segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Memórias do Cárcere - Parte II

Segunda parte de minha narrativa. Confira a primeira parte aqui.

Nota: Eu sou preconceituoso. Como todo mundo, tenho meus preconceitos. O problema não é ter preconceitos, mas sim ser incapaz de admití-los. Um de meus preconceitos é com a polícia, em geral. Embora a minha crítica seja com a corporação policial, a organização em si, muitas vezes eu penso através de metonímias, aplicando o mesmo pensamento que tenho em relação ao todo às partes. No entanto, quero deixar isso bem claro, pois nem todo policial é arrogante, prepotente ou abusivo. Só que automaticamente, eu os julgo assim. Infelizmente - para mim, para a sociedade e para todos os policiais -, essas características acabam sendo apenas um sintoma de todo um sistema doente e corrompido. A culpa disso não é dos policiais. Eles também são vítimas.


CAPÍTULO 3 – OS CORPOS DÓCEIS

Um exemplo de um corpo dócil.

- DEITA NO CHÃO! DEITA NO CHÃO!

Mas eu não estou com sono!

Joguei-me ao solo, sendo tão competente em obedecer ao comando do policial que parecia um transeunte pulando na frente do carro do CJ no GTA San Andreas – desculpem-me a nova analogia ao jogo, mas é que são muitas as semelhanças com a vida real. Para entenderem melhor, clique aqui. Na queda, eu consegui me ferir, não de forma letal, mas ralando o ombro direito e posteriormente ficando com um hematoma em formato circular, cuja circunferência tinha o tamanho próximo ao da de uma bola de tênis. De quadra.

Deita no chão! Deita no chão!

Mesmo sem ver o policial, eu tinha consciência de que a arma ainda era apontada para mim. Senti o segundo policial agachando-se perto de mim, segurando o meu braço direito e levando-o até as costas, com tanto carinho que nem minha mãe faria igual. Creio que o policial estava curioso para ver se eu era flexível, ele queria ver se era capaz de me fazer tocar minha própria nuca com meu dedo médio, estando meu cotovelo atrás das costas. Correção: ele sabia que conseguiria isso, o que ele queria mesmo era verificar se teria que me causar fraturas ou não para conseguí-lo.

Ilustração de como é feita a imobilização policial. Acho ela importante em determinados contextos.
Mas não oferecemos resistência, não estávamos armados e não fomos pegos em flagrante delito para recebermos tal tratamento.

Então voltamos ao início do texto. Se era objetivo do policial causar-me dor, ele estava sendo bem sucedido. Agora, se era seu objetivo levar-me a implorar clemência, neste aspecto ele não alcançou sucesso (ele também não conseguiu me fazer perder os controles esfincterianos). Eu tenho um enorme nariz. Com uma capacidade descomunal de sugar oxigênio. E naquele momento, ele trabalhava afoito na busca por mais ar, na tentativa de encontrar suas propriedades analgésicas e reduzir o desconforto causado pelo policial nas minhas costas. Se alguém olhasse para a estranha figura que eu fazia naquele momento, se lembraria de um peixe pulando no chão, de modo tolo, tentando sobreviver.

O que mais me irrita em lembrar daquele momento, é que eu não tinha nenhuma arma na mão, nenhuma pedra, coquetel molotov ou qualquer coisa que justificasse o excesso de poder do qual o policial fazia uso naquele momento. Provavelmente, se depois eu tivesse a audácia de perguntar ao policial porque tivera aquele comportamento, ele talvez dissesse a mesma frase nacionalmente atribuída ao Capitão Bruno, três meses depois: “Foi porque eu quis”. Quiçá acrescentasse um “porra”, no final da frase, por força do hábito.

Imagem autoexplicativa.

Outros policiais se aproximavam. Um deles “deixou o pé” na minha cabeça, seu enorme coturno me fazendo fechar os olhos. Do estranho ângulo de visão que eu tinha naquele momento, vi o policial que havia me chutado, em seu ar imponente, com mão no coldre, peito pra fora e barriga pra dentro, como manda o código de conduta do bom policial.

Opa, você bateu na minha cabeça, mas eu sei que foi sem querer, então tá desculpado, seu policial.

Esta fala aconteceu apenas na minha cabeça posteriormente, quando rememorei os acontecimentos daquela tarde. Evidentemente, o policial não fez qualquer menção ao pequeno – mas ainda assim desnecessário – chute que me dera. Na remota possibilidade de ter sido um choque acidental, não estava em seus planos pedir desculpas. Afinal, eu era apenas um vagabundo. E policial que é policial não pede desculpas, quem dirá para um vagabundo.

Eu nunca fui preso antes, sequer havia recebido uma abordagem de rotina por um policial. Mas já assisti Polícia 24 Horas o suficiente para compreender como se dá o processo de assujeitamento e submissão que os policiais impõem sobre o bandido – porque aqui no Brasil é assim: quem vai preso é bandido. As pessoas de bem não vão presas. Inclusive, se elas forem muito honradas, podem até galgar cargos honrados, lá no Senado ou na Câmara dos Deputados.

Prosseguindo, quando recebi ordens para levantar, o fiz calado. Mesmo antes de receber os comandos do policial, mantive as mãos para trás – em posição militar de “descansar” – e minha cabeça abaixada, iniciando a farsa que se dava início naquele momento: minha submissão física simbolizava uma submissão moral aos policiais; eles fingiam que têm esse poder, eu fingia que é real e todo mundo fingia que acreditava.

Quando levantei, percebi o Chris deitado próximo de onde eu estava – ele também não estava com sono, mas o pedido do policial era tão gentil que não havia como resistir. Aqui preciso glorificar seu gesto, pois Chris teria conseguido escapar da “abordagem” policial, mas foi altruísta ao ponto de colocar sua preocupação comigo acima de sua própria segurança e, principalmente, acima de seus instintos de sobrevivência.
 
A imagem do dia: enquanto os holofotes se voltavam para Neymar, ali ao lado do Estádio, no escuro
centenas de pessoas eram abordadas por uma despreparada força policial, agindo com excesso de poder.

Fui colocado lado a lado de Chris. Em seguida, fui parcamente revistado pelo policial, que não estava muito animado para tocar meu corpo a procura de facas, granadas e, quem sabe, metralhadoras. Pra quem não sabe, eu sou cabeludo e barbudo, e costumo amarrar o meu cabelo, seja penteado para trás ou repartido no meio, num rabo de cavalo frouxo. Só ressalto essa informação, porque a seguir o policial puxou-me com força pelo cabelo, me obrigando a dar dois passos cambaleantes em sua direção, tendo destreza para não perder o equilíbrio, já que eu ainda estava em posição de assujeitamento foucaultiano. Posteriormente, Chris disse que o policial me tratou igual uma quenga. Realmente, eu me senti uma prostituta sendo puxada pelo cabelo enquanto é possuída por trás.

O policial torceu meu braço, aí não sei se foi necessário ou não – acho que nunca é, afinal, o que eu poderia fazer ali? Fugir? Matar todos os policiais armados até os dentes da manifestação e me intitular o Emiliano Zapata brasileiro? –, e finalmente me colocou as “pulseiras” nas mãos. Como eu estava com as mãos para trás, nem pude perceber se fiquei bonito de algemas.

Lembro-me de um policial ter feito uma ou outra pergunta. Recordo-me ainda do policial abaixando a cabeça de meu amigo, dizendo que era melhor ele abaixar a cabecinha, senão o próprio policial teria que fazê-lo. Bem intimidador. Finalmente, fomos forçados a entrar na viatura. Os policiais queriam nos levar para dar um passeio. E era um convite bem persuasivo. Impossível recusar. Até que a parte de trás da viatura não era de todo desconfortável. Só ficou apertadinho quando tivemos que dividir a traseira do carro com mais dois vagabundos como nós. Só que pros policiais, fundo de viatura é igual coração de mãe: sempre tem espaço para mais um.

Seria falso dizer que eu não estava com medo. Seria uma mentira das grandes! Eu estava cagando de medo. Não literalmente. Por sorte eu havia tomado meu remédio para copracrasia naquela manhã, antes das provas da faculdade. Racionalizando, eu não tinha a menor convicção de que os policiais me levariam para uma delegacia. Ah, como eu queria que levassem! Nunca desejei tanto ser preso. Mas naquele momento, coisas absurdas – ou não – se passaram por minha cabeça. Os hômis podiam muito bem simplesmente nos levar para o meio do mato, dar quatro disparos e resolver tudo por ali. Afinal, quem nos conhecia? Quem poderia provar que havíamos sido presos? Eu realmente pensei “cara, eu me ferrei legal agora!” quando percebi que estava isolado na hora da prisão, que não havia nenhuma testemunha para filmar a minha cara e a cara dos policiais que me prendiam. A falta de imagens e de testemunhas é um perigo tremendo em manifestações, especialmente numa cidade gigante como Brasília.

Pensei em mamãe. Pensei em papai, em minha irmã. Pensei em minha querida namorada e também em meus amigos. Todos eles, que sequer sabiam que eu tinha ido numa manifestação. Pensei num colega de minha idade que morrera meses antes, e em como aquilo ainda mexia comigo. Pensei em minha própria morte, seria eu o primeiro a ser executado ou o último? Seriam os demais que veriam meu corpo tombar após o tiro, o sangue a jorrar abundantemente de meu corpo, já sem vida, ou seria eu quem veria um a um meus coleguinhas de bacu serem mortos, toda a tortura psicológica antecedendo cada execução, para enfim, ao final, chegar a minha vez? Como as pessoas que eu amava reagiriam ao saber que eu estava morto? Qual seria a reação de colegas e amigos de faculdade ao saberem que duas das mentes mais brilhantes da turma haviam sido friamente assassinadas por policiais? Fiz minhas preces a Papai do Céu, desejando de todo o meu coração que aquelas não fossem as últimas.

É indescritível a felicidade e o peso que saíram de cima de mim quando vi que estacionaram o carro defronte a delegacia. Nunca estive tão convicto de que poderia morrer a qualquer momento quanto estive naqueles poucos minutos entre o local de minha prisão e a delegacia. Mesmo depois de passar inúmeros e verdadeiros cagaços na cidade grande, achando que seria assaltado, roubado, sequestrado ou algo do tipo, foi vindo daqueles que deveriam me proteger que passei a situação de maior medo da minha vida. Desci todo feliz e faceiro – apenas por dentro, pois por fora eu tinha que manter as aparências e continuar minha encenação goffmaniana de assujeitado foucaultiano.


A Representação do Eu na Vida Cotidiana, livro que embasa a teoria de Erving Goffman, que 
afirma que atuamos socialmente, conforme o contexto em que estamos. Brinco um pouco com
a ideia central do pensamento goffmaniano em meu texto.

Ao comando do policial (sem sequer um “por favor”, acreditam numa coisa dessas?) descemos da viatura cabisbaixos. Agora eu compreendia que aquela cara de arrependimento que eu cansei de ver nos programas do Datena e afins não passava de uma representação. Ninguém se sentia culpado de nada, aliás, sentia sim, todo mundo se sente culpado de ter sido pego. Marchamos para dentro da delegacia, como se dançássemos “Que Bonita a Sua Roupa”. Com a cabeça abaixada, não vi os abutres da imprensa ali na porta, filmando, fotografando e imortalizando aquele belo momento de nossas vidas.

Nossa entrada triunfal na delegacia. O primeiro e o quarto cara são "di menores", o segundo sou eu
(o que tem o cabelo de viado bicha) e o terceiro é o meu amigo Chris.


CAPÍTULO 4 – INSTITUIÇÕES COMPLETAS E AUSTERAS

Em Brasília, aquela era a segunda vez que eu adentrava uma delegacia. A primeira na qualidade de autor em flagrante delito (qual delito mesmo, seu policial?). Fomos colocados num canto, um ao lado do outro, todos olhando para a parede, ainda com as algemas nas mãos. Embora eu não tivesse visto, tenho certeza que havia várias pessoas na delegacia naquele momento, cidadãos resolvendo problemas de suas vidas, aguardando para serem atendidos pelos agentes da polícia civil. Nossa, mas que humilhação! Mas você deve ter morrido de vergonha por aquela situação humilhante, de ser tratado como bandido, não é Kily? Sou obrigado a confessar que não. Não me senti envergonhado, tampouco humilhado. Naquele momento, devo dizer que não senti nada disso. Isso não era mais tão importante assim. Eu tinha preocupações maiores naquele momento, como a de saber qual a repercussão daquela manifestação, tanto em âmbito local quanto em âmbito nacional. Será que alguém que me conhecia poderia saber de minha prisão pela televisão ou pela internet?

O problema era que no meu bolso direito da frente, estava o meu celular. Mas eu sabia que as regras da minha vida haviam mudado a partir do momento em que o policial apontara a arma para mim e me mandara deitar no chão. A partir daquele momento, eu perdi todos os meus direitos, em especial o direito de ir e vir. Eu perdi o direito de por a mão no meu bolso (aí de mim se o tivesse feito naquela ocasião, o policial provavelmente interpretaria como uma tentativa de sacar alguma arma, e me alvejaria sem dó), perdi o direito de cutucar o nariz, perdi o direito de roer as unhas, perdi o direito de fazer uma ligação e também perdi o direito de querer que alguém estivesse se preocupando comigo enquanto eu estava no cárcere.

Dentro da delegacia, estava um homem de aproximadamente 50 anos, elegantemente vestido de terno. Ele nos dirigiu a palavra, apesar de comandos em contrário dos policiais e, creio eu, do delegado. Ele se apresentou como sendo advogado do movimento, e que era para ficarmos tranquilos que em poucas horas ele nos tiraria dali e que era para nos recusarmos a dar qualquer depoimento, resguardando-nos em nosso direito de permanecer em silêncio.

Evidentemente, notei que os ânimos estavam alterados. Creio que policiais, sejam militares ou civis, não gostam da imprensa bisbilhotando o seu trabalho. E desta vez, haveria forte pressão do lado de fora da delegacia para saber tudo o que acontecia do lado de dentro.

Começava ali um período de espera. E para fins informativos, contarei a seguir o que acontece no sub-mundo do cárcere, onde câmeras não penetram, sobre o qual os filmes e documentários tentam falar a respeito, mas que tive a felicidade de vivenciar, de uma maneira muito reducionista, é claro, algumas horinhas deste ambiente.

Michel Foucault atuando na peça shakespereana "Hamlet", com a famosa frase "Ser ou não ser? Eis a questão."
Além desse trabalho, ele também atuou no filme "A Família Addams", como Tio Chico.

 
Vigiar e Punir, outro livro que brinco muito durante este texto. Escrito pelo historiador e filósofo Michel Foucault,
ele trabalha com a ideia do sistema prisional e sua lógica. Relaciono apenas um pouco de meu texto com a ideia
foucaultiana, brincando com os títulos dos capítulos do autor francês.


Continua...

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Memórias do Cárcere - Parte I

Dia 15 de junho de 2013 - acontecimentos importantes:
- aniversário de minha querida irmã;
- abertura da Copa das Confederações com a partida Brasil x Japão;
- dia em que fui preso pela primeira vez.

Exatamente cinco meses depois, decidi iniciar uma narrativa reconstituindo a  minha primeira experiência prisional. Pretendo dividir o texto em dez capítulos (provavelmente em cinco postagens). O nome dos capítulos, para quem for conhecedor, são com os nomes dos capítulos do livro "Vigiar e Punir", de Michel Foucault. O objetivo deste texto é tratar um assunto sério, de forma bem humorada, mas sem perder um caráter crítico de denúncia do que aconteceu naquele dia. Para transmitir uma sensação de realidade durante a narrativa, em alguns momentos, serei obrigado a utilizar os palavrões que de fato foram ditos naquele dia. Então, sem mais delongas, passemos a minha história, baseada em fatos reais...


CAPÍTULO 1 – ILEGALIDADE E DELINQUÊNCIA

Eu estava deitado no chão, com um policial montado nas minhas costas, me imobilizando tal qual o faria um lutador Krav Magá, enquanto outro apontava uma arma para mim. Ao mesmo tempo em que 90% do meu cérebro se concentrava na dor causada pelas carícias do policial, os 10% restantes tentava compreender como eu conseguira chegar àquela situação.

Tudo começou quando eu tive a estúpida ideia de ir a uma manifestação que acontecia próximo ao Estádio Nacional de Brasília. Não, eu não chamei a manifestação de estúpida. Apenas a minha ideia de ir até lá o foi. Junto comigo, consegui arrastar um amigo – o Chris –, que nos levou até as imediações do Estádio em seu carro. É claro que posteriormente mamãe achou que a culpa de tudo era do Chris, que ele era uma péssima influência para mim, que eu não sabia escolher muito bem as minhas amizades, e todo aquele blá blá blá que as mães superprotetoras costumam dizer a respeito dos filhos, achando que os culpados de nossas enrascadas sempre são os filhos das outras mães.

Foto de Chris, depois de ser preso. O ponto preto na foto é para preservar
a identidade de meu amigo militante.


Considero a causa da manifestação muito nobre. Realmente, era pertinente a pauta dos manifestantes (embora tardia). Mas para quem não compreende o que eu fui fazer ali naquela manifestação, ofereço uma explicação simples. Toda a minha vida... Tá certo, não toda a minha vida, mas pelo menos nos últimos oito anos da minha vida, eu estive reclamando dos políticos e de tudo que é feito de errado nesse país. E essa era a minha primeira chance de fazê-lo perante câmeras, dando força à massa, com a possibilidade de ser ouvido (juntamente com os demais) e fazer alguma diferença, ao invés de reclamar junto a uma roda de amigos, sem nenhuma mudança real no mundo.

Então, explicado o motivo que me levou até lá, vamos aos fatos. Depois de estacionar o carro a quase um quilômetro de distância da manifestação, meu amigo e eu descemos do veículo, ele carregando apenas sua carteira, enquanto eu, que não uso carteira, levava comigo meu dinheiro e minha identidade na algibeira das calças. Vai que eu preciso dela, pensei comigo. Mal sabia eu o quão certo eu estava naquele meu pensamento.

Ao chegar a minha primeira manifestação, vi que o clima era pesadíssimo. Nunca vi tantos policiais em minha vida. Nem quando eu peguei seis estrelas no GTA San Andreas. Lá tinha gambés de tudo quanto é tipo, policiais para todos os gostos: PM, Cavalaria, CHOQUE, BOPE, Segurança Nacional. E é claro, havia os manifestantes, alguns isolados iguais a mim, que souberam do movimento através da comoção promovida via facebook, outros fazendo parte de algum movimento político local – em sua maioria do movimento “Maconheiros da UnB”.

CJ ferrado com seis estrelas. Nem lá no jogo aparece tanto policial assim.

VIVA O CHOQUE!

Manifestantes estavam tranquilos, antes do pau começar a comer de verdade.


A Cavalaria formava uma linha impedindo a passagem dos manifestantes para o outro lado. E no outro lado, o que tinha era o Estádio. O senhor Sandro Avelar, Secretário de (In)Segurança Pública do Distrito Federal, foi inteligente ao deixar a manifestação bem longe do Estádio e, consequentemente, dos holofotes da imprensa. Ora, manifestação que não causa barulho e incômodo, manifestação que não é ouvida, não tem sentido de existir. Por sorte, descobri nesses grupos pessoas muito engajadas e corajosas – com uma coragem que confesso não tenho –, que tomavam a frente, encaravam os policiais e a Cavalaria, e tentavam furar o bloqueio. Em dado momento, o bloqueio foi ultrapassado de maneira magistral, pois os manifestantes conseguiram ficar lado a lado com os torcedores, na fila que dava acesso ao Estádio. Aí do ponto de vista do ilustríssimo tenente-coronel Zilfrank Antero, creio que a situação ficou mais delicada, pois descer a porrada em vândalos vagabundos é uma coisa, agora bater em torcedor, o “cidadão de bem”, já é uma coisa completamente diferente.

O bandido do Governador do Distrito Federal Agnelo Queiroz,
e seu pupilo pau mandado o Secretário de Segurança Pública do GDF,
Sandro Avelar. Diz a lenda que Agnelo é médico, e que Avelar entende de segurança pública.


Esqueci-me de dizer que eu não sou cidadão de bem. Eu sou uma pessoa extremamente perigosa, que ofereço riscos descomunais a toda sociedade, portanto é papel da polícia proteger as pessoas de bem da minha pessoa.

Nesse momento em que torcedores alienados e manifestantes ficaram próximos, formando um estranho grupo de pessoas em sua maioria vestidas de amarelo (vai Brasil!) ou de preto, a tensão aumentou, com troca de elogios de lado a lado. Não serei hipócrita de dizer que os manifestantes foram gentlemen, esbanjando amor e educação. Mas como eu estava do lado de cá, obviamente defenderei meus companheiros e lhes apresentarei a estupidez que ouvi vinda do lado de lá, dos torcedores. Um senhor, com lá seus 60 anos, na fila que dava acesso ao Estádio, gritou para nós dizendo que éramos um bando de invejosos, que não tínhamos condições para comprar um ingresso e por isso ficávamos fazendo baderna ao invés de irmos estudar para almejarmos uma vida melhor. Considerando que aquela bobagem dita pelo tiozinho fosse verdade – e, pensando bem, no fundo é, pois tem muita gente em todo o país que gostaria de ter condições de assistir a um jogo da seleção brasileira nos estádios –, gostaria apenas que ele me dissesse onde estão as escolas de qualidade para o povo estudar e almejar essa vida melhor, o que lhes permitirá, quem sabe, num dia longínquo, ter seu próprio dinheiro para comprar o ingresso de uma pífia partida da seleção brasileira.

Não sei em que momento aconteceu, mas alguém, de maneira muito inteligente, remodelou o posicionamento da fila de torcedores, deixando-os agora em zigue-zague, numa área de acesso restrito aos mesmos, por sua vez deixando-nos isolados, ainda que próximos a eles. Foi nesse momento que escutei o primeiro tiro. Haviam lançado em nossa direção uma bomba. Eu, muito inteligente, fiquei olhando deslumbrado para o objeto que caía próximo a mim. Assim que atingiu o solo, o mesmo se desfez numa nuvem de fumaça, causando tosse, irritação nos olhos e na garganta e, os três componentes mais importantes para a estratégia policial: desespero, correria e dispersão dos manifestantes.

Ainda fui obrigado a ouvir o narrador oficial do Estádio dizendo para os torcedores que houve um pequeno tumulto do lado de fora do Estádio, mas que a polícia já havia controlado a situação e que não era para as pessoas entrarem em pânico. Um gás fora disparado contra os manifestantes, mas ele não era tóxico. Ah, apenas se certifiquem de tapar a boca, nariz e olhos com um pano – se possível todos os outros orifícios do corpo também. E caso tenha alguma irritação, NÃO COCE OS OLHOS!



CAPÍTULO 2 – A OSTENTAÇÃO DOS SUPLÍCIOS

Quando percebi, após me afastar ao máximo do local onde a bomba caíra, eu e mais um grupo de aproximadamente vinte pessoas estávamos afastadas do grupo maior de manifestantes. Felizmente, meu amigo Chris ainda estava comigo. Tivemos que dar uma volta para tentar voltar junto ao grupo principal, pois uma das mais importantes regras do Manual Manifestante Federal é: não ande sozinho, nem em pequenos grupos. Os policiais são como leões no deserto. E nós, como antílopes. Quem já assistiu qualquer documentário do Discovery Channel sobre as savanas africanas sabe muito bem o que acontece quando um antílope se dispersa do bando...

Situação de rua do lado de fora do Estádio Nacional de Brasília na tarde do dia 15 de junho de 2013.

Um dos problemas da manifestação é saber quem está no comando. Por exemplo, se eu gritar “ATACAR!” no meio da massa, é perigoso, dado os ânimos alterados, que alguém obedeça ao meu comando. Portanto, quando alguém assumiu a liderança de nosso grupo dissidente e decidiu puxar alguns cones e placas de ferro no meio da rua, impedindo a passagem de carros, outras pessoas que ali estavam imitaram a primeira e fizeram o mesmo. Inclusive, uma das pessoas que teve esta impensada – ou não – atitude, foi meu amigo Chris. Para ver esta cena, clique aqui.

Eu fiquei apenas observando, desejando mentalmente controlar a ação de meus colegas, para impedi-los de tal gesto. Era ilógico o que faziam. Ninguém pretendia ficar ali para resistir e manter o trânsito fechado. Então, para que fechar a pista? Evidentemente, a merda aconteceu logo em seguida. Um dos manifestantes segurava um cone, levando-o em direção a rua, quando um policial de moto chegou e começou a falar-lhe educadamente:

- Tá de brincadeira comigo, porra? Pensa que eu sou palhaço, caralho? Pega essa merda e tira já daqui. – e após uma pausa, como se não tivesse sido suficientemente intimidador, acrescentou: - Porra!

Nesse momento, Chris abaixou-se do alto de seu um metro e oitenta e cinco para cochichar no meu ouvido um sábio conselho, que eu paguei muito caro por não seguir imediatamente. Acho melhor a gente dar um pique até ali, Kily, pois o policial passou o rádio pros parceiros dele, disse-me Chris. Entretanto, eu continuei imóvel, observando deslumbrado o policial dando uma comida de rabo no manifestante. Não percebi a seriedade da situação. Olhei para o lado para dizer “vamos” para Chris, mas acabei parando no “vã”. Ele não estava mais ao meu lado. Procurei-o, e vi ao longe meu amigo negro correndo, já a uns cem metros de distância.

Desta vez, fui mais rápido e prontamente comecei a correr. Mas nem tinha passado para segunda marcha ainda, quando escutei um tiro vindo em minha direção. Instintivamente, levei as mãos ao rosto, tentando me proteger – como se eu fosse capaz de segurar o projétil com as mãos e me salvar desta forma. Olhei para os lados, ao mesmo tempo que parava de correr, procurando de onde viera o tiro. Foi quando vi um policial na garupa de uma moto, apontando uma arma maior do que eu, gritando para mim: DEITA NO CHÃO! DEITA NO CHÃO!

Abre parênteses:

Hoje, quando reconstruo esses fatos, penso o que poderia ter acontecido de diferente. Imagino como eu teria me saído se eu ignorasse o comando policial e tivesse tentado correr em zigue-zague, quantos milissegundos eu conseguiria fugir até que o policial frustrasse a minha fuga. Pensando bem, três coisas poderiam acontecer se eu tivesse feito isso. A primeira possibilidade é que o policial ficaria puto e daria um tiro em mim, mirando no lugar mais doloroso possível, ou naquele que provavelmente me trouxesse maiores transtornos futuros – leia-se “no meio da minha bunda”. E a segunda possibilidade, não melhor do que a primeira, com base no que eu vi na televisão no dia seguinte, era do policial também ficar puto e decidir brincar de Carmageddon no meio da rua, me atropelando para me parar. Uma terceira possibilidade, que eu considero tão remota que só vou enumerá-la a título de curiosidade, é a de que eu sairia correndo tão rápido que o policial sequer conseguiria focalizar a mira em mim, abismado com tamanha velocidade. Eu fugiria dele e ficaria chamando-o mentalmente de otário, depois disso, deixando-o sem dormir por várias noites, até superar por ter fracassado na prisão do Usain Bolt brasileiro.

Os policiais adotaram uma abordagem educada, respeitando os Direitos Humanos,
parando manifestantes que corriam com todo o carinho do mundo.

O jogo que os policiais pensaram estar jogando durante o expediente.

Felizmente, nada disso aconteceu, caso contrário eu descobriria que a única possibilidade benéfica para mim (a terceira) também era a única impossível. Rapidamente, eu olhei para o Estádio e só então notei que eu estava muito longe dele, e consequentemente também longe do restante dos manifestantes. Considerei ainda que o policial me tinha bem no centro de sua mira. Naquele momento não importava se sua mira concentrava-se em minha cabeça, em meu peito ou em minha virilha, o que importava é que ele estava armado e que dentro da arma tinha uma bala com o meu nome escrito nela. Eu não sabia se a bala era de borracha ou de verdade (daquelas que matam), eu só sabia que era daquelas que machucam dodói. Foi por isso que eu obedeci ao comando policial, o que não adiantou muita coisa, pois no fim das contas, dentre várias infrações penais a mim cominadas, eu vim a responder por desacato e resistência. A única resistência que eu tive foi resistência a dor, como verão a seguir.

Fecha parênteses.


Continua...

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Crise de Escritor

{Depois de três meses, estou de volta. Mas ainda não sei por quanto tempo. Dedico este texto a minha amiga de Guaianases, Zona Leste de São Paulo, por ter me enchido a paciência semana passada no facebook, me dizendo para escrever algo no blog, sob pena de fazer uma denúncia junto ao PROCON.}

O jornalista está sentado em frente a sua escrivaninha, no escritório que improvisara num cantinho da sala de seu apartamento. Já se acostumara a levar trabalho para casa. Apagou pela terceira vez o texto que havia começado a produzir no computador.

Precisava escrever aquele texto. A ideia inicial estava em sua cabeça, mas ele não conseguia avançar, após concluir o segundo parágrafo. Geralmente, o que costumava lhe ocorrer era ter toda a ideia em mente, mas sentir dificuldades de colocá-las no papel. No entanto, desta vez era diferente. Nem a ideia completa do que iria escrever ele tinha. Então, como prosseguir?

Pergunto agora para quem escreve com frequência, seja por trabalho, por hobbie ou por qualquer outro motivo: você já teve a sensação de que perdeu sua capacidade de escrever?Sinto-me assim agora. E antes de mais nada, preciso definir “agora”. “Agora” compreende um período de tempo de três meses, até o atual momento. Não sei o que acontece nos últimos tempos, mas não consigo escrever.

Quando finalmente consigo produzir algo, fica algo sem graça e incompleto. Olho para minha criação e diferente do que Deus disse para a sua, não acho que tudo é bom. Antes minha cabeça trabalhava a mil, com uma epifania atrás da outra. De certa forma, era como se eu recebesse de outro mundo as ideias que deveria trazer à realidade através das palavras. Não estou dizendo que o que produzo é tão bom que é de outro mundo. Só quero dizer que as ideias jorravam numa intensidade tão grande, que eu perdia grande parte desta produção mental, devido a minha incapacidade de atender à demanda.

No banho, comendo ou deitado, aguardando o sono chegar; caminhando, andando de ônibus ou aguardando numa fila qualquer; em todos esses casos, fico pensando, lembrando, imaginando, viajando rapidamente pelo passado e pelo futuro, juntando tudo e formando algo novo. Aí quando dou por mim, estou com uma história fresquinha na cabeça, só esperando para sair. Inclusive, algumas vezes, gerando-me desconforto, que só passa assim que concluo meu objetivo de trazer à existência real aquilo que só existia no mundo das ideias.

Mas agora, é diferente. Tudo perdeu a cor, perdeu o brilho. Criar uma história fascinante – ainda que apenas do meu ponto de vista – está difícil. Escrever com bom humor, fazer as pessoas rir, também. Olhar o que escrevi e sentir orgulho de ser algo meu, faz tempo que não vivencio essa sensação.

Sinto saudades de quando escrevi "Marlon", "Prieto", "Negócio que Faz Bebês" ou "O Estado". Agora, como explicar a pessoa que eu era quando escrevi esses textos e a pessoa que eu sou hoje, quando não consigo mais igualar o nível de produção anterior? Como explicar o meu estado de espírito naquela época e agora?

Enquanto escrevo este texto, sinto angústias. Até o teclado, antes meu doce companheiro, agora parece estar recheado com concreto. Bater em suas teclas não dá o mesmo prazer, não produzem o mesmo som, requer muito mais esforço. Afinal, o que está acontecendo comigo?

terça-feira, 2 de julho de 2013

2 Anos Pra Gente Rir

Um relato autobiográfico de Marlon, um dos muitos funcionários e colaboradores do blog Pra Gente Rir:

Eu tenho uma enorme admiração por inúmeros renomados escritores. Algumas pessoas se idealizam na figura de artistas, outros na figura de jogadores de futebol ou até mesmo na de heróis dos quadrinhos e do cinema. Já eu me idealizo na figura de escritores. Inclusive, se eu fosse uma mulher, eu não seria nem maria-chuteira, nem maria-fumaça, mas sim uma maria-caneta, uma mulher que só sai e dá para escritores em troca de uns excertos de textos autografados no bumbum.  Aliás, eu idealizo a própria figura do escritor, imaginando-o como um ser dotado de uma inteligência superior e uma capacidade ímpar de interpretar o mundo à sua volta. Pode muito bem ser verdade isso, mas como eu próprio sou escritor – embora não famoso –, acho que tudo isso não passa de besteiras de minha mente.

Eu comecei a escrever antes mesmo de aprender a ler. Isso mesmo, eu desenhava as letras de modo aleatório numa folha, e ia de tempo em tempo perguntando para minha mãe se eu tinha formado alguma palavra. Após uma extensa combinação de letras sem sentido, eu finalmente formei a minha primeira palavra, por pura sorte. Mamãe disse que eu tinha escrito a palavra BOSTA. Curioso, mas não muito diferente de tudo o que eu vim a escrever depois disso.

Quando pequeno, por volta de meus 7, 8 anos, já alfabetizado, eu andava com um caderno para onde quer que eu fosse. Se eu ia brincar com os meus bonequinhos, meu caderno ia junto; se eu ia jogar bola com os meus primos, o caderno ia também; e se eu ia assistir desenho animado, era a mesma coisa. Eu costumava anotar inúmeras coisas no caderninho, desde os resultados dos jogos com os amigos até o título dos episódios dos desenhos que eu assistia. Eu era tão apegado ao meu caderninho, que quando eu aprontava alguma coisa em casa, o castigo que mamãe me dava era de ficar um mês sem mexer no meu caderno. Ah, e como esse tempo demorava a passar!

É por isso que eu tenho uma teoria que todo escritor no fundo não passa de um sujeito estranho tentando dar vazão à confusão que ele carrega dentro de si através da pena. Sempre que eu não tinha nada para fazer – o que acontecia o tempo todo, já que eu era filho único e por isso muito sozinho –, eu pegava meu caderninho. Então eu comecei a escrever minhas historinhas. De início, eram apenas rascunhos para minhas produções de texto da escola primária, mas logo fugiu dessa responsabilidade escolar, passando a ser apenas um hobbie. Aventurei-me até na criação de histórias em quadrinhos, o que foi uma missão frustrante, porque eu sempre desenhei mal pra caramba.

Continuei a escrever. Se me perguntarem o que me motivava a escrever, posso apontar duas possibilidades. A primeira é que o próprio ato de escrever era relaxante e terapêutico, pois através dele eu externava a minha imaginação fértil, o que acabava por me motivar. Mas isto dá a ideia de um mecanismo retroalimentador, onde a escrita torna-se um fim em si mesmo. Então ofereço uma segunda hipótese, que é a de que minha motivação vinha do sucesso que a história fazia entre amigos e colegas.

Os professores sempre elogiaram minha escrita, no entanto tais elogios não foram tão importantes para minha continuidade no mundo da escrita quanto os elogios de amigos e colegas. Só que minha escrita sempre enfrentou um grande problema: o caráter “micro” de minhas histórias. Por caráter micro, eu quero dizer que minhas histórias sempre penderam para o gênero humorístico, entretanto elas falavam de acontecimentos muito próximos a mim e as pessoas que leriam os textos, o que de certa forma gerava um sentimento de pertença em meus seguidores. Em contrapartida, minhas histórias perdiam o poder de ampla divulgação, já que muitas pessoas ficariam sem entender as piadas internas contidas em meus textos.

Popular entre os amigos e admirado pelos mais próximos, eu provavelmente era tido como um extraterrestre pelas pessoas mais distantes. Como já disse, eu era estranho, como a maioria dos escritores também devem ser. Eu sou aquele cara cujo estômago ronca nas horas mais constrangedoras, sou o cara que peida no trabalho quando todo mundo sai da sala e de repente percebe que alguém está voltando para a sala, ficando na torcida para que o flato não tenha cheiro. Sou o cara que fica na dúvida de como deve cumprimentar a moça que subitamente se aproximou de seu círculo de amigos e está beijando um por um, e por fim opta por beijá-la no rosto também, mas acaba acidentalmente beijando a orelha da moça desconhecida. Sou o cara que vai preencher um formulário de vaga de emprego qualquer e, na dúvida de como preencher, espia o formulário dos demais candidatos na tentativa de obter uma luz para seu impasse.

Estou dizendo tudo isso porque se você lê esse blog e não me conhece pessoalmente, quero que saiba de uma vez que eu não sou nenhum fenômeno, tampouco sou um cara normal, mas sim um cara bem anormal, que foi sempre o magrelo e o baixinho da classe, que usava óculos de fundo de garrafa e tinha a cara repleta de espinhas – sendo apelidado de Chokito pelos sensíveis colegas de classe –, que era (e ainda é) super inseguro, que jamais usava o mictório na escola, somente o banheiro normal com a porta trancada e ainda assim olhando para a divisória lateral enquanto urinava para ver se ninguém ia espiar, que só deu o seu primeiro beijo aos 17 anos de idade, e que espera conseguir perder a virgindade daqui outros dezessete.

Enfim, o fato é que eu perdi a maioria das minhas primeiras produções literárias com o passar dos anos. Como eu escrevia em cadernos, muitas foram para o lixo e provavelmente nem existem mais. O blog Pra Gente Rir serviu de certa forma para que eu não inutilizasse mais os meus textos, bem como para que eu pudesse, daqui 30 anos, quem sabe, rever todas as merdas que eu escrevi no passado. A verdade é que eu sou um desocupado, que não tenho nada para fazer. E já bem dizia o meu saudoso avô: “Não tem nada pra fazer? Enfia o dedo no cu e cheira”. Certa vez eu segui o conselho do meu querido avô, mas como também diz o outro ditado que ele adorava recitar, a mente vazia é oficina do diabo, e escrever e publicar meus textos na internet foi o jeito que eu achei de demitir o diabo da minha mente e parar de ver pornografia na grande rede.

Caros leitores, essa é a história do surgimento do Pra Gente Rir, contada da minha perspectiva. Talvez não seja a história mais romântica, mais bonita, mais épica de todas, mas é a minha história. Como já disse, não quero que você me idealize, achando que eu sou um deus. Não. Eu sou apenas mais um idiota.



P.S. essa história é baseada em fatos reais. Eu só não vou dizer o quanto da história que eu acabei de contar é mesmo real. Que isso fique para a sua imaginação.

sábado, 8 de junho de 2013

x,99


{Este texto não foi muito perspicaz quanto o é a pessoa a quem eu o dedico. Mas mesmo sabendo que não produzi um texto a altura desta pessoa, gostaria de dedicá-lo ao meu amigo andarilho. Muita força, meu querido!}

Aqui perto de onde eu trabalho, tem uma loja que se chama Tem Di Tudo. Se a loja realmente tem de tudo não vem ao caso. Certo dia, uma amiga que trabalha comigo (a Gioconda) me convidou para ir com ela até a Tem Di Tudo para comprar um doce que ela adora. E eu aceitei o convite.

Ao entrar na Tem Di Tudo, não pude deixar de notar que todos os preços curiosamente terminaram com noventa e nove, para meu emputecimento. O doce em questão custava noventa e nove centavos. No entanto, como nem Gioconda, nem eu tínhamos uma moeda de 50, outra de 25, mais duas de 10 e quatro de 4 centavos, fomos obrigados a pagar um real e ficar sem troco algum. Isso mesmo, pois na Tem Di Tudo nem a boa e velha balinha de um centavo não dão.

Sou totalmente contra a balinha como troco, mas também sou contra a filosofia comercial noventaenovesista. Como eu disse, Gioconda adora este doce, é viciada nele, portanto costuma comprá-lo na Tem Di Tudo pelo menos três vezes por semana.

Foi aí que meus conhecimentos matemáticos começaram a entrar em ação. Se Gioconda comprasse um desses doces a cada três dias, após noventa e nove compras ele perderia de ter comprado um centésimo doce, já que este dinheiro teria ficado de graça para a loja nos roubos de um centavo. Mas e se ao invés de comprar um doce por vez, Gioconda passasse a comprar três doces por compra, estocando o restante e voltando a comprar quando estes acabassem? Façamos o calculo: três doces a noventa e nove centavos dá um total de R$2,97. Comprando um doce por vez, minha amiga perderia 3 centavos. Mas comprando três doces ao mesmo tempo, considerando as regras de arredondamento matemático, em que 7 arredonda para 5, minha amiga receberá um troco de 5 centavos. Deste modo, ela não só deixará de ser lesada em três centavos, como passará a se beneficiar em dois centavos a cada compra de três itens de noventa e nove centavos.

Continuando esse raciocínio, Gioconda, após 60 compras desse doce de noventa e nove centavos, teria gasto R$59,40, mas com o roubo dos “uns” centavos, ela teria gasto na realidade sessenta reais. Agora, se ao invés disso, ela comprasse os sessenta doces em vinte compras de três doces cada, veja o cálculo: cada compra de três doces equivale a R$2,97, mas como a loja não dispõe de três moedas de um centavo, ela é obrigada a dar cinco centavos de troco. Então o valor efetivamente pago é de R$2,95, que multiplicado por mais vinte compras iguais equivale a 59 reais. Perceba que, enquanto nas compras individuais o prejuízo é de 60 centavos, nas compras em trio o lucro é de 40 centavos, totalizando uma diferença de 1 real. Então o que seria essa diferença de um real? Simples. Seria um real a mais que oportunizaria a Gioconda comprar mais um doce.

Toda essa discussão pode parecer extremamente boba, uma vez que, seguindo os princípios matemáticos, para a loja, a quantidade de vezes em que ela deixa o cliente no prejuízo e a quantidade de vezes que ela assume o prejuízo se equivalem. No entanto, o cliente tem o poder de deixar o prejuízo SEMPRE do lado da loja. Como? Basta fazer o cálculo do troco, para ver se eles voltarão o troco a mais ou não.

Só de pirraça por ter me irritado com a loja em que todos os preços terminam com noventa e nove (mas que no fim das contas é cobrado o valor arredondado para cima), resolvi fazer este cálculo. Dei essa sugestão para Gioconda e espero que ela siga. Vamos todos fazer isso e quebrar as milhares de Tem Di Tudo espalhadas pelo Brasil!



Minha gratidão a Gioconda da vida real, que me propiciou esta reflexão na verdadeira Tem Di Tudo, inspirando-me a escrever este textículo. Agradeço também a minha outra amiga, carinhosamente chamada de "Filha da Ciência", por ter sugerido o título para esta produção.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Plágio


Este texto foi produzido especialmente para o Blog Pra Gente Rir durante a aula de Análise do Comportamento, aos nove dias do mês de maio de dois mil e treze. Obrigado a todos por calarem a boca e permitirem eu me inspirar nesta magnífica aula.

O plágio é uma coisa muito feia e que Jesus não aprova. Para tentar combater isso pelo menos num certo nível, criaram as ABNTs, obrigando fazer umas citações doidas aí. Mas quando eu falo de plágio, não me refiro ao plágio acadêmico especificamente. Tampouco me refiro a pirataria, que é uma temática para outro momento.

Por ora, quero falar do plágio de livros. Então, eis as categorias dos tipos de plágio:

1 – Plágio Engana Trouxa:
Nesta modalidade, apenas os retardados caem. O Sr. Allan Percy escreveu um livro cujo título no Brasil foi “Nietzsche para Estressados”. No entanto, observe na foto abaixo que a palavra “Nietzsche” aparece maior do que qualquer outra. Por quê? É simples. É para que alguns idiotas achem que estão comprando um livro do famigerado filósofo alemão, quando na verdade estão lendo um idiota que descontextualiza totalmente a obra do pensador, cometendo uma tremenda heresia, numa obra ridícula. Para não dizer que é marcação minha, o mesmo autor lançou um segundo livro, que no Brasil assumiu o título “Kafka para Sobrecarregados”, onde o mesmo princípio anterior foi seguido.

Livro Nit para estresado.

Livro Cafica para sobrecargas.




2 – Plágio Filho da Mãe:
Este é um tipo de plágio comumente irritante. William P. Young ficou famoso no mundo todo após o sucesso de seu livro “A Cabana”. Longe de querer discutir os méritos do livro, quero falar sobre o que aconteceu depois disso. Na sequência, tivemos a publicação do livro “Encontre Deus na Cabana”. No entanto, não foi William P. Young quem escreveu este livro, mas sim um desconhecido, um tal de Randal Rauser. Note nas figuras abaixo como a cor da capa do livro verdadeiro e a do plágio são parecidas. Rauser tomou uma carona no sucesso de Young para ganhar um dinheirinho nessa brincadeira.
Na mesma linha de raciocínio, um dos melhores exemplos é o do mundialmente famoso “O Código Da Vinci”, de Dan Brown, que até foi adaptado para o cinema no filme estrelado por Tom Hanks, Audrey Tauttou, Jean Reno e Sir Ian McKellen. Difícil saber se o sucesso do livro levou a adaptação para o cinema, ou se o filme ajudou a divulgar o livro. O que se sabe é que há pelo menos quatro livros de espertalhões que também tentaram pegar uma rabeira no carro do sucesso de Brown. São eles: “Quebrando o Código Da Vinci”, de Darrell L. Bock, “Revelando o Código Da Vinci”, de Martin Lunn, “Desmascarando o Código Da Vinci”, de James L. Garlow e Peter Jones e “Decifrando o Código Da Vinci”, de Simon Cox. Títulos originalíssimos por sinal, adeptos da corrente gerundista da literatura. Sem comentários esse tipo de oportunismo literário.


O Tugúrio.


Encontre Alá na Choupana.

3 – Autoplágio:
O autoplágio é uma categoria muito peculiar de plágio, onde o sujeito tem a capacidade de plagiar a si mesmo. E esta é a categoria que mais exemplos eu posso dar, devido a fartura de autoplagiadores, que deveriam ser processados por si mesmos e perderem a causa, por tamanha insensatez. O autoplágio é praticado por autores que julgam ter encontrado a fórmula para o sucesso, aí eles, como são pouco criativos e sem personalidade, copiam sua própria ideia e produzem uma obra nova, mas que de novidades tem muito pouco. Então, sem mais delongas, eis alguns exemplos que podemos encontrar nessa longa lista: Gary Chapman, autor cristão e conselheiro sentimental escreveu “As Cinco Linguagens do Amor”, que na minha opinião é um bom livro. Mas o erro dele foi publicar “As Cinco Linguagens do Amor dos Solteiros”, “As Cinco Linguagens do Amor de Deus”, “As Cinco Linguagens do Amor das Crianças”, “As Cinco Linguagens do Perdão”, e por aí vai. Aliás, no campo cristão, lamento dizer, mas há muito disso. Outro exemplo é o de Stormie Omartian, que ficou famosa com o livro “O Poder da Esposa que Ora”. Posteriormente, ela autoplagiou-se e publicou “O Poder da Mulher que Ora”, “O Poder da Criança que Ora”, etc. Recentemente, para sair um pouco do campo cristão, temos a odiada Erika Leonard James, que escreveu o romance pornoerótico “Cinquenta Tons de Cinza”. E tcharam! Ela encontrou a fórmula do sucesso! Posteriormente veio “Cinquenta Tons Mais Escuros” e “Cinquenta Tons de Liberdade”, que basicamente é a conclusão da trilogia da safadeza.

A autora de "Cinquenta Tons de Cinza".



4 – Plágio mediúnico:
O plágio mediúnico é a mais rara de todas as categorias. Sidney Sheldon, um dos romancistas mais populares do mundo, como todos sabem, faleceu em 2007. No entanto, o cara é tão foda que ele já escreveu três livros depois de ter morrido: “A Senhora do Jogo”, “Depois da Escuridão” e “Anjo da Escuridão”. Entretanto, a pessoa mais atenta que observar a capa do livro, saberá que não foi Sidney Sheldon quem escreveu o livro. Nem teria como, não é mesmo? Sidney Sheldon já voltou ao pó! Quem escreveu o livro foi uma pessoa de sexo desconhecido, cujo nome éTilly Bagshawe. Meu primeiro pensamento quando descobri que Sheldon lançou livros depois de morto foi: “meu Deus, o Sr. ou Sra. Bagshawe é médium e está em contato com a alma do Sheldon, que vem ditando seus livros para que escreva e que seus milhões de fãs continuem o apreciando na além-vida!”. Porém, o que acontece é que essa pessoa desprezível (Bagshawe) conseguiu autorização da família para escrever livros e assinar como sendo de Sheldon, fazendo seu pé-de-meia para um futuro casamento.

 
Sidney Sheldon ainda vivo (eu acho).



 
A suposta Tilly Bagshawe, que por sinal é bem "catável", e pra melhorar é cristã (vide pingente em seu pescoço).


 E pra encerrar, o filme "O Sorriso de Mona Lisa", que posteriormente foi plagiado por Leonardo da Vinci, que pintou
um quadro, bautizando-o de "Mona Lisa", inspirado no filme.