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sábado, 15 de agosto de 2015

Culpa da Dilma

Uma postagem feita por culpa da Dilma.¹




Sabem por que o país tá uma merda? Por culpa da Dilma.

Sabem por que está tendo corte de bolsas do Ciência Sem Fronteiras? Por culpa da Dilma.

Sabem por que o aplicativo Uber (que até agora eu não faço a menor ideia do que é) está dando tanta polêmica? Por culpa da Dilma.

Sabem por que houve falta d'água em São Paulo? Por culpa da Dilma.

Sabem por que o Brasil perdeu de 7 a 1 pra Alemanha? Por culpa da Dilma.

Sabem por que a NBC cancelou Hannibal? Por culpa da Dilma.

Sabem por que o Pra Gente Rir está falindo? Por culpa da Dilma.

Sabem por que eu fiquei gripado semana passada? Óbvio, né. Por culpa da Dilma.

Até eu, que nunca simpatizei pela presidente da república, nem agitei bandeira em favor dela, estou sentindo pena pelo tanto que ela vem apanhando nos últimos tempos. Acho muito fácil e confortável culpabilizar a Dilma por tudo de ruim que acontece no país, inclusive as minhas próprias mazelas pessoais. No entanto, também é desonesto. Primeiro porque polariza a discussão sobre política no Brasil, no sentido de que atribui à presidente o adjetivo de "boa" ou de "ruim", como se tudo que ela fizesse fosse acertado ou errado. E não é bem assim que as coisas funcionam. Além do que, ela não governa o país sozinha.

Amanhã o povo vai bater tambor pedindo o impeachment da presidente. Eu não vou. Não porque eu seja favorável a ela. Mas porque eu não tenho a menor convicção de que a saída dela, como muitos acreditam, irá resolver todos os problemas do Brasil. E também porque, à medida em que o índice de popularidade da presidente cai a cada dia e uma espécie de ódio e aversão absoluta a ela cresce, sinto mais vergonha dos argumentos anti PT que sou obrigado a ler diariamente na internet.

Aguardemos pelos próximos capítulos dessa novela...


¹ POOOOQUIIII, hoje é o seu aniversárioooooo! Esse texto é pra você. =P

quinta-feira, 2 de julho de 2015

4 Anos Pra Gente Rir

... mas não tenho motivos para comemorar. Não depois do que aconteceu ontem na Câmara dos Deputados. Uma encenação orquestrada e dirigida por Eduardo Cunha e com participação de grande elenco. Menos de 24 horas depois da votação que culminou na rejeição da redução da maioridade penal de 18 para 16 anos, uma nova votação foi conduzida, com uma ínfima mudança no texto, tornando-o mais brando, visando conquistar a meia dúzia de votos que faltara na madrugada anterior, para que a proposta fosse aprovada.

Não bastasse o desfecho de circo dos horrores, também fui obrigado a ouvir os mais absurdos argumentos possíveis. E esse é o tema dessa postagem. No texto anterior, defendi veementemente os motivos pelos quais sou contra a redução da maioridade penal. Nesse texto, mudarei um pouco o foco, respondendo aos principais argumentos que ouvi nas duas últimas noites, dado por deputados que são favoráveis à redução.

1 - Direitos humanos para humanos direitos

Esse argumento está relacionado a uma ideia que combati na postagem anterior. De que todos nós somos dotados de um mecanismo acima de tudo, capaz de decidir se seremos "bons" ou "maus". É um argumento ruim, porque desconsidera a influência do contexto na formação do indivíduo. Eis outras frases burras utilizadas pelos deputados pró redução:

Ninguém vai pegar um estudante universitário no banco da universidade e levar pra cadeia! Ninguém vai pegar o menino que está sentado no banco da igreja e levar pra cadeia!

Argumento que tenta mostrar que a lei só vai afetar quem comete crimes. Verdade, em partes. Mas só metade da história. Vai afetar os pobres, os negros, aqueles que não tiveram oportunidade. A lei tira de foco a possibilidade de oferecer as oportunidades para os menos favorecidos, que lhes permitiriam trilhar outro caminho, que não o do crime.

A lei tem que proteger o cidadão de bem e punir o bandido.

Tola dicotomização, que sugere que quem serve ao capital é cidadão de bem, e quem não o faz, é bandido. Também ignora o fato de que o Estado foi bandido primeiro, ao descumprir artigos da Constituição, que asseguram direitos fundamentais à criança e ao adolescente.

Pobreza não é salvo-conduto pra cometer homicídio, estupro e crimes bárbaros.

Ninguém disse que é. Mas interessante que a pobreza não é combatida, nem considerada em momento algum.

2 - O PT está há 13 anos no poder e não fez nada pelas crianças e adolescentes que hoje são uma parcela representativa do sistema carcerário brasileiro

Minha crítica a este argumento é simples: a inoperância ou inefetividade do PT não é justificativa razoável para punir crianças e adolescentes. Se o PT não fez nada, que se criem medidas para que algo seja feito por essa população. Por que elas devem ser punidas pela omissão petista? Não seria o caso de alguém fazer algo por eles então?


3 - A redução é um passo na luta contra a impunidade

Essa frase deixa claro que a luta pela redução é movida pelo desejo de justiça/vingança, e não por recuperação daquele que está em dívida com a lei. O objetivo não é ressocializar, reeducar (termo incorreto, pois "reeducação" pressupõe educar novamente), mas apenas tornar recluso, punir tirando a liberdade, dar uma falsa sensação de segurança. É uma política higienista, no sentido de que é uma tentativa de limpar a sujeira produzida pela própria sociedade. Que tal ser higienista de outra forma, impedindo a produção dessa sujeira? Me parece mais coerente e mais humano.

4 - A vontade da maioria

Como legisladores, temos que estar atentos para ouvir a voz das ruas, e fazer a vontade do povo.

Em primeiro lugar, vale ressaltar que os deputados que invocaram constantemente esse argumento, não o invocaram em outras ocasiões, quando votaram em outras pautas com uma opinião oposta ao da vontade popular. Argumentos tais como "a voz do povo é a voz de Deus" valem quando a questão é redução da maioridade penal, mas são deixados de lado quando o meu candidato à presidência não ganha. Como diria um amigo meu: "aí eu peço impeachment". Numa discussão que tive ainda hoje, meu interlocutor invocou políticos considerados ditadores, para ironizar o fato de eu desconsiderar a vontade popular. Nesse caso, eu devo lembrar que também foi vontade popular a crucificação de Cristo, bem como o Nazismo de Hitler foi bem recebido pela população alemã. Será que a vontade da maioria deve sempre prevalecer mesmo?

Conclusão

Por fim, devo dizer que me entristece profundamente ver a bancada cristã votando à favor a essa pauta. Me parece totalmente incoerente com aquilo que afirmam acreditar. Pior que eles, somente a bancada militar, com suas falas violentas, imbuídas de expertise de quem é da área de segurança pública, alegando que a redução é sim a solução para o país. Óbvio que eles sequer percebem que, como já disse inúmeras vezes, o real problema não é de segurança pública - embora o sintoma o seja -, mas educacional e estrutural.


segunda-feira, 12 de maio de 2014

Copa do Mundo

O nome do mascote da Copa do Mundo de 2014, Fuleco, já
parece anunciar o lugar onde todos os brasileiros irão tomar nesta Copa.



Estamos em contagem regressiva para o início da Copa do Mundo de 2014 aqui no brasil¹. E eu prometi para mim mesmo que faria uma publicação sobre o tema quando faltasse exatamente um mês para o início da Copa. Não se engane o leitor, que aqui não fala nenhuma reacionário que odeia futebol. Pelo contrário, eu sou um apaixonado por Copa do Mundo, adoro a oportunidade que me é oferecida a cada quatro anos, de poder assistir a jogos de seleções que raramente tenho a oportunidade de verem jogar entre si. Entretanto, não estou aqui para falar de futebol. Aliás, esta provavelmente será a Copa do Mundo que menos acompanharei, desde a Copa de 98, quando comecei a assistir. E o motivo é bem simples: não tenho televisão. Se eu tivesse TV e tempo, eu assistiria a todos os jogos que pudesse. Estou financeiramente desfavorecido este ano, que também quebrarei uma segunda tradição em minha vida desde a Copa de 98: não comprarei o álbum da Copa, não trocarei cromos, nem me divertirei com essa brincadeira quadrienal.

Bom, minha vida mudou muito de quatro anos pra cá. Há quatro anos, eu era funcionário público, tinha uma vida estável, morava com minha mãe e minha irmã, em casa tinha televisão e, sim, eu fui de camiseta laranja pro trabalho quando a Holanda eliminou o brasil nas quartas-de-final da Copa da África do Sul, em 2010. Atualmente, não disponho do mesmo luxo, não sou mais funcionário público, agora moro sozinho, não tenho nem o básico para uma casa, quem dirá uma televisão. E também, estou na universidade, não tenho tempo disponível para ver jogos, preciso estudar para ser alguém na vida.

Então, vamos ao teor desse texto. Não vim aqui para criticar a seleção. Até porque, para criticar a seleção, eu preciso dizer de qual seleção estou falando. Se for a Seleção, com S maiúsculo, que já virou sinônimo nacional de “seleção brasileira”, essa seleção aí eu espero mesmo que se lasque e passe uma vergonha enorme nessa Copa. Se dependesse de mim, o brasil perderia os três jogos da fase de grupos e aquele sujeitinho chamado Neymar seria uma grande decepção. O que francamente, duvido muito que vá acontecer, dado que eu acho que o Jorge Kajuru estava certo quando disse que essa Copa já estava vendida para o brasil ganhar...

Bom, já pus as cartas à mesa, já disse que acho a Copa uma das coisas mais legais do mundo, se pudesse assistiria aos 64 jogos, mas não posso. Mas eu não vim aqui para falar do EVENTO ESPORTIVO Copa do Mundo, e sim das POLÍTICAS relacionadas a Copa do Mundo.

Não sei de tudo o que aconteceu até aqui, portanto apenas ilustrarei com alguns argumentos, mas tenho certeza que se você procurar na internet, achará muito mais coisas além das que eu citarei aqui. Antes de dar meus exemplos, vou dizer genericamente o que eu penso da Copa. Se isto fosse uma Redação do Enem², essa seria a minha tese, o parágrafo inicial, pra quem estudou a formulazinha de redação do certame. Nos demais parágrafos, defenderei minha ideia. Então vamos lá.

Eu acho que essa Copa do Mundo, em termos de brasil, é uma das coisas mais ignominiosas que já aconteceram nesse país. Eu francamente sinto vergonha de ser brasileiro e de fazer parte de país tão cretino como o nosso, claramente me referindo aqui aos governantes que nos representam diante do mundo. É desonroso tudo o que aconteceu envolvendo a Copa, passando desde a construção dos estádios, licitações realizadas de forma sub-reptícia, desapropriação de comunidades, supostas pacificações de comunidades cariocas – mas com interesses políticos escusos -, até soberania nacional colocada a prova em detrimento das exigências da FIFA e muito mais. Mas assim eu estou apenas divagando, vamos a alguns exemplos que eu prometi, para concluir a minha crítica.



A – Estádios, elefantes brancos e superfaturamentos
Uma das promessas feitas sobre a Copa, é que a maior parte dos recursos utilizados para toda a preparação de infra-estrutura para o evento seria financiado por dinheiro privado. Ao poder público, pouco dinheiro caberia injetar nesta parte do projeto, sendo este reservado para o investimento de obras cuja competência é exclusiva do Estado, tais como saúde, transporte e segurança. Entretanto, hoje já podemos ver que essa foi uma mentira escandalosa, já que a maior parte do dinheiro investido veio dos cofres públicos. E provavelmente, muito desse dinheiro foi pingando de bolso em bolso, dando uma discrepância entre receita e dinheiro realmente investido.

Além disso, grande parte dos estádios superfaturaram suas obras (não sei exatamente se todos, então prefiro não incorrer em uma falsa afirmação). Prometeram gastar X, mas no fim das contas gastaram muito mais do que o orçamento inicial. E em alguns estados, os estádios se tornaram sinônimo de “elefantes brancos”, estádios que quase não terão uso futebolístico, dado que em muitos estados não existem equipes de grande expressão no futebol nacional. Por exemplo, em Brasília, onde eu moro, o Estádio Mané Garrincha foi considerado o estádio mais caro da Copa. Vale lembrar que o Mané Garrincha já existia antes da Copa, e que tecnicamente, ele passou por uma reforma. Veja o que a reportagem da Folha de São Paulo diz sobre o tema clicando aqui. Eu questiono para que servirá um estádio tão caro como o Mané Garrincha, depois da Copa, num local sem nenhuma expressão no futebol? Para ser palco de jogos como Ceilândia x Ceilandense? Luziânia x Brasília? Gama x Brasiliense? Criança Esperança x Teleton? Amigos do Ronaldo x Combinado do Kuwait? Ah, faça-me um favor!

É contraproducente um estádio de futebol como o Mané Garrincha e o de outros estados (Arena Amazônia, Arena Pantanal, só para exemplificar) ficarem com seu uso limitado a jogos de excursão de times grandes do Rio e de São Paulo, e de shows internacionais de grandes bandas de rock.

E o que dizer do Itaquerão? Uma das mais polêmicas arenas construídas para a Copa, a Arena Corinthians teve grande parte de seus recursos providos pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Segundo a página institucional do BNDES, a entidade, que é uma “empresa pública federal, é hoje o principal instrumento de financiamento de longo prazo para a realização de investimentos em todos os segmentos da economia, em uma política que inclui as dimensões social, regional e ambiental”. Tudo bem, eu entendo que o negócio do BNDES é fazer financiamento mesmo, mas em se tratando de uma empresa pública federal, eu francamente devo questionar esse tipo de financiamento, com outras tantas prioridades para se investir. Só para deixar claro, quem faz o financiamento é o BNDES, mas quem faz o empréstimo, como intermediário entre o consórcio responsável pela construção do estádio e o BNDES é a Caixa Econômica Federal. Que aliás, apenas a título de curiosidade, utiliza o capital da empresa (cujo dinheiro não deixa também de ser nosso, já que somos donos da empresa) para patrocinar o Corinthians e também o Flamengo.

E só pra finalizar esse tópico, quero deixar bem claro o que eu penso sobre um certo discurso que é bem recorrente por aí. “Ah, mas você é burro, Kily, você não tem perspectiva, você não olha pra frente, a Copa vai trazer lucro e retorno financeiro para todo o país”. Duas coisas. Primeira: eu não acredito que a Copa trará retorno financeiro para o brasil, mas aceitemos esse argumento como verdadeiro por apenas um instante; eu tenho certeza absoluta que esse retorno virá para as mãos dos mais ricos deste país, e não para a grande massa da população, que é a parte mais pobre do país e que mais precisaria usufruir dos lucros de uma Copa. Segunda: as necessidades da população são impreteríveis, isto é, inadiáveis; se existem necessidades urgentíssimas de investimento nas áreas de saúde, educação, transporte e segurança pública, qual a lógica de se investir num evento, que em tese trará frutos apenas em longo prazo, se as necessidades da população são para ontem? Contra essas indagações, não há argumentos.



B – Projetos Não Concluídos (ou concluídos de modo sofrível)
Ao que parece, não somos um povo que preza muito por pontualidade nem por qualidade. Fazemos as coisas nas coxas, apenas para tapear, como bem disse o presidente da Infraero. Fazendo uma analogia da Copa com uma visita em nossa casa, os turistas são os visitantes, a organização da Copa é a limpeza da casa, e o que está acontecendo pode ser chamado como “a sujeira jogada pra debaixo dos tapetes”.

Um extenso hall de promessas foram realizadas para esta Copa, mas diversas delas não foram cumpridas. Seis estádios ficarão sem Wi-fi para o evento. O que equivale a 50% das sedes da Copa. Quem quiser utilizar a net local, terá uma infeliz surpresa quando tentar estabelecer a conexão.

Melhorias no transporte também não se concretizaram. O VLT de Brasília ficou só no quase. Há um mês do início da competição, alguns estádios ainda sofrem problemas, nem inaugurados foram. O Itaquerão, por exemplo, que será palco da abertura da Copa, sequer recebeu uma partida oficial até hoje. Não se pode dizer ainda qual a qualidade da estrutura, e quais são os pontos críticos para o acesso ao local dos jogos em São Paulo.

Isso sem falar em todo o processo, que envolveu vidas perdidas durante as obras do estádio. Será que na construção dos estádios não tem CIPA (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes)? Cadê a fiscalização? Cadê os profissionais da segurança do trabalho? Enquanto pesquisava na internet para este post, descobri que mais um cidadão morreu enquanto trabalhava, desta vez na Arena Pantanal. O link da reportagem no site da Globo pode ser visto aqui. Segundo a reportagem, esta foi a nona morte de trabalhadores em obras de estádios do brasil. Mas, quem é que se importa com essas vidas perdidas? Afinal de contas, esse número é irrisório, se comparado com os gastos descomunais e inimagináveis realizados para a Copa. O que são nove pessoas perto de bilhões e bilhões de reais? Eu tom de crítica, é claro, eu acho que se nos empenharmos um pouco mais, ainda conseguimos matar mais um pra fechar com dez mortos, que é um número redondo. Ainda temos um mês para isso.

Campinas receberá a seleção de Portugal, que treinará na cidade. Ouvi uma reportagem na rádio CBN, falando da preocupação da vigilância sanitária e dos demais órgãos de saúde locais, acerca da epidemia de dengue que vem ocorrendo nessa grande cidade do interior paulista. E todo um esquema será montado para proteger Cristiano Ronaldo e companhia. Note aqui que a força da campanha de tratamento e prevenção contra a dengue ganha um impulso enorme com a presença da seleção de CR7, ou seja, os portugueses não podem adoecer, já os brasileiros... acho louvável receber bem um visitante em nosso casa, mas cadê o bom tratamento para os moradores daqui?



C – Legado da Copa
Qual é a imagem que o brasil deixará para o mundo ao realizar essa tão badalada competição mundial? E, principalmente, qual será o legado da Copa? O que o povo poderá aproveitar depois da Copa? Ronaldo, um ídolo nacional, e um cara eu admiro muito, caiu na besteira de dizer que Copa do Mundo não se faz com hospitais, se faz com estádios. Eu temo dizer que, depois desses efêmeros trinta dias de competições, o que nós mais vamos precisar nesse país não são de estádios, de elefantes brancos, mas sim de hospitais, de empregos, de melhoria no transporte público para que os trabalhadores deixem de sofrer tanto, e de educação, que na minha opinião é a principal via de mudança para um país tão desigual quanto o nosso.

É lamentável, mas pouca coisa ficará de verdade para a massa. Temos que lembrar que a massa não pega avião. Então, até as parcas melhorias nos aeroportos, não trarão reflexos para a maioria da população.

O que o povão mesmo irá usar depois da Copa? Faz dois anos que moro em Brasília, e na minha percepção, o transporte público nunca esteve tão ruim quanto nos últimos meses. Mas as propagandas políticas do GDF não param de afirmar que tudo vem melhorando, que a frota foi trocada e blá blá blá.

O que irá mudar depois da Copa? Os brasileiros que levam duas horas de casa para o trabalho por conta do trânsito, após a Copa reduzirão o tempo pela metade?

O que irá mudar depois da Copa? Os hospitais que têm apenas um médico de plantão atendendo a uma população de 300 mil pessoas, passarão a contar com pelo menos 6 médicos, atendendo com qualidade, presteza e com estrutura física ideal para a promoção e recuperação da saúde?

O que irá mudar depois da Copa? Aqueles que estão na escola sem saber ler nem escrever, sairão de lá alfabetizados, críticos e pensadores? O que irá mudar depois da Copa?

A resposta para essa e outras perguntas, eu sinto um aperto no coração ao dar, mas se resume numa única palavra de quatro letrinhas.

Nada.



Previsões para a Copa
Há um mês do início da Copa, em meio a instabilidade política, tantas coisas acontecendo em territórios brasileiros, tais como o escândalo da Petrobrás, o início da corrida eleitoral de 2014 e o fantasma do descontentamento popular de 2013 pairando no ar, expresso através da celeuma do povo indo nas ruas e manifestando-se contra os miasmas pútridos dos bastidores políticos, ficam as seguintes perguntas: como transcorrerá a Copa? O evento ocorrerá com sucesso? Como o brasil desempenhará seu papel como anfitrião, e como isso repercutirá no mundo todo? Partindo dessas indagações, lanço uma lista de possíveis acontecimentos no decorrer da Copa, que poderão (ou não) ser manchete durante o torneio. Não estou dizendo que tais coisas acontecerão, apenas que, são coisas que devemos ficar de olho.

Abaixo, apresento uma lista de “minas” que podem explodir a qualquer momento no campo minado do brasil e repercutir perante o mundo:

1 – Manifestações populares durante a Copa: as manifestações ocorrerão com a mesma força do ano passado? E como as forças policiais agirão? Haverão excessos? Como será a repercussão nacional e internacional de possíveis manifestações?

2- Manifestações dentro dos estádios: não é porque estão indo assistir aos jogos da Copa, que os brasileiros das classes mais favorecidas estão contentes com o cenário político do país. Haverão manifestações dentro dos estádios, tais como vaias, gritos de guerra ou até mesmo cartazes criticando o país? Como o mundo olhará para um país politicamente instável?

3 – Corrida eleitoral: todos os partidos políticos estão de olho na Copa. Quem está no poder, esperando que o evento seja um sucesso, para usar como alavanca eleitoral; que não está, torcendo por falhas, que serão utilizadas na corrida eleitoral para angariar votos e deslegitimar a competência de quem está no poder.

4 – Apagões: será que acabará a energia em algum estádio durante os jogos? Estamos sempre falando de aumento do preço da energia elétrica, de empréstimo do governo para as fornecedoras de energia. Será que, a exemplo do que acontece de vez em quando na Taça Libertadores da América, vai acabar a luz no meio do jogo? Aí vai ficar feio, hein...

5 – Acesso aos estádios: todo mundo vai conseguir chegar aos estádios? Vai ter busão pros turistas irem ver os jogos? Não vai ter engarrafamento? As sinalizações de placas serão perfeitas, ou ainda veremos pérolas como esta aqui de Brasília?

6 – Greves: tenho ouvido a respeito de vários indicativos de greve. Servidores públicos de muitos órgãos estão querendo cruzar os braços. Já se fala de Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal. Alguns já entraram, outros pretendem deixar bem para a semana do início da Copa. Há quem diga que muitos pararão. Já eu, acredito seriamente na paralisação de serviços essenciais, como o transporte público. Dou o maior apoio aos motoristas e cobradores de ônibus (vulgo rodoviários), se estes pararem. Aí vai se instalar o caos. Só a título de curiosidade, pra verem como é que todo mundo confia no transporte público de Brasília, na UnB, onde eu estudo, não haverão aulas em todos os dias quando houverem jogos da Copa aqui. E o motivo? Porque eles sabem que o aumento do contingente de ônibus nas imediações do estádio ocorrerão em detrimento da diminuição e até mesmo paralisação total dos ônibus para outras localizações, como no Campus da UnB.

7 – Aeroportos: teremos atraso nos aeroportos? Cancelamentos? Os turistas ficarão satisfeitos com as instalações nos terminais de embarque e desembarque? E, quem sabe, rolará algum terrorismo no país?

8 – Turistas mortos: e para finalizar (a lista poderia ser maior, mas me faltam ideias), imagine a seguinte situação. Um turista norte-americano está no brasil, passeando, depois de assistir a um dos três jogos para os quais veio ver. E o inesperado acontece, ele é assaltado, se desespera com o meliante armado, não consegue estabelecer comunicação, devido a diferença linguística, reage ao assalto e acaba sendo morto. O Sr. Barack Obama exige uma resposta das autoridades brasileiras, em vista da morte de seu compatriota e filho de sua amada nação Estados Unidos. E o brasil não faz a mínima ideia de quem foi que deu cabo da vida do gringo. Já imaginou a situação? Quando uma pessoa é morta em terras estrangeiras, cabe ao governo do morto exigir do governo estrangeiro uma resposta que demonstre que justiça será feita, caso contrário, as relações entre os dois países ficam muito tensas. Como seria a situação? Como os abutres da imprensa cobririam o fato?


São muitas divagações as que fiz aqui. Espero que tenham gostado. E agora, vamos esperar a Copa do Mundo, para saber o que acontecerá de fato, e o que ficará apenas no “se”.

...


Meu agradecimento especial a dona do coração do Kily, que auxiliou e muito na construção deste texto, com suas opiniões, críticas e incentivos. Dedico a ela esta produção. Assim como a Copa do Mundo, fiz tudo correndo para conseguir entregar este texto no prazo por mim prometido. Só espero que ele não tenha ficado tão nas coxas igual a competição que aqui se desenrolará. Peço desculpas por eventuais erros, mas para mim as coisas realmente estão muito corridas e não tive tempo hábil para uma revisão de conteúdo, gramatical e ortográfica de qualidade.



¹ Em tom de crítica, brasil será escrito com b minúsculo todas as vezes que aparecer.
² Para se inscrever no Enem 2014, clique aqui.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

O Estado


{Agradeço ao R, pois ele sem querer acabou me inspirando a escrever este texto. Nada do que escrevi aqui é revolucionário ou inédito, mas sim baseado no conhecimento que adquiri com diferentes pessoas, principalmente ao longo do ano passado}

Era uma vez uma entidade abstrata e onipotente chamada Estado. De vez em sempre, o Estado adorava sacanear as pessoas, aprontando uma de suas brincadeiras irônicas. Esqueci de dizer que além de abstrato e onipotente, o Estado também é irônico.

Um exemplo de como o Estado adora ironias e contradições, é exemplificado a seguir. Se eu, cidadão brasileiro, atropelar vários pedestres e ciclistas, bater em outros carros e fizer várias barbeiragens após ingerir álcool, provavelmente serei autuado em fragrante e preso, indiciado por homicídio doloso. Porém, se o mesmo evento acontecer com Thor Batista, filho do bilionário Eike Batista, o que acontece é que ele é conduzido gentilmente até a delegacia, solto pouco tempo depois após pagar uma fiança que, para o padrão de vida dele, sequer faz cócegas em seus bolsos. E de quebra, pra fechar com chave de ouro, se o motorista fosse o Thor Batista, nesse caso o coitado do ciclista seria preso por tentativa de homicídio ao playboy, e isso apenas porque teve a infelicidade de ter nascido preto e pobre.

Ah, isto me faz lembrar que é importante frisar que tem três categorias que são as que mais se ferram no Brasil, conhecidas por 3Ps: pretos, pobres e prostitutas. O Estado adora ferrar apenas os já naturalmente ferrados pela vida, mas ajuda os verdadeiros ruins da história toda a darem-se bem. O Estado criou algo chamado bem e mal. O bem é representado pelos ricos, pelos brancos e membros de uma família “estruturada”, que ganharam dinheiro e construíram seus patrimônios de maneira digna¹ e honesta¹, sem explorar sequer uma alma viva (até porque os 3Ps não têm alma), sem cometer nenhuma injustiça ou atitude condenável. Pelo menos, nenhuma atitude condenável à luz da Constituição. Constituição. Tá aí o instrumento utilizado pelo Estado para brincar com as pessoas, empoderando uma minoria que já detém o poder e lascando de vez os já lascados.

Só que o Estado, com essas brincadeirinhas que ele julga bobas, muitas vezes acaba pegando pesado demais. Vamos dar um exemplo sobre isso, utilizando a Constituição como base. Uma negrinha pobre, de uma favela, tem um filho com um drogado. Esse filho, obviamente também negro, nasce num lar pobre e desestruturado. E o Estado brinca de faz de conta com aquela família, pois no seu livro predileto, a Constituição, ele diz que é direito de toda pessoa a educação, a saúde, a alimentação, a moradia, o emprego, a dignidade e a muitas outras coisas importantíssimas para todos. Mas lembre-se que é apenas um faz-de-conta. Porém, outra parte deste livro, é baseado em fatos reais. E é a parte que diz que roubar, traficar, assaltar, é crime.

Em outras palavras, como muito bem disse o R numa conversa que tive com ele dias atrás, o Estado não faz nada para cumprir a parte que lhe compete, neste conto da carochinha que ele mesmo criou, aí quando o garoto da nossa história tenta dar um jeito de se virar e sobreviver – dar um jeito com base nas poucas opções que lhe foram dadas – o Estado resolve dizer que parte da fantasia era realidade, e o pune severamente. E nós, pobres e tolos brasileiros, acreditamos. Acreditamos que a favela é uma fábrica do mal. Que o negro é o perigoso. Que ele é só culpado, jamais vítima.

O Estado às vezes é muito cruel em sua arte, permitindo Carlinhos Cachoeira, um dos grandes corruptos do momento, curtir lua de mel, livre e solto, mesmo após inúmeras acusações contra ele. Permite ainda que José Genoíno – aquele tiozinho vagabundo do PT e do mensalão – assuma uma cadeira no Congresso Nacional, mesmo com a Lei Ficha Limpa. Mas não dá segunda chance para o ex-presidiário. Aliás, não dá nem uma primeira chance, na vida pregressa a contravenção que levou o indivíduo, quase sempre preto e pobre, a ser preso.

Por fim, mais uma brincadeira que o Estado faz conosco, e talvez uma fundamental para que todas as outras funcionem, é brincar de cabra-cega. Ou melhor, povo-cego. Todo mundo fica cego, ninguém percebe o que está acontecendo, como essa máquina chamada Estado funciona. E os poucos que percebem, são praticamente impotentes frente a uma multidão que apóia (cegamente) o Estado.

E a quem culpar? A presidência? Aos deputados e senadores? Ao aparelho jurídico? Ao povo? Talvez, após ter lido este texto, alguém pense “culpemos o próprio Estado”. Advirto que o Estado, como eu bem disse no início do texto, é uma entidade abstrata e não é passível de ser punido. Só espero que eu esteja errado em uma coisa: quando eu disse que o Estado é onipotente.



Carlinhos Cachoeira pagando por seus pecados.



José Genoíno mandando seu recado para o povo.



Quimby, o prefeito de Springfield é um exemplo de bom governo e honestidade.



Já o Prefeito, que é prefeito de Townsville, está sempre ao lado de sua secretária de grandes seios,
a Senhorita Belo. Escândalos sexuais são comuns no mundo político.


E é por esse e por outros motivos que eu sou comunista.



¹ Caso a ironia não tenha ficado clara neste trecho, eu ratifico aqui que fui irônico.