhor para sua vida? Eu diria que isso é pouco provável. Mas acho que os defensores da redução não conseguem enxergar isso. Suponha que na comunidade, com o tempo, essa criança descubra que existem meios de ascender socialmente - afinal, não é isso que o sistema capitalista prega? -. Porém, esses meios são ilícitos. Ela encontra em algum indivíduo dentro de sua comunidade uma figura bem-sucedida, respeitada, que acaba se tornando um modelo para ela. Pode não ser o modelo ideal, mas é o único modelo que ela tem. Então, por que essa criança não deveria segui-lo? Eu sinceramente não vejo justificativas para isso.

Caro leitor, cara leitora, permita-me recorrer a mais uma alegoria: suponha que, numa sociedade hipotética, a moeda vigente sejam balas. Isso mesmo, balas de iogurte, daquelas que você compra em qualquer padaria. Suponha que essas balas sejam a moeda de troca dessa sociedade, que determinará quem tem mais poder de compra, e também determinará quem terá que suar a camisa para sobreviver. Suponha agora que nessa mesma sociedade, existam 30 pessoas e exatamente 30 balas. No entanto, cinco dessas 30 pessoas têm em suas mãos, juntas, um total de 20 balas. É uma questão de matemática básica: as outras 25 pessoas disputarão as 10 balas restantes. E é óbvio que não sobrará recursos para todo mundo. Agora, aplique a mesma lógica dessa sociedade hipotética à nossa sociedade atual: alguma semelhança?

A fantasia do capitalismo é que, diferente do feudalismo, em que as relações de classe eram estáticas, nele as relações são dinâmicas: no maravilhoso capitalismo é plenamente possível nascer pobre e ascender socialmente ao longo da vida. Mas, como diria o psicólogo Luis Cláudio Figueiredo, da mesma forma que você pode ascender no capitalismo, também pode chegar ao fundo do poço, enquanto a sociedade segue em frente, totalmente indiferente à sua desgraça. Mas o que se vende ainda do capitalismo é a fantasia do pote de ouro do outro lado do arco-íris. A minha questão é: por que somente o indivíduo que utiliza de intimidação e ameaça de morte para obter recursos é considerado criminoso, bandido, vagabundo, sem-vergonha, mas o fato de pessoas - com um pouco mais de sorte - acumularem capital não é algo considerado imoral em nossa sociedade? Ao prosperar financeiramente, não estamos de alguma forma "roubando" de alguém também?

Intimamente atrelada à ideia de livre arbítrio, temos a ideia de meritocracia, extremamente valorizada no capitalismo. Sem qualquer enrolação, devo dizer que considero a meritocracia tão real quanto o coelhinho da páscoa ou o papai noel. A meritocracia, pra mim, é uma triste e doce ilusão! Triste para os mais pobres, que realmente podem chegar a acreditar que se não têm sucesso na vida, é porque não se esforçaram o suficiente. E doce para os mais ricos (ou, para os menos pobres), por acharem que terem algum patrimônio é porque conquistaram isso pelos seus próprios méritos, e essa doce crença de que a sociedade é movida pelo mérito pode impedi-los de ajudar aqueles que "não fizeram por merecer". Caro leitor, se você realmente acredita que a sociedade premia aqueles que mais merecem pelos seus esforços por chegarem onde chegaram, sinto dizer que te enganaram bonito. Gosto da analogia feita pelo professor Michael Sandel²: a meritocracia poderia ser comparada a uma corrida de carros, e uma corrida justa seria aquela em que todos os pilotos tivessem carros com a mesma capacidade de desempenho e onde todos os corredores largassem lado a lado. Nesse caso, o piloto que vencesse, de fato, seria merecedor de sua vitória. Mas o que acontece na verdade é que, já no ponto de partida da corrida, alguns largam bem à frente dos demais. Além disso, alguns correm de Ferrari, enquanto outros, correm com um pobre Fusquinha. O mesmo se aplica para a corrida com a vida, onde uns dão a sorte de nascer num lar mais estruturado, com pais que têm condições de dar boas roupas, boa alimentação, matricular os filhos em bons cursos de línguas, em bons colégios. Enquanto outros mal conseguem garantir a subsistência de sua prole. Aí, décadas depois, quando o filhinho de papai se forma na faculdade e começa a ganhar dinheiro, acha que é merecedor de tal prêmio. Realmente, há justiça na corrida da vida? A meritocracia se faz presente nela?

Se o livre arbítrio não é assim tão grande, porque existe uma forte influência do meio, que em grande medida aponta os limites e possibilidades de ação de cada indivíduo, e se a meritocracia não passa de um engodo, então como justificar a redução da maioridade penal? Aqui finalmente posso justificar meu radicalismo mencionado no segundo parágrafo, ao dizer que acho que a redução da maioridade penal sequer deveria ser uma pauta na agenda política atual. Provavelmente, alguns dirão que o ECA não funciona. Aí eu devo rebater esse argumento. O ECA, assim como o SUS, é lindo. No papel. Se ambos não funcionam, não é porque a lei é ruim. Mas é porque a lei não é efetivamente aplicada. Então, ao invés de debater a redução da maioridade penal, por que não discutimos os motivos pelos quais o ECA, que foi promulgado há quase 25 anos³, até hoje não funciona? Por que se gasta tanto tempo e energia para discutir os "crimes" cometidos por menores contra a sociedade, mas não se gasta um pingo dessa energia para discutir os crimes cometidos pelo Estado contra esses mesmos menores? Por que a omissão do Estado é irrisória? Por que só as contravenções cometidas pelo menor são lembradas, mas os direitos assegurados - e não cumpridos - na letra da lei do ECA, nunca são mencionados? Por que essa memória tão seletiva, para lembrar apenas dos eventos que lhes convém, em prol da redução da maioridade penal?

Em nenhum momento, estou dizendo que não temos um problema social de criminalidade no Brasil, bem como o conhecido fato de que adolescentes "assumem a bronca" de crimes cometidos por maiores de idade, porque, como sabemos, "não dá nada pra di menor". Não estou desconsiderando o medo - que, às vezes, beira ao pânico - vivenciado por cidadãos e cidadãs diariamente, sobretudo nas grandes cidades, onde as diferenças sociais e, por conseguinte, a violência urbana, são mais nítidas. Só estou dizendo que reduzir a maioridade penal é covardia contra crianças e adolescentes que, em última análise, são primeiramente vítimas. E, definitivamente, encher ainda mais os presídios, não é a solução.

Criei uma analogia há alguns anos, para expressar o que o Estado faz com os problemas existentes. Apelidei essa analogia de "Teoria da Goteira". Imagine que tem uma goteira na sua casa, mas que, ao invés de subir no telhado para trocar as telhas e acabar com as goteiras, você opta por aparar a chuva que cai dentro de casa com baldes. As goteiras vão aumentando em quantidade, bem como o número de baldes para apará-las. Logo, sua casa está igual a casa da Dona Florinda. E eu te pergunto: você resolveu o problema? Não, né. Podemos dizer que você arrumou uma solução paliativa, mas não foi até a raiz do problema, eliminando-o. Reduzir a maioridade penal, seria igual aparar as goteiras das chuvas com baldes - na verdade, acredito que seria ainda pior, pois seria uma tentativa frustradas de melhorar a situação, acabaria até piorando. Pra resolver o problema de verdade, é preciso subir no telhado, procurar as causas da goteira e intervir sobre as causas. E não sobre os efeitos. A criminalidade não é a causa do problema. A criminalidade é o efeito. Querem combater algo de verdade? Então não mexam na maioridade penal. Encontrem a causa do problema. E a combatam.

¹ Agradeço ao meu amigo andarilho, pelos longos anos de amizade, e pelas muitas vezes que me auxiliou com suas críticas, comentários e incentivos. Em especial, por ter relido esse texto antes de sua publicação, contribuindo com sua sempre sagaz opinião.

² Recomendo muito a série de palestras desse professor, disponível legendada no Youtube. Toda a série pode ser encontrada a partir do link do primeiro vídeo da coletânea: https://www.youtube.com/watch?v=EC5rEhbH-fI

³ Estamos às portas de comemorar os 25 anos da lei, correndo o risco de ter uma triste notícia e retrocesso, nesse jubileu de prata. A Lei 8.069/1990 pode ser lida na íntegra aqui: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8069.htm

sábado, 13 de junho de 2015

Moda Probabilística

Um novo conceito em estatística.

Em estatística, quando dizemos que a moda de um determinado conjunto de cores de camiseta é a cor azul, estamos simplesmente dizendo que aquele é o valor que mais se repete naquele conjunto. Sendo assim, a moda envolve um fato conhecido sobre um conjunto de dados, uma verdade inquestionável, e não uma mera especulação sobre aquilo que acreditamos ser a verdade. Trata-se, portanto, de um resumo de um conjunto de informações. É uma moda estatística.

No entanto, a palavra "moda" também é utilizada por profissionais da área homônima, para designar qual será a tendência de um determinado período. Neste caso, não estamos falando sobre um fato empírico, observável, que já ocorreu e que é possível ser julgado por duas ou mais pessoas, para posterior consenso dos observadores. Trata-se, portanto, de uma moda probabilística.

A moda estatística também é uma tendência. No caso, uma medida de tendência central. Uma síntese. Talvez não a melhor, nem a mais correta. Mas uma tentativa de resumir o que aconteceu. Já a moda probabilística é um pouco mais obscura. Me parece uma previsão baseada em nada, defendida por um suposto expert no assunto, e sustentada sem qualquer evidência real.

Vamos pensar um pouco mais sobre a moda probabilística. Como é que alguém pode dizer que "a roupa amarela vai vir com tudo na próxima estação, pois vai ser a moda, a tendência do verão"? Quais são os dados que predizem este acontecimento. Levanto três hipóteses a seguir, que visam explicar o exemplo dado neste parágrafo:

1ª Por algum motivo, a fábrica de roupas não tiveram acesso a nenhuma outra cor de tecido para produzir sua mercadoria. Aqui não importa muito se pegou fogo nos demais tecidos, se ninguém quis vender tecido de outras cores, ou se um caminhão de tinta amarela caiu sobre todos os tecidos. O que importa é que só tem amarelo, e o motivo pelo qual se prevê que a cor amarela será a mais usada é que não terão outras cores à venda nas vitrines;

2ª Um desejo coletivo levou a maior parte dos consumidores a exigir a cor amarela para a próxima estação, e a fabricação em massa de material nessa cor reflete apenas a vontade popular. Segundo esta hipótese, quando um especialista da moda diz que algo vai ser a tendência da próxima estação, ele está apenas baseando-se em dados reais que apontam para uma conclusão não empírica, mas totalmente lógica;

3ª Esta é a hipótese que mais me agrada, simplesmente porque é a que mais faz sentido pra mim (e, ao mesmo tempo, a que menos faz sentido). Neste caso, a explicação é a seguinte: os experts arbitrariamente decidem o que querem que esteja na moda futuramente, e independentemente de dados prévios ou da vontade futura das pessoas, plantam nos meios de divulgação em massa a semente de que algo estará na moda. O que eles fazem é sugestionar as pessoas a comprarem algo, se quiserem estarem na moda (ou, até mesmo, na média, e não ser um outlier).

Termino esse texto com um resumo: a moda probabilística é um conceito probabilístico que prevê a ocorrência de eventos futuros, sendo que o fator explicativo dessa previsão é a própria sugestionabilidade gerada pela previsão da moda probabilística.

Fim.

sábado, 23 de maio de 2015

Velhice

Um texto em homenagem aos amiguinhos Boretti, Kola e Guaianases, que estão me alcançando na marca dos 24 anos neste mês. Esta última (Guaianases) fica mais idosa já hoje.

Ontem eu estava sentado num banco da faculdade, aguardando duas pessoas que tinham ido ao banheiro, quando um rapaz alto e forte - provavelmente um estudante - se aproximou de mim e me cumprimentou:

- E aí mano, de boa?

- T-tudo bem. - disse eu, confuso por aquela inesperada abordagem. Ansiando que ele se afastasse tão rapidamente como se aproximara. Queria ficar só.

- Cara, na boa, cê não tem uma "seda" pra me arrumar aí, não?

Respondi que não tinha e ainda pedi desculpas por isso¹. O rapaz se afastou depois, e eu fiquei pensando que eu devo estar com uma aparência muito velha pro cara pensar que eu me acabo na maconha. Afinal, tem as irmãs (freiras) na faculdade, e duvido muito que ele teria pedido uma seda pra elas. Se veio até mim, é porque desconfiou que eu curtia um cigarrinho do capeta.

Aí eu comecei a pensar... eu sei que o tempo está passando, e que ele não está sendo nada generoso comigo. Mas também não imaginei que estivesse tão destruído assim. E comecei a lembrar de outras coisas que acontecem no dia-a-dia que fazem com que eu me sinta velho. Como quando a molecada acaba jogando a bola de futebol pra fora do condomínio bem na hora que eu estou passando pela calçada, e ao devolvê-la, ouço um "valeu, tio!".

Você percebe que está ficando velho quando come uma fritura e sente queimação logo em seguida, e fica passando mal. Ou quando está viajando de ônibus e começa a sentir dor nos pés, por causa de má circulação. Ou então quando revê um parente mais jovem - em geral, o filho de algum primo - e diz, abismado: "nossa, mas como que você cresceu!". E outras expressões passam a fazer parte do seu linguajar cotidiano, como "na minha época", "eu sou do tempo" e blá blá blá.

Ficar mais velho é fazer alguns exercícios nem tão pesados assim, mas amanhecer quebrado no dia seguinte. E também no outro, no outro e no outro. Uns quatro dias até se recuperar da maratona de atividades físicas. Ficar mais velho também é comer bastante e ver toda a gordura se concentrar na barriga, tal como no sistema capitalista, em que os recursos estão concentrados para uns poucos, que têm muito, e a grande maioria tem pouco.

Ficar mais velho é começar a fazer cálculos matemáticos, de quanto tempo já passou desde que o evento X aconteceu, ou então começar a especular se 24 anos correspondem a 1/4 da minha vida, 1/3, ou, ainda mais assustador, 1/2?

Ficar mais velho é perceber que você nem está tão velho assim, afinal de contas, ainda tem muita coisa pra viver. Em compensação, te faz pensar que sua amiga da mesma idade e que ainda está solteira realmente vai ficar pra titia. A menos que você (eu) arrume um véio careca e desdentado pra cuidar dela².


¹ Pensando melhor, eu deveria ter dito que havia acabado.

² Esse texto está uma bosta, mas não estou nem aí, pois minha vida também está.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Desabafo

Brasília, 04 de maio de 2015.

Caros fanáticos, seguidores do mundialmente famigerado blog Pra Gente Rir,

Venho por meio desta postagem fazer um desabafo. Primeiro, todos devem ter percebido que falhei na publicação de um texto na segunda quinzena de abril. De fato, tinha intenções de realizar uma publicação no final do mês passado, mas devido a problemas porque eu não quis mesmo, vão achar ruim? acabei não postando nada.

A correria está grande aqui na capital nacional. Mesmo com alguns esboços de publicações já prontas, não encontro tempo para finalizá-las, dar um acabamento final, para então publicar. A faculdade vem sugando as minhas energias. Como todos sabem, sou estudante de humanas, e as manifestações aqui não param nenhum dia. Também estou vendendo minhas artes dentro do Campus (pulseirinhas de miçangas, que aprendemos a fazer no curso. Quem quiser comprar, é só entrar em contato comigo). Além disso, também estou me introduzindo agora no comércio de produtos naturais para fins recreativos leia-se marihuana, mano, então não tenho tempo nem de estudar direito.

Gente, mas acredito que tudo isso é só uma fase. Em breve volto com tudo com postagens cada vez mais interessantes. E em breve, voltaremos com nossas incríveis promoções, onde você além de ler textos maravilhosos escritos por mim, ainda pode faturar um super prêmio aqui no Pra Gente Rir.

Portanto, eu imploro, não abandone esse blog, senão eu entro em depressão e me mato. Continue nos acompanhando, aproveite a oportunidade para reler alguns textos antigos, como esse daqui, esse aqui ou até mesmo esse aqui.

Uma ótima semana a todos e até logo!

Kily González
Presidente-Executivo
Pra Gente Rir

quarta-feira, 15 de abril de 2015

Estereótipo, Preconceito e Discriminação

Uma postagem factuada em baseados reais.

Um dia desses, eu ouvi a seguinte pérola: “Como assim você não é ateu?”.

A pérola em questão foi proferida por uma menina do meu curso, que se mostrava inconformada ante a descoberta de que eu, Kily, não sou ateu. No momento do ocorrido, eu também fiquei surpreso – no meu caso, surpreso pela surpresa dela. Fiquei tão surpreso que só depois que voltei pra casa que fui refletir sobre o ocorrido. Afinal de contas, quais elementos embasaram a teoria da jovem, para acreditar que eu de fato era ateu? Tá certo que eu não saio gritando aos quatro ventos qual é a minha crença. Mas também não ofereço nenhuma evidência em contrário, que leve alguém a crer que sou um descrente.

Essa garota fez uso de um estereótipo para me classificar como ateu. Os estereótipos nada mais são do que generalizações que fazemos sobre pessoas, grupos sociais ou situações, com base em esquemas que temos armazenados em nossa mente, e que facilitam a compreensão do mundo à nossa volta. No entanto, apesar de útil para guiar nossas ações no dia-a-dia, os estereótipos também possuem seus problemas. A maior parte dos julgamentos estereotipados que fazemos tem como alicerce alguma crença cultural, que não necessariamente se sustenta na realidade. Por exemplo, quando afirmamos que todo japonês necessariamente é inteligente, não estamos considerando o caso do Sr. Shiguefuzi, um nissei que tem raciocínio lógico de uma toupeira e extrema dificuldade na resolução de problemas gerais. Outro exemplo é o de quando julgamos que todo baiano é preguiçoso, até nos darmos conta de que a organização social da Bahia também gira em torno do trabalho (executado, em sua maioria, pasmem, por baianos). Ou ainda, quando acreditamos que todo corintiano é bandido... bom, aí eu devo reconhecer que esse é um estereótipo verdadeiro.

Mas voltando a história de eu ser (ou não ser...) ateu (... eis a questão), a menina continuava olhando incrédula para mim, depois de descobrir que eu não era ateu. Ela insistiu, com semblante horrorizado:

- Não, não, isso não é possível! Você tem que ser ateu! Olha só pra você!

O “tem que” foi dito com tanta ênfase que poderia ser substituído por “precisa” ou por “deve”, sem comprometimento do sentido da frase. “Você PRECISA ser ateu”. Segui o comando dela e tentei olhar para mim mesmo. Como ali não havia espelho, olhei para baixo, contemplando as roupas que cobriam meu castigado corpo: uma camiseta preta, uma calça jeans surrada e um tênis igualmente (e cumulativamente) preto e surrado. Fora a minha indumentária, também compõem o meu visual o meu cabelo comprido e a minha barba desleixada de estudante de humanas. Entretanto, a meu ver, nenhum desses elementos possui a qualidade de ateísmo intrínseca a eles.

- Sinto muito te desapontar, mas eu não sou ateu. – expliquei, do modo mais polido possível, realmente achando que eu devia um pedido de desculpas para ela, e temendo nova represália moral ou até mesmo uma agressão física.

- Ah, você deve ter cometido algum engano, Kily. Tem certeza que não é ateu? Absoluta? – confirmei com um movimento de cabeça. – Eu tinha certeza que você era ateu, roqueiro e satanista.

Decidi ficar calado e não comentar o contrassenso que era tal classificação, incluindo ateu e satanista ao mesmo tempo. Ao invés disso, brinquei:

- Na verdade eu sou judeu, pagodeiro e nazista.

Minha piada não surtiu o efeito desejado. A menina foi embora. Fim.

Apesar de eu não ser ateu, roqueiro, nem satanista, devo reconhecer que eu preencho em alguma medida aos estereótipos que as pessoas têm sobre as duas últimas figuras. Com meus cabelos e barba compridos, e sempre com uma camiseta preta, acabo passando por alguém que curte um rock ‘n roll. A única coisa que não repararam ainda é que minhas camisetas pretas são lisas, isto é, sem estampa. Nunca apareci em lugar algum com uma camiseta de banda, tipo Slipknot, Guns ‘n Roses ou algo do gênero. Mesmo assim, certa vez, um cara que estudava comigo se aproximou de mim e falou:

- Cara, você se parece muito com o Robson¹.

- Desculpe, mas não conheço esse elemento. – respondi.

- Cara, o Robson, guitarrista dos Robinstones.

- Continuo sem saber quem é. Não conheço tal banda também.

- Ô loco! Como não? Que instrumento você toca? – envergonhado, assumi que não sabia tocar nenhum. – Ah, fala sério, qual você toca? – e eu insisti que não sabia tocar sequer berimbau, que só tem uma corda, ou mesmo uma gaita caipira, que é praticamente só assoprar que o som já sai em forma de música.

A ideia aqui não é criticar os estereótipos das outras pessoas, mas propor uma reflexão sobre ele. Vou contar um episódio que aconteceu comigo mesmo há uns 3 anos, e mostra bem como é sério esse negócio do estereótipo. Eu estava voltando da faculdade, quando desci do ônibus. Já era bem tarde, a rua estava deserta, e eu tinha que caminhar cerca de 300 metros da parada de ônibus até o prédio onde eu morava. Enquanto caminhava, vi uma pessoa lá longe, também caminhando na direção contrária, isto é, em minha direção.

Na hora gelei. Meu coração acelerou. Já comecei a pensar no pior. Comecei a orar a Deus, pedindo pra ele perdoar todos os meus pecados e dizendo que se ele me livrasse daquele problema dessa vez eu jurava que eu realmente pararia de vestir lingerie feminina. E enquanto eu andava, torcia para que a pessoa que vinha na outra direção estivesse de camisa azul. Isso porque onde eu moro, camisa azul é uniforme de motoristas e cobradores de ônibus. E é aqui que está o meu primeiro estereótipo: quem trabalha é cidadão de bem, não comete crimes e não causa problemas para a sociedade.

Alguns segundos depois, para meu desespero, percebi que o sujeito que vinha em minha direção, além de não estar de azul, estava de chinelo, com um boné aba reta, uma bermuda de mano, e de quebra possuía a tez negra. Naquele momento, tive certeza de que iria morrer. Aqui estão outros estereótipos (é um conjunto deles, mesclados): uma pessoa que está na rua depois das 11 da noite e não está com mochila nas costas, nem com uniforme de cobrador, provavelmente não está fazendo coisa boa na rua. Se estiver vestido igual mano então, na certa é bandido. E se for negro, meu amigo, pode se preparar pra abotoar o paletó. Perceba que neste caso o estereótipo foi um pouco além e se tornou um claro preconceito, pois além das generalizações sem evidências, envolve atitudes negativas a respeito de determinadas características. Se eu pudesse resumir a Escala Subjetiva de Medo do Kily, ela ficaria mais ou menos assim:

- a roupa da pessoa é azul: é cobrador ou motorista de ônibus. Logo, nenhum medo;

- a roupa da pessoa não é azul: sinal de possível perigo. Logo, sinto medo;

- a pessoa está com boné aba reta e bermuda de mano: assalto na certa. Logo, sinto pavor;

- além do item anterior, a pessoa é negra: latrocínio garantido. Logo, me borro todo.

O desfecho da história é óbvio, dado que três anos depois, estou aqui postando esse texto: não fui assaltado, tampouco estuprado, e nada aconteceu. Apenas passei ao lado do rapaz negro, que nenhuma atenção deu para mim, e cheguei são e salvo em casa. E isso fez com que eu me sentisse muito mal, pois eu me percebi um tremendo preconceituoso naquele dia.

O terceiro elemento que faz parceria com o estereótipo e com o preconceito é a discriminação. A discriminação, diferente do estereótipo e do preconceito, é uma ação propriamente dita, muitas vezes embasada nos outros dois. A questão é que o estereótipo e o preconceito são pensamentos, ideias, valores, que não necessariamente são externalizados. Já a discriminação necessariamente é expressa através de comportamentos. E apesar de ser a mais explícita das três – no sentido de que acontece de modo que todos possam observar – ela deve ser também a mais velada de todas. Afinal, os estereótipos e até mesmo preconceitos vivem sendo expressos através de piadas. Mas a discriminação é um assunto tabu, pois ninguém quer ser chamado de racista, de misógino ou de homofóbico.

A discriminação pode ocorrer de formas sutis, como na hora de escolher sentar ao lado de uma pessoa no ônibus, só para não ter que sentar ao lado de outra, que, no caso, possui alguma característica “discriminável”. Suponhamos que nesse exemplo, a pessoa a quem evitei seja um homem com a barba por fazer, o cabelo despenteado e as roupas surradas. Se eu sinto nojo dele, porque julgo que a aparência dele denota pobreza e sujeira, a minha ação de afastamento foi preconceituosa. Outra forma um pouco menos sutil é a pessoa que diz: “não, eu não sou uma pessoa preconceituosa. Eu até tenho um amigo gay”, como se estivesse fazendo um favor para o gay (que ao se assumir publicamente como gay, perde sua dimensão humana, deixa de existir enquanto pessoa, e passa a ser somente um gay), ao ser amigo dele. Mas a discriminação pode ser ainda mais explícita, como infelizmente ainda acontece na Europa, onde a torcida chama os jogadores brasileiros de macacos e ainda atiram banana dentro do campo em alusão ao símio que aprecia essa iguaria.

Esse texto procurou explorar de modo bem humorado, o tripé estereótipo-preconceito-discriminação. Ao meu ver, ter estereótipos ou preconceitos não são o grande problema. O problema é tê-los e não saber/assumir que tem. É negá-los. Uma pesquisa feita pela Folha de São Paulo em 1995 investigou a temática do racismo. Na pesquisa, 80% dos respondentes afirmaram que acreditavam que ainda existia racismo no Brasil. Porém, quando perguntados se já haviam discriminado alguém, a maioria dos pesquisados responderam que não. O que depreende-se disso? Que o Brasil é um país racista, mas sem racistas. E essa negação pode levar a discriminação, o último e mais perigoso estágio desse tripé. Algumas pessoas podem alegar que não sabiam que eram preconceituosas. Sinto dizer, mas o desconhecimento não muda os efeitos da discriminação sobre suas vítimas. O primeiro passo rumo a qualquer mudança é reconhecer que o problema existe, e que ao contrário do que se pensa, ele é muito sério, e afeta toda a nossa sociedade.

¹ Robson aqui representa o nome de um músico. Como não me recordo qual músico o cidadão se referia quando me disse isso, preferi colocar um nome fictício. O mesmo se sucede com o nome da banda citado na sequência do texto. Vale ressaltar que, apesar da minha ignorância no tema, ao que tudo indica, se tratava de um nome expressivo no cenário do rock mundial, o que tornava a meu desconhecimento quase uma blasfêmia.

terça-feira, 31 de março de 2015

Papel Higiênico

Um texto escrito no banheiro.¹

Cá estou eu pensando: “qual será o lado correto do rolo de papel higiênico?”.
Pode parecer uma pergunta tola para alguns, mas eu a considero extremamente relevante – eu diria, uma das perguntas filosóficas mais importantes da história da humanidade. Pra quem não sabe, o papel higiênico é uma ferramenta muito importante na vida de qualquer pessoa. Desde o mais pobre até o mais velho. E o uso dessa ferramenta começou há muito, muito tempo atrás. Inicialmente, o papel higiênico usado nada mais era do que folha de alguma planta. Algumas vezes, nossos ancestrais utilizavam folhas com propriedades urticantes. E aí o resultado desse uso não era muito legal.
O tempo passou, passou e passou mais um pouco, até chegarmos na Era Moderna do Papel Higiênico. Com o declínio do feudalismo e o advento do capetalismo¹, o tipo de papel higiênico se tornou motivo de status social. Enquanto a burguesia já utilizava o atual papel higiênico extra macio, de folhas duplas e com cheirinho de flores (pra deixar um odor agradável na pele dos consumidores), o proletariado utilizava sabugo de milho recém consumido para realizar suas limpezas – num típico reaproveitamento de material por parte dos menos abastados. E, abaixo deles, os miseráveis, que faziam das próprias mãos suas ferramentas de limpeza pós-uso da latrina.
Felizmente, o papel higiênico se popularizou e tornou-se um recurso disponível até para a parcela mais pobre da sociedade (da qual faço parte). No entanto, é um produto cuja venda é realizada de forma abusiva pelos fabricantes, que competem pela venda de um material de má qualidade, anunciado como sendo “o que há de melhor e mais moderno no mercado atualmente” e sob a alegação de uma falsa promoção. Já me cansei de ver no mercado as promoções do tipo “Leve 16 e pague 15” (inclusive, já vi até o antológico “Leve 15 e pague 16”). O que os consumidores precisam saber é que a qualidade do material é tão pífia que não vale a pena essa suposta economia.
Inicialmente, os rolos de papel higiênico não eram afixados em nenhum lugar específico. Alguns optavam por deixá-lo no chão. Outros, na mesa da cozinha. E essa falta de padrão gerava alguns transtornos para os consumidores. No primeiro caso, o vira-lata da família podia ir lá e comer todo o papel higiênico, fazendo uma enorme bagunça no banheiro. No segundo, o usuário, desprevenido, podia acabar usando o banheiro, sem saber que não havia munição disponível para seu usufruto, assim que encerrasse sua obra. Então, um cara muito inteligente, cujo nome não pode ser pronunciado em voz alta sem que a pessoa morra, teve a ideia de criar um suporte para manter fixo o rolo de papel higiênico. Diz a lenda que na verdade esse cara roubou a invenção de um colega seu, o verdadeiro idealizador do projeto. Não se sabe se isso é verdade ou mito. Tudo o que se sabe é que o suposto criador do invento, cujo nome não pode ser pronunciado em voz alta sem que a pessoa morra, morreu depois de concluir sua invenção, afogado na própria privada – e, como ainda diz a lenda, logo após pronunciar seu próprio nome em voz alta, cumprindo assim a supracitada profecia.
Com a súbita morte do falecido inventor desse genial invento recém inventado, uma questão ficou sem resposta: qual é o lado correto do rolo do papel higiênico? A ponta que puxamos para utilizar o produto deve ficar na parte de cima ou de baixo do rolo?
Uma pergunta, à primeira vista tão trivial, tem sido objeto de análise de inúmeros cientistas, que almejam alcançar uma resposta definitiva para a polêmica questão, baseada em evidências empíricas. E é uma pergunta de grande relevância social, dado que o consumo de papel higiênico cresce a cada ano, com preços exorbitantes, preços esses que sobem mais do que o da gasolina e o da energia elétrica juntos. Só podemos concluir uma coisa disso: alguém está ganhando muito dinheiro com essa desinformação. E, provavelmente, temo dizer, esse alguém é um chefão da indústria do papel higiênico.
Visando responder ao questionamento da área, os pesquisadores se debruçam sobre três indicadores, para chegar numa resposta definitiva. São eles: a) facilidade do manuseio; b) economia do produto; c) estética da configuração escolhida. E, a disputa, seguindo esses parâmetros, segue empatada.
Quando o assunto é facilidade do manuseio, a Corrente “A” leva a melhor. As últimas pesquisas apontam que com a ponta para cima, as chances da ponta se romper é menor, o que ajuda o usuário a utilizar o produto. Em contrapartida, no quesito economia do produto, a Corrente “B” leva a melhor. De fato, parece existir uma relação inversamente proporcional entre a facilidade de manuseio do produto e a quantidade de produto utilizado. Segundo defensores da Corrente “B”, que preconiza que a aba móvel deve ficar para baixo, isso impede desperdícios e facilita que a linha pontilhada destaque o papel, quando assim for desejado pelo usuário. E, finalmente, quando chegamos no critério de desempate, a estética da configuração escolhida é o mais polêmico de todos. E é nesse quesito que os estudiosos da área mais têm se dedicado, pois é nele que parece que há uma esperança para ambas as correntes desempatarem o embate, e venceram essa disputa, que já dura mais de cinco décadas no meio científico. No entanto, a questão estética é influenciada pelo design do papel higiênico de cada fabricante. E como o design varia de empresa para empresa, fica difícil chegar a um consenso. Teóricos da área afirmam que deveria haver uma síntese epistemológica, visando estabelecer um parâmetro cientificamente válido e ontologicamente consistente para que todas as fábricas adotem, ao confeccionar seus produtos. No entanto, outros teóricos acreditam que isso seria um retrocesso, ao abrir mão da pluridiversidade do fenômeno papelesco higienesco.
Enquanto os cientistas não encontram uma solução, continuamos acompanhando esse embate, com importantes consequências para toda a sociedade. Espero que uma solução ocorra em breve, para que os preços desse produto caiam ainda mais e para que deixemos de ser explorados pela terrível indústria do papel higiênico.


¹ Agradeço a Tampinha pelas ricas contribuições e sugestões feitas durante a confecção desse texto. Dedico a ela essa publicação. O termo "capetalismo" é uma sugestão que tem a marca registrada dela. É um termo que se refere ao sistema socioeconômico criado pelo capeta.



Procuradas pela produção do Pra Gente Rir, apenas uma das correntes
sobre o Dilema do Papel Higiênico foi encontrada para expressar sua
opinião sobre o tema. Acima, segue uma ilustração que mostra o posicionamento
dessa corrente teórica.

quinta-feira, 19 de março de 2015

24

Uma postagem heterofóbica.

Domingo passado eu completei 24 anos. Ou, como diria o escritor George R.R. Martin em suas narrativas, foi comemorado o vigésimo quarto dia de meu nome. É aquele aniversário em que meninos recebem gracejos junto às parabenizações, com frases que dizem "o ano da decisão", "ou vai, ou racha" dentre outros. Pra quem não sabe, no Brasil, o 24 é popularmente considerado número de viado.

Agora, muito se engana quem acha que eu fico ofendido quando alguém insinua qualquer coisa a respeito da minha (as)sexualidade, sobretudo por causa de um número. Foi-se o tempo de escola, quando eu era adolescente, em que os primeiros dias de aula eram vivenciados com angústia, para saber se eu escaparia da humilhante atribuição do número 24 na chamada da lista de alunos (por duas vezes eu foi o 23). Afinal de contas, todo mundo sabe, se você for o 24 na chamada, automaticamente, você é gay. Porque, na matemática, o principal axioma que permeia esse campo do conhecimento é o de que a homossexualidade é uma característica intrínseca e indissociável deste número. Entretanto, essa teoria não é aceita de modo unânime e inconteste pela comunidade científica. Há quem diga que ainda não foi definitivamente provado que o número vinte e quatro possui em si o princípio ativo homossexualizante. Tudo o que existem, segundo os adeptos dessa corrente, são indícios. Inclusive, um doutor em farmácia afirmou recentemente que tomar 24 gotas de qualquer medicamento não “enviada” mais uma pessoa do que tomar 23 ou 25 gotas do mesmo medicamento. Bem como, dizem os estudiosos do assunto, calçar sapato tamanho 24, ter 24 no número do RG, do celular ou até mesmo tatuado no bumbum não faz de ninguém um gay.

Muitos levam tão a sério essa brincadeira sobre o número 24, que inventam desculpas para não assumir seus 24 anos. "Estou fazendo um quarto de século menos um", dizem os espertinhos dos números (sobretudo aqueles que já leram Malba Tahan) ou "Vou fazer 23 anos duas vezes, depois salto direto para o 25". Ao contrário dessas pessoas, eu digo que assumo os meus 24 anos com muito orgulho. Primeiro, porque ter 24 anos pra mim não significa nada mais além do fato de que faz 24 anos que nasci. Segundo, porque é ótimo fazer 24 anos! Pense bem... existe apenas uma opção para quem não quer fazer 24 anos, que é a de não sobreviver até completar tal idade. E como eu gosto de estar vivo, é com muito orgulho que assumo que completei minha vigésima quarta primavera (que, em tese, é a vigésima terceira, pois eu nasci no verão). Esse texto é dedicado a todos os nove-um (91) que, assim como eu, já passaram ou passarão pelo ritual dos vinte e quatro anos em 2015, se tudo der certo. Parabéns pra nóis!


P.S. ah, o texto original terminava ali em cima. Mas, como no domingo ocorreu um fato atípico, não posso deixar passar em branco aqui... Gostaria de agradecer a todo o povo de Brasília e do Brasil inteiro que foi para as ruas para celebrar meu aniversário e me homenagear. Recebam o meu mais sincero obrigado!


Multidão aglomerada em frente ao Congresso Nacional, para prestar homenagem a mim.


Fãs mostram cartazes com demonstrações de carinho.