sábado, 7 de junho de 2014

Café-com-leite

Este foi o primeiro texto que produzi estando na UnB. No horário de almoço do dia 04 de junho de 2014, sem nada para fazer, apesar de ter um monte de coisa para estudar, durante uma ligação cotidiana para minha namorada, a ideia surgiu. Escrevi e fui ditando o que escrevia para ela ao telefone, enquanto ela ria da história. Naturalmente, os dois últimos parágrafos, em que falo dela, foram escritos depois que desliguei o telefone.

Dicionário Pra Gente Rir
Café-com-leite: s.m. 1. Indivíduo temporária ou permanentemente desprovido de habilidades cognitivas e motoras, que o torna merecedor da condescendência dos demais em jogos infantis. 2. Fracassado, perdedor. 3. Loser. 4. Bebida composta de café, ao qual é acrescido o leite. 5. Café-com-leite (1).

Uma xícara da bebida homônima.


Café-com-leite

Não, eu não me refiro à bebida, mas sim a expressão “café-com-leite”. Afinal, quem nunca na vida foi café-com-leite? Todo mundo um dia já foi café-com-leite, e alguns continuam sendo até hoje, como minha namorada.

Quando eu era criança – eu ia dizer quando eu era pequeno, mas eu ainda sou pequeno – e ia brincar de pega-pega ou de alguma outra brincadeira com primos e vizinhos, acontecia de aparecer o meu irmão mais novo, em início de fase de socialização, querendo brincar também. Só que ele era totalmente incompetente para seguir regras, e sem nenhuma habilidade motora para brincar.

Eu e meus amiguinhos olhávamos uns para os outros quando ele aparecia querendo brincar, trocávamos aquele ar cúmplice de tristeza, não querendo aquele pirralho na brincadeira. Só que, irmãos mais novos têm uma enorme habilidade de ir correndo para os pais reclamar por algo e conseguir que sua queixa seja atendida – SEJA ELA QUAL FOR!

Caillou brincando com sua irmã café-com-leite.

Meu irmão corria pra minha mãe aos berros. Minha mãe imediatamente deixava de conversar com outros adultos, e olhava para meu irmão, achando que ele tinha quebrado as duas pernas, ou cortado um dedo com a faca, ou ainda sido estraçalhado pelo cachorro. Quando mamãe via que estava tudo bem, ela perguntava pro chorão do meu irmão:

- O que aconteceu, menino?

E com voz infantil e engrolada pelo choro, meu irmãozinho astutamente respondia, sabendo ser certo que sua queixa seria ouvida:

- É que o Kily não deixa eu brincar de pega-pega com ele e os amigos dele.

Alguns segundos depois de eu proibir meu irmão de brincar com a gente, tão logo ele se queixava para minha mãe, eu ouvia um enorme grito de minha mãe, me chamando, brava. Eu ia até ela com o rabo entre as pernas:

- Me chamou, mamãe?

E minha mãe dizia, num tom bravo e autoritário:

- O seu irmão disse que você não quer deixar ele brincar de pega-pega com vocês! Que negócio é esse? Pode já deixar seu irmão brincar também!

- Mas mãe, ele não sabe brincar de pega-peg...

- Não interessa! Pode deixar ele brincar! – antes mesmo que eu terminasse minha defesa, minha mãe já tinha lido as provas, dado a sentença e o veredicto.

Voltávamos para o meio das outras crianças, eu, cabisbaixo, e meu irmão, todo sorridente, porque ia brincar com a gente. Ou, achava que ia brincar...

Felizmente, nós crianças fomos muito espertas e criamos uma norma de convivência interna, que ficou nacionalmente conhecida como Política do Café-com-Leite (isso não tem nada a ver com o período homônimo da história brasileira). Nos países de língua inglesa, o termo é conhecido como Coffee with Milk Political (exceto na Inglaterra, onde ninguém toma café, mas sim chá, por isso o termo é conhecido como Tea without Sugar Political).


Um cappuccinaço, coletivo contendo várias pessoas cafés-com-leite


A Política do Café-com-Leite consiste no seguinte: para atender às exigências inquestionáveis dos adultos, as crianças deixam a criança menor brincar com elas. Pelo menos nas aparências. O que os adultos, nem essa criança menor sabem, é que ela não está brincando de verdade. Ela só está ali no meio, tal qual um quero-quero num meio de um campo de futebol, que figura no cenário do jogo, mas que não participa dele efetivamente. Para que a Política do Café-com-Leite entre em vigor, basta que uma das crianças, de preferência o irmão, no caso eu, que estou rejeitando meu irmão menor, diga em alto e bom som para que todas as demais crianças escutem: “o Juninho é Café-com-Leite”. A expressão café-com-leite já subentende no mundo infantil que aquela criança só está brincando junto com as demais no universo dela. Mas no mundo real, ela está brincando sozinha.

Aí eu fico me lembrando de quantas vezes eu vi a carinha do meu irmão, todo feliz, brincando de pega-pega, porque ele nunca estava “pego”, ele nunca perdia, ele era a melhor do jogo, estava sempre ganhando. Coitado, nem sabia que o pessoal estava era ignorando ele. Era como se o pobrezinho nem estivesse ali. Corria para um lado e para o outro com um sorriso estampado no rosto, esbanjando alegria. Quando a criança que estava pega corria na direção dele mas passava reto (porque na verdade estava perseguindo outra criança), ela se achava, pensava que tinha sido mais rápido e tinha conseguido despistar a atenção da outra criança. Que bobão!

Uma variação da política do café-com-leite também é útil para se utilizar com os irmãos mais novos, quando se está jogando vídeo game e a mãe ou o pai entra no nosso quarto brigando porque o irmão mais novo foi chorando contar que não deixamos ele jogar. Aí, nesse caso, não é preciso invocar a política do café-com-leite em voz alta. Basta entregar o controle para o irmãozinho jogar, e dizer que ele é o personagem principal do jogo (ou que ele é o outro time, em caso de jogos de futebol). A grande sacada dessa adaptação, é que o controle é entregue para o irmão DESCONECTADO do vídeo game. Aí o inocente vai ficar achando que são as irregulares e desajeitadas ações dele no controle que provocam as ações do personagem na tela da televisão. Mais uma vez, o irmão mais novo vai achar que está abafando no jogo. E ainda por cima, depois vai dizer que pra todo mundo que zerou o game. E no caso, ele realmente zerou. Não fez nenhum ponto...

Irmão jogando vídeo game com o irmão caçula café-com-leite.


Ao escrever este texto, fiquei pensando nas pessoas que até hoje parecem que são cafés-com-leite. Eu vejo uns estudantes tão perdidos na sala-de-aula, que tenho minhas dúvidas do porque eles estão aqui. Às vezes eu imagino o professor dizendo num tom de voz um pouco mais baixo, no início da aula, antes daquele aluno que sempre chega atrasado chegar: “olha pessoal, o Fulano vai chegar daqui a pouco, e ele pensa que ele faz parte da aula, mas ele é café-com-leite, tá? Ele vai fazer todas as provas, mas não ta valendo nada, combinado? Se eles caírem no seu grupo no dia trabalho, coloquem o nome dele, que na hora de corrigir eu considero só o nome dos demais que realmente fizeram o trabalho, porque o Fulano é café-com-leite”.


Yamcha, o café-com-leite master do Dragon Ball.


Togepi, o café-com-leite do reino Pokémon.

As pessoas sem saberem, adotam a política do café-com-leite em seu cotidiano. Quando mendigos vêm pedir dinheiro, ou vendedores ambulantes ou nos ônibus vêm vender seus produtos, ou ainda malabaristas fazem sua arte no semáforo e os ignoramos acintosamente, estamos tecnicamente dizendo que essas pessoas são café-com-leite também. É algo cruel de se pensar, mas é a realidade.

Além disso, eu uso a política do café-com-leite até hoje, com minha namorada. Quando nós vamos discutir a nossa relação, eu finjo que estamos discutindo de verdade, mas na verdade ela é café-com-leite. Então, quando cada um de nós aponta o que quer que o outro mude ou melhore na relação, só ela quem vai mudar, porque eu não me lembro de nada do que ela falou. E quando estou jogando vídeo game também, e ela sempre aparece pedindo pra jogar junto comigo, pra nos divertirmos juntos tentando zerar o jogo? Aí é mais complicado. Nesse caso eu faço o seguinte: nós jogamos o game juntos, e ao final da partida, salvo o nosso ridículo progresso (quando há algum) no memory card do vídeo game. Só que, o que ela não sabe, é que eu tenho um memory card reserva escondido, e é neste outro que eu salvo o jogo que eu jogo para valer, tentando zerar.

Existem inúmeras outras aplicabilidades da política do café-com-leite para minha namorada. Não vou citar todas porque não quero me estender muito neste texto. Os exemplos já foram suficientes para mostrar como esse conhecimento que adquiri na infância ainda é muito útil na minha vida.

Um café-com-leite que superou seus limites e venceu na vida.


Sheldon identificando mais um loser, evolução de um café-com-leite.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Copa do Mundo

O nome do mascote da Copa do Mundo de 2014, Fuleco, já
parece anunciar o lugar onde todos os brasileiros irão tomar nesta Copa.



Estamos em contagem regressiva para o início da Copa do Mundo de 2014 aqui no brasil¹. E eu prometi para mim mesmo que faria uma publicação sobre o tema quando faltasse exatamente um mês para o início da Copa. Não se engane o leitor, que aqui não fala nenhuma reacionário que odeia futebol. Pelo contrário, eu sou um apaixonado por Copa do Mundo, adoro a oportunidade que me é oferecida a cada quatro anos, de poder assistir a jogos de seleções que raramente tenho a oportunidade de verem jogar entre si. Entretanto, não estou aqui para falar de futebol. Aliás, esta provavelmente será a Copa do Mundo que menos acompanharei, desde a Copa de 98, quando comecei a assistir. E o motivo é bem simples: não tenho televisão. Se eu tivesse TV e tempo, eu assistiria a todos os jogos que pudesse. Estou financeiramente desfavorecido este ano, que também quebrarei uma segunda tradição em minha vida desde a Copa de 98: não comprarei o álbum da Copa, não trocarei cromos, nem me divertirei com essa brincadeira quadrienal.

Bom, minha vida mudou muito de quatro anos pra cá. Há quatro anos, eu era funcionário público, tinha uma vida estável, morava com minha mãe e minha irmã, em casa tinha televisão e, sim, eu fui de camiseta laranja pro trabalho quando a Holanda eliminou o brasil nas quartas-de-final da Copa da África do Sul, em 2010. Atualmente, não disponho do mesmo luxo, não sou mais funcionário público, agora moro sozinho, não tenho nem o básico para uma casa, quem dirá uma televisão. E também, estou na universidade, não tenho tempo disponível para ver jogos, preciso estudar para ser alguém na vida.

Então, vamos ao teor desse texto. Não vim aqui para criticar a seleção. Até porque, para criticar a seleção, eu preciso dizer de qual seleção estou falando. Se for a Seleção, com S maiúsculo, que já virou sinônimo nacional de “seleção brasileira”, essa seleção aí eu espero mesmo que se lasque e passe uma vergonha enorme nessa Copa. Se dependesse de mim, o brasil perderia os três jogos da fase de grupos e aquele sujeitinho chamado Neymar seria uma grande decepção. O que francamente, duvido muito que vá acontecer, dado que eu acho que o Jorge Kajuru estava certo quando disse que essa Copa já estava vendida para o brasil ganhar...

Bom, já pus as cartas à mesa, já disse que acho a Copa uma das coisas mais legais do mundo, se pudesse assistiria aos 64 jogos, mas não posso. Mas eu não vim aqui para falar do EVENTO ESPORTIVO Copa do Mundo, e sim das POLÍTICAS relacionadas a Copa do Mundo.

Não sei de tudo o que aconteceu até aqui, portanto apenas ilustrarei com alguns argumentos, mas tenho certeza que se você procurar na internet, achará muito mais coisas além das que eu citarei aqui. Antes de dar meus exemplos, vou dizer genericamente o que eu penso da Copa. Se isto fosse uma Redação do Enem², essa seria a minha tese, o parágrafo inicial, pra quem estudou a formulazinha de redação do certame. Nos demais parágrafos, defenderei minha ideia. Então vamos lá.

Eu acho que essa Copa do Mundo, em termos de brasil, é uma das coisas mais ignominiosas que já aconteceram nesse país. Eu francamente sinto vergonha de ser brasileiro e de fazer parte de país tão cretino como o nosso, claramente me referindo aqui aos governantes que nos representam diante do mundo. É desonroso tudo o que aconteceu envolvendo a Copa, passando desde a construção dos estádios, licitações realizadas de forma sub-reptícia, desapropriação de comunidades, supostas pacificações de comunidades cariocas – mas com interesses políticos escusos -, até soberania nacional colocada a prova em detrimento das exigências da FIFA e muito mais. Mas assim eu estou apenas divagando, vamos a alguns exemplos que eu prometi, para concluir a minha crítica.



A – Estádios, elefantes brancos e superfaturamentos
Uma das promessas feitas sobre a Copa, é que a maior parte dos recursos utilizados para toda a preparação de infra-estrutura para o evento seria financiado por dinheiro privado. Ao poder público, pouco dinheiro caberia injetar nesta parte do projeto, sendo este reservado para o investimento de obras cuja competência é exclusiva do Estado, tais como saúde, transporte e segurança. Entretanto, hoje já podemos ver que essa foi uma mentira escandalosa, já que a maior parte do dinheiro investido veio dos cofres públicos. E provavelmente, muito desse dinheiro foi pingando de bolso em bolso, dando uma discrepância entre receita e dinheiro realmente investido.

Além disso, grande parte dos estádios superfaturaram suas obras (não sei exatamente se todos, então prefiro não incorrer em uma falsa afirmação). Prometeram gastar X, mas no fim das contas gastaram muito mais do que o orçamento inicial. E em alguns estados, os estádios se tornaram sinônimo de “elefantes brancos”, estádios que quase não terão uso futebolístico, dado que em muitos estados não existem equipes de grande expressão no futebol nacional. Por exemplo, em Brasília, onde eu moro, o Estádio Mané Garrincha foi considerado o estádio mais caro da Copa. Vale lembrar que o Mané Garrincha já existia antes da Copa, e que tecnicamente, ele passou por uma reforma. Veja o que a reportagem da Folha de São Paulo diz sobre o tema clicando aqui. Eu questiono para que servirá um estádio tão caro como o Mané Garrincha, depois da Copa, num local sem nenhuma expressão no futebol? Para ser palco de jogos como Ceilândia x Ceilandense? Luziânia x Brasília? Gama x Brasiliense? Criança Esperança x Teleton? Amigos do Ronaldo x Combinado do Kuwait? Ah, faça-me um favor!

É contraproducente um estádio de futebol como o Mané Garrincha e o de outros estados (Arena Amazônia, Arena Pantanal, só para exemplificar) ficarem com seu uso limitado a jogos de excursão de times grandes do Rio e de São Paulo, e de shows internacionais de grandes bandas de rock.

E o que dizer do Itaquerão? Uma das mais polêmicas arenas construídas para a Copa, a Arena Corinthians teve grande parte de seus recursos providos pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Segundo a página institucional do BNDES, a entidade, que é uma “empresa pública federal, é hoje o principal instrumento de financiamento de longo prazo para a realização de investimentos em todos os segmentos da economia, em uma política que inclui as dimensões social, regional e ambiental”. Tudo bem, eu entendo que o negócio do BNDES é fazer financiamento mesmo, mas em se tratando de uma empresa pública federal, eu francamente devo questionar esse tipo de financiamento, com outras tantas prioridades para se investir. Só para deixar claro, quem faz o financiamento é o BNDES, mas quem faz o empréstimo, como intermediário entre o consórcio responsável pela construção do estádio e o BNDES é a Caixa Econômica Federal. Que aliás, apenas a título de curiosidade, utiliza o capital da empresa (cujo dinheiro não deixa também de ser nosso, já que somos donos da empresa) para patrocinar o Corinthians e também o Flamengo.

E só pra finalizar esse tópico, quero deixar bem claro o que eu penso sobre um certo discurso que é bem recorrente por aí. “Ah, mas você é burro, Kily, você não tem perspectiva, você não olha pra frente, a Copa vai trazer lucro e retorno financeiro para todo o país”. Duas coisas. Primeira: eu não acredito que a Copa trará retorno financeiro para o brasil, mas aceitemos esse argumento como verdadeiro por apenas um instante; eu tenho certeza absoluta que esse retorno virá para as mãos dos mais ricos deste país, e não para a grande massa da população, que é a parte mais pobre do país e que mais precisaria usufruir dos lucros de uma Copa. Segunda: as necessidades da população são impreteríveis, isto é, inadiáveis; se existem necessidades urgentíssimas de investimento nas áreas de saúde, educação, transporte e segurança pública, qual a lógica de se investir num evento, que em tese trará frutos apenas em longo prazo, se as necessidades da população são para ontem? Contra essas indagações, não há argumentos.



B – Projetos Não Concluídos (ou concluídos de modo sofrível)
Ao que parece, não somos um povo que preza muito por pontualidade nem por qualidade. Fazemos as coisas nas coxas, apenas para tapear, como bem disse o presidente da Infraero. Fazendo uma analogia da Copa com uma visita em nossa casa, os turistas são os visitantes, a organização da Copa é a limpeza da casa, e o que está acontecendo pode ser chamado como “a sujeira jogada pra debaixo dos tapetes”.

Um extenso hall de promessas foram realizadas para esta Copa, mas diversas delas não foram cumpridas. Seis estádios ficarão sem Wi-fi para o evento. O que equivale a 50% das sedes da Copa. Quem quiser utilizar a net local, terá uma infeliz surpresa quando tentar estabelecer a conexão.

Melhorias no transporte também não se concretizaram. O VLT de Brasília ficou só no quase. Há um mês do início da competição, alguns estádios ainda sofrem problemas, nem inaugurados foram. O Itaquerão, por exemplo, que será palco da abertura da Copa, sequer recebeu uma partida oficial até hoje. Não se pode dizer ainda qual a qualidade da estrutura, e quais são os pontos críticos para o acesso ao local dos jogos em São Paulo.

Isso sem falar em todo o processo, que envolveu vidas perdidas durante as obras do estádio. Será que na construção dos estádios não tem CIPA (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes)? Cadê a fiscalização? Cadê os profissionais da segurança do trabalho? Enquanto pesquisava na internet para este post, descobri que mais um cidadão morreu enquanto trabalhava, desta vez na Arena Pantanal. O link da reportagem no site da Globo pode ser visto aqui. Segundo a reportagem, esta foi a nona morte de trabalhadores em obras de estádios do brasil. Mas, quem é que se importa com essas vidas perdidas? Afinal de contas, esse número é irrisório, se comparado com os gastos descomunais e inimagináveis realizados para a Copa. O que são nove pessoas perto de bilhões e bilhões de reais? Eu tom de crítica, é claro, eu acho que se nos empenharmos um pouco mais, ainda conseguimos matar mais um pra fechar com dez mortos, que é um número redondo. Ainda temos um mês para isso.

Campinas receberá a seleção de Portugal, que treinará na cidade. Ouvi uma reportagem na rádio CBN, falando da preocupação da vigilância sanitária e dos demais órgãos de saúde locais, acerca da epidemia de dengue que vem ocorrendo nessa grande cidade do interior paulista. E todo um esquema será montado para proteger Cristiano Ronaldo e companhia. Note aqui que a força da campanha de tratamento e prevenção contra a dengue ganha um impulso enorme com a presença da seleção de CR7, ou seja, os portugueses não podem adoecer, já os brasileiros... acho louvável receber bem um visitante em nosso casa, mas cadê o bom tratamento para os moradores daqui?



C – Legado da Copa
Qual é a imagem que o brasil deixará para o mundo ao realizar essa tão badalada competição mundial? E, principalmente, qual será o legado da Copa? O que o povo poderá aproveitar depois da Copa? Ronaldo, um ídolo nacional, e um cara eu admiro muito, caiu na besteira de dizer que Copa do Mundo não se faz com hospitais, se faz com estádios. Eu temo dizer que, depois desses efêmeros trinta dias de competições, o que nós mais vamos precisar nesse país não são de estádios, de elefantes brancos, mas sim de hospitais, de empregos, de melhoria no transporte público para que os trabalhadores deixem de sofrer tanto, e de educação, que na minha opinião é a principal via de mudança para um país tão desigual quanto o nosso.

É lamentável, mas pouca coisa ficará de verdade para a massa. Temos que lembrar que a massa não pega avião. Então, até as parcas melhorias nos aeroportos, não trarão reflexos para a maioria da população.

O que o povão mesmo irá usar depois da Copa? Faz dois anos que moro em Brasília, e na minha percepção, o transporte público nunca esteve tão ruim quanto nos últimos meses. Mas as propagandas políticas do GDF não param de afirmar que tudo vem melhorando, que a frota foi trocada e blá blá blá.

O que irá mudar depois da Copa? Os brasileiros que levam duas horas de casa para o trabalho por conta do trânsito, após a Copa reduzirão o tempo pela metade?

O que irá mudar depois da Copa? Os hospitais que têm apenas um médico de plantão atendendo a uma população de 300 mil pessoas, passarão a contar com pelo menos 6 médicos, atendendo com qualidade, presteza e com estrutura física ideal para a promoção e recuperação da saúde?

O que irá mudar depois da Copa? Aqueles que estão na escola sem saber ler nem escrever, sairão de lá alfabetizados, críticos e pensadores? O que irá mudar depois da Copa?

A resposta para essa e outras perguntas, eu sinto um aperto no coração ao dar, mas se resume numa única palavra de quatro letrinhas.

Nada.



Previsões para a Copa
Há um mês do início da Copa, em meio a instabilidade política, tantas coisas acontecendo em territórios brasileiros, tais como o escândalo da Petrobrás, o início da corrida eleitoral de 2014 e o fantasma do descontentamento popular de 2013 pairando no ar, expresso através da celeuma do povo indo nas ruas e manifestando-se contra os miasmas pútridos dos bastidores políticos, ficam as seguintes perguntas: como transcorrerá a Copa? O evento ocorrerá com sucesso? Como o brasil desempenhará seu papel como anfitrião, e como isso repercutirá no mundo todo? Partindo dessas indagações, lanço uma lista de possíveis acontecimentos no decorrer da Copa, que poderão (ou não) ser manchete durante o torneio. Não estou dizendo que tais coisas acontecerão, apenas que, são coisas que devemos ficar de olho.

Abaixo, apresento uma lista de “minas” que podem explodir a qualquer momento no campo minado do brasil e repercutir perante o mundo:

1 – Manifestações populares durante a Copa: as manifestações ocorrerão com a mesma força do ano passado? E como as forças policiais agirão? Haverão excessos? Como será a repercussão nacional e internacional de possíveis manifestações?

2- Manifestações dentro dos estádios: não é porque estão indo assistir aos jogos da Copa, que os brasileiros das classes mais favorecidas estão contentes com o cenário político do país. Haverão manifestações dentro dos estádios, tais como vaias, gritos de guerra ou até mesmo cartazes criticando o país? Como o mundo olhará para um país politicamente instável?

3 – Corrida eleitoral: todos os partidos políticos estão de olho na Copa. Quem está no poder, esperando que o evento seja um sucesso, para usar como alavanca eleitoral; que não está, torcendo por falhas, que serão utilizadas na corrida eleitoral para angariar votos e deslegitimar a competência de quem está no poder.

4 – Apagões: será que acabará a energia em algum estádio durante os jogos? Estamos sempre falando de aumento do preço da energia elétrica, de empréstimo do governo para as fornecedoras de energia. Será que, a exemplo do que acontece de vez em quando na Taça Libertadores da América, vai acabar a luz no meio do jogo? Aí vai ficar feio, hein...

5 – Acesso aos estádios: todo mundo vai conseguir chegar aos estádios? Vai ter busão pros turistas irem ver os jogos? Não vai ter engarrafamento? As sinalizações de placas serão perfeitas, ou ainda veremos pérolas como esta aqui de Brasília?

6 – Greves: tenho ouvido a respeito de vários indicativos de greve. Servidores públicos de muitos órgãos estão querendo cruzar os braços. Já se fala de Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal. Alguns já entraram, outros pretendem deixar bem para a semana do início da Copa. Há quem diga que muitos pararão. Já eu, acredito seriamente na paralisação de serviços essenciais, como o transporte público. Dou o maior apoio aos motoristas e cobradores de ônibus (vulgo rodoviários), se estes pararem. Aí vai se instalar o caos. Só a título de curiosidade, pra verem como é que todo mundo confia no transporte público de Brasília, na UnB, onde eu estudo, não haverão aulas em todos os dias quando houverem jogos da Copa aqui. E o motivo? Porque eles sabem que o aumento do contingente de ônibus nas imediações do estádio ocorrerão em detrimento da diminuição e até mesmo paralisação total dos ônibus para outras localizações, como no Campus da UnB.

7 – Aeroportos: teremos atraso nos aeroportos? Cancelamentos? Os turistas ficarão satisfeitos com as instalações nos terminais de embarque e desembarque? E, quem sabe, rolará algum terrorismo no país?

8 – Turistas mortos: e para finalizar (a lista poderia ser maior, mas me faltam ideias), imagine a seguinte situação. Um turista norte-americano está no brasil, passeando, depois de assistir a um dos três jogos para os quais veio ver. E o inesperado acontece, ele é assaltado, se desespera com o meliante armado, não consegue estabelecer comunicação, devido a diferença linguística, reage ao assalto e acaba sendo morto. O Sr. Barack Obama exige uma resposta das autoridades brasileiras, em vista da morte de seu compatriota e filho de sua amada nação Estados Unidos. E o brasil não faz a mínima ideia de quem foi que deu cabo da vida do gringo. Já imaginou a situação? Quando uma pessoa é morta em terras estrangeiras, cabe ao governo do morto exigir do governo estrangeiro uma resposta que demonstre que justiça será feita, caso contrário, as relações entre os dois países ficam muito tensas. Como seria a situação? Como os abutres da imprensa cobririam o fato?


São muitas divagações as que fiz aqui. Espero que tenham gostado. E agora, vamos esperar a Copa do Mundo, para saber o que acontecerá de fato, e o que ficará apenas no “se”.

...


Meu agradecimento especial a dona do coração do Kily, que auxiliou e muito na construção deste texto, com suas opiniões, críticas e incentivos. Dedico a ela esta produção. Assim como a Copa do Mundo, fiz tudo correndo para conseguir entregar este texto no prazo por mim prometido. Só espero que ele não tenha ficado tão nas coxas igual a competição que aqui se desenrolará. Peço desculpas por eventuais erros, mas para mim as coisas realmente estão muito corridas e não tive tempo hábil para uma revisão de conteúdo, gramatical e ortográfica de qualidade.



¹ Em tom de crítica, brasil será escrito com b minúsculo todas as vezes que aparecer.
² Para se inscrever no Enem 2014, clique aqui.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

The Big Bang Theory

Agradeço a minha senhora, que me ajudou e riu antes das idiotices aqui escritas. Pra quem estranhar o estilo de escrita por mim adotado nesta postagem, já aviso de antemão que fui obrigado a mudar meu estilo pessoal nesse texto, pois ele foi utilizado como artigo-teste para concorrer a uma vaga como colunista no renomado site do Yahoo.


Há sete anos atrás, começava nos Estados Unidos uma série que veio a ser uma de minhas favoritas: The Big Bang Theory. A identificação com os personagens foi instantânea, já que eu também sou um nerd – embora não tão inteligente quanto os personagens–, sempre tive problemas com mulheres e sempre tive gostos considerados estranhos. Graças ao R – que sempre esteve mais inteirado dos produtos norte-americanos antes mesmo destes chegarem a terras tupiniquins –, eu comecei a assistir esse seriado. Inicialmente, assistíamos juntos, rindo dos dilemas vivenciados por Sheldon, Leonard, Howard e Raj.

No entanto, o que nós mais temíamos aconteceu. Infelizmente, e eu digo isso com uma enorme dor no coração, a série chegou ao Brasil. Mais especificamente, chegou ao SBT. E chegou aqui com uma dublagem horrível, uma das piores que eu já vi em toda a minha vida. Os personagens provavelmente foram dublados por adolescentes na faixa dos 13, 14 anos, ficando com suas vozes originais totalmente descaracterizadas.

Foi então que eu pensei comigo: se era para trazer essa série ao Brasil, ao invés de estragar algo tão bom de minha vida, porque simplesmente não compraram os direitos da série para fazer uma adaptação 100% brasileira? Aí, ao invés da história se passar em Pasadena, ela poderia se passar em São Paulo, por exemplo. Inclusive, com cenas ambientadas na Avenida Paulista ou na Rua Augusta.

Então, foi pensando nisso, que eu projetei em minha mente, e agora compartilho com os leitores do blog, como seria a versão verde-amarelo da famigerada série The Big Bang Theory.

... Que, é claro, no Brasil se chamaria “A Teoria da Grande Explosão”. Então, sem mais delongas, passemos ao elenco de minha versão nacional:




LEONARD LEAKEY HOFSTADTER

O protagonista da série, um físico experimental, que se apaixona por sua linda vizinha, e que na versão norte-americana é interpretado por Johnny Galecki, na versão nacional será interpretado pelo astro brasileiro Selton Mello, protagonista em séries de renome nacional como “Os Aspones” e “O Sistema”.





Selton Mello, laureado com o prêmio de sexto melhor ator do filme "O Auto da Compadecida", será escalado para interpretar o físico da USP, Leonardo Leite Estreito.



SHELDON LEE COOPER

Há quem discorde, e considere Sheldon o verdadeiro protagonista da série. Controversas à parte, é evidente que Parsons rouba a cena na série, sendo responsável por uma grande porcentagem das risadas e dos fãs da sitcom.



Na versão brasileira, ele será interpretado pel’O Melhor do Brasil, e nosso amado Rodrigo Faro! Na versão nacional, o físico teórico interpretado por Faro se chamará Celso Licurgo.



HOWARD JOEL WOLOWITZ

O judeu baixinho com pinta de pegador, o rei das cantadas de TBBT, é motivo de chacotas pelos amigos por ser o único que não tem Doutorado no grupo (ele possui apenas Mestrado). Como a educação não é o forte do Brasil, na adaptação ele terá apenas um Tecnólogo em Mecatrônica. Os demais personagens serão menos instruídos também.



E para dar vida a tão divertido personagem, será convocado um nome de peso: Tadeu Mello, célebre por sua interpretação de Tatá na renomada série “A Turma do Didi”, do Dr. Renato. Tadeu Mello encarnará Ronaldo João Guimarães.










RAJESH KOOTHRAPPALI


Um dos personagens mais carismáticos da série é o indiano Raj, devido a sua fobia social e dificuldade de falar com mulheres e com homens afeminados. Na versão brasileira, seria mantido sua ascendência indiana, apenas o nome de seu personagem mudará.






Raj será interpretado por Rodrigo Lombardi. O motivo da escolha, é óbvio: ele já tem experiência no papel, já que viveu Raj antes, só que na premiada novela global “Caminho das Índias”. No entanto, desta vez Lombardi atuará sob o nome de Muhammed Al-Addin.







PENNY

E por fim, vamos a musa de TBBT: Penny! Penny é a vizinha de Leonard, que deixa ele e seus amigos, exceto Sheldon, é claro de queixo caído. A missão de pegar o bastão de Kaley Cuoco e de dar vida a menina da série, que deixa os marmanjos babando na frente da televisão não é uma das mais fáceis.







Cuoco, além de lindíssima, dá um show de interpretação a cada novo episódio. Por isso, escolhi uma atriz à altura, para honrar a versão norte-americana, dando vida a “Penny brasileira”, a também lindíssima e ótima atriz Sheron Menezes! Se a Halle Berry fosse brasileira, eu escalaria ela pra série.

Sheron Menezes terá a honra de interpretar Patty.





A seguir, veja outros atores que integrarão a série:

AMY FARRAH FOWLER




A engraçadíssima Ingrid Guimarães interpretará Amélia Silvana da Silva.


BERNADETTE ROSTENKOWSKI


 
A pequena Berenice Rosa Castro será vivida pela simpaticíssima Danny Pink.


STUART


O talentosíssimo e experiente ator Dan Stulbach estará na pele do deprimido Estevão.


* Desisti de arrumar o layout da publicação. Na visualização prévia a publicação fica perfeita, mas quando publico, aí as imagens desalinham todas e vão lá pra casa do chapéu. ¬¬'

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Cidade Fantasma





UMA POSTAGEM FANTASMAGORICAMENTE ASSUSTADORA!








Janeiro de 2014. Ligo o computador. Abro o navegador. No browser, digito o endereço do site que desejo visitar. Orkut.

Sou direcionado para a página de login do site. Sou inundado por estranhas emoções. Difícil até de descrever. Um misto de nostalgia com melancolia, quando percebo que estou revisitando um site que não entro há pelo menos quatro anos. E que praticamente ninguém mais entra também. Fui um dos últimos a abandonar o Orkut.

Na página de login, tento me lembrar de como ela era antigamente. Várias fotos de pessoas sorrindo, representando os usuários do Orkut, com a famigerada frase do site: “Quem você conhece?”.

Digito meu e-mail no campo login. Até aí, fácil. Tenho o mesmo login para todos os sites dos quais possuo cadastro. Até por isso que minha caixa de entrada do e-mail principal enche todos os dias, repleto de spams enviados pelos sites. Mas quando chega na hora de digitar a senha, aí vem o problema. Qual é mesmo a minha senha?

Penso em minha senha padrão atual e a descarto imediatamente como minha senha do Orkut. Assim como muitos usuários da internet, cometo o erro de utilizar como senha de minhas contas algum número ou palavra significativa de minha vida. E, geralmente, é algo que é significativo APENAS naquele momento. Sendo assim, minha senha atual não devia ter nada a ver com a senha antiga. Comecei a fazer um esforço mental para me lembrar de quais eram as senhas que eu utilizava alguns anos atrás. Seria o nome da fonte daquele jogo que eu tanto gostava? Ou talvez seria a soma dos dígitos que compõe o número do meu RG com os números 11.111.111-1? Quem sabe, fosse o nome da cidade onde eu sonhava morar, junto com o ano que eu pretendia atingir essa meta de minha vida? Meu Deus, quantos sentimentos estranhos posso ter com o simples ato de revisitar um site de relacionamentos antigo! Comecei a pensar em outros usuários do Orkut que também abandonaram a plataforma. Qual seria a senha deles?

Existem dois tipos básicos de ex-usuários do Orkut. O primeiro grupo é composto por pessoas que excluíram suas contas antes de deixar o site. E o segundo grupo é composto por pessoas que foram gradativamente visitando menos o site, até finalmente abandoná-lo de vez. Mas suas contas ficaram lá. Suas vidas, suas ações. Desse segundo grupo, qual seria a reação das pessoas ao serem confrontadas com suas antigas senhas? Alguns talvez dissessem: “normal, eu sempre usei a mesma senha, então eu uso ela até hoje”. Outros no entanto, se surpreenderiam. E aqueles que colocaram a data de início de um antigo namoro? O nome de um jogador de futebol que até já se aposentara? A comida preferida, que tivera de abandonar, por motivos de saúde?

Tentei duas senhas antigas, mas falhei na autenticação de usuário em ambas. Quando já estava para clicar em “esqueceu a sua senha?”, me ocorreu uma terceira senha antiga. Digitei ndpaoqvpfdda e cliquei em entrar. E não é que entrou? Achei aquilo incrível. Uma combinação aparentemente aleatória de letras, mas que na verdade representavam as iniciais das palavras de uma frase significativa para mim, era a senha que tinha ficado em meu Orkut quando eu o abandonei. O mais impressionante nisso tudo é que, enquanto o Orkut era logado, eu pensei na frase que servia de base para a senha, e como aquilo não dizia mais nada sobre mim, sobre quem eu era ou sobre o que eu acreditava!

Assim que o Orkut foi logado e eu fui jogado na página inicial, mais recordações vieram a mim. A primeira lembrança era de quando eu acessava o Orkut antes. Logo na página de entrada, algumas informações interessantes surgiam. O número de usuários do Orkut (quando entrei, o número estava na chegando aos 30 milhões, e em pouco tempo, o número dobrou para 60 milhões, até essa função ser desativada do site), o número de visitantes de minha página pessoal no dia e na semana, bem como o link para o perfil das últimas pessoas que visitaram o meu.

Agora, o Orkut estava bem diferente. No período em que utilizei o site, vivenciei duas mudanças de layout, uma mais traumática do que a outra: a primeira, com apenas algumas alterações no modo de navegação, a segunda, radical ao extremo.

Comecei a navegar pelo site. Abri várias abas no navegador simultaneamente: meu scrapbook, meus depoimentos, minhas comunidades, meus amigos. Nas páginas de recados e de depoimentos, vi juras de amor eterno, promessas de amizades que jamais acabariam, frases de efeito como “nem o tempo, nem a distância serão capazes de nos separar, meu grande amigo”. Sorri, abobalhado. É claro que as promessas não se cumpriram. Eu nem tinha mais contato com aquelas pessoas que escreveram tais recados. Amizade eterna? Enquanto durou... E essas pessoas? Estariam vivas? Casadas? Com filhos? Será que ainda moravam no mesmo lugar? Só tinha um jeito de saber: pesquisando sobre a vida dessas pessoas na nova rede social do momento.

Entrei em minhas comunidades e ri comigo mesmo das coisas que eu gostava. As comunidades geralmente diziam muito sobre uma pessoa. Diferente da maioria, eu cultivava um número baixo de comunidades, pois gostava de estar inteirado do que acontecia nas que eu fazia parte. Eu bem sabia que outras pessoas também estranhariam se vissem suas próprias comunidades. Quiçá diriam: “EU gostava disso?”. Quantas comunidades inúteis! Imaginei aquele cara, numa comunidade do tipo “eu amo academia”. Será que ele choraria quando visse que agora, ao invés de uma barriga de tanquinho, começava a ver uma barriguinha proeminente se formar? E aquele outro, que estava na comunidade intitulada “eu sento no fundão”? Fundão de que? Se já terminou a escola há tanto tempo, e não começou a faculdade? Só se for no fundão do busão agora, pois escola ficou lá no [fundão do] seu passado.

Entrei na lista de meus amigos. "Amigos". Que palavra forte as redes sociais costumam adotar! Preferia que eles colocassem “contatos”, e deixasse a meu critério decidir quem era amigo e quem não era. Provavelmente, a maioria dos contatos ficasse no segundo grupo. Recordei-me de como era status ter muitos amigos. Como era ser popular ter uma conta de Orkut com mil amigos e com uma mensagem de perfil lotado na descrição do “quem sou eu?”, acompanhado de um link direcionando para o “profile 2”, só atingível para quem tinha MUUITOS amigos. Pensando bem, o que mudou? Hoje em dia ainda não é assim? Quantas garotas postando foto no mural do facebook e se sentindo realizadas por receberem trocentas curtidas? Algumas ainda acrescentam um título na foto, só pra chamar mais a atenção e receber mais elogios: “feia”. Meu conselho para essas meninas: vai lavar a louça!

No perfil de algumas pessoas, não resisti e entrei. Vi o perfil de uma garota da minha idade, que só na época em que estudei com ela, a vi trocar de namorado duas vezes. Em seu perfil, uma foto dela sendo abraçada por trás pelo seu então atual namorado, que, curiosamente, não era nenhum dos três com quem eu a vi antes. Soube, por meio de conversa com amigos (amigos mesmo?) que ela agora estava noiva de um cara de outra cidade, onde ela estudava. Eu sabia que não era aquele carinha da foto, pois eu o conhecia de vista. Nos depoimentos, juras de amor eterno. Nos recados, mensagens extremamente melosas. Tudo no passado.

Pense numa cidade fantasma. Por cidade fantasma, não entenda uma cidade COM fantasmas, mas uma cidade que um dia teve pessoas ali vivendo, mas que por algum motivo (ataque zumbi, peste mortal ou catástrofe natural) agora não tem mais ninguém. É exatamente assim que me sinto no Orkut. Quantas pessoas se envolviam diariamente com aquele site, depositando ali toda a sua intimidade, fotos, pensamentos, sentimentos e emoções, se abrindo totalmente, e que agora tinham suas histórias ali registradas. Quantas pessoas que até mortas já deveriam estar, mas que suas contas permaneciam como um tributo a sua existência e a sua passagem pela Terra.

Eu, em meus devaneios, crio uma história absurda: supondo que a raça humana fosse extinta, o que pensaria um alienígena que viesse ao nosso planeta e dominasse nossa linguagem e também a nossa tecnologia, ao entrar no Orkut? Quais as impressões ele teria dos seres que antes aqui viviam? O que as redes sociais, agora cidades fantasmas, diriam sobre nós?


Página de login do Orkut.


Modelos irreais e inatingíveis do Orkut.


Versão brasileira dos modelos do Orkut.


Layout do Orkut, verrsão 0.0947853.675.13.9 (para internet explorer): perfil do Kleber Sá.


Layout do Orkut com algumas inovações: perfil do Eduardo.


Layout do Novo Orkut: perfil do Robson.


Layout do novo Novo Orkut: perfil da Mari.


O Orkut hoje.


E o novíssimo Novo Orkut do mercado.


E pra finalizar, a foto de um fantasma de verdade.