domingo, 13 de agosto de 2023

Dia dos Paus

 Uma postagem sobre pandeiristas.

Hoje é dia dos pais.¹ Eu não tenho pai. Perdi contato com o meu genitor aos 4 anos de idade. Segundo minha mãe, ele estava estressado comigo e foi comprar cigarros logo depois de ter me dado uma surra com uma régua de madeira. Disse que voltaria após desestressar um pouco. Presumivelmente, por meio do consumo de nicotina. E nunca mais voltou. Talvez ainda esteja procurando os cigarros. Ou ainda não tenha desestressado. Ou, talvez, essa tenha sido apenas uma desculpa para não assumir a paternidade. Sábio homem!

Bom, essa é a história que a minha mãe conta. Eu não tenho memória sobre o ocorrido. O mais perto que eu possuo de lembrança é o hematoma deixado pela reguada que levei no braço. Mas esse texto não é sobre meu pai. É sobre os pais, em geral. Ou, mais especificamente, sobre pandeiristas.

Hoje de manhã, resolvi quebrar o protocolo e sair de casa. Alguma bobagem dita pelo meu psiquiatra sobre eu precisar de vitamina D, tomar sol e essas baboseiras. Coloquei um fone de ouvido, caminhei a esmo, até que acabei passando em frente a um conjunto de bares. Antes que o leitor malicioso desconfie: não, eu não entrei em nenhum deles. Aliás, quase todos estavam fechados. Algo sobre as pessoas se sentirem socialmente obrigadas a demonstrar afeto àqueles que lhes possibilitaram o "dom" da vida por meio de consumo, compras, almoço e demonstrações públicas de afeto via stories do Instagram. Uma tentativa de ajudar que seus genitores não se deparem com a pergunta com a qual meu pai jamais terá que se confrontar: "por que mesmo eu não dei no pé?"

No entanto, um dos bares estava aberto. Com música ao vivo. Digo "música", mas obviamente essa é uma catacrese.² Provavelmente, pagode. Aquele som apreciado por pessoas sorridentes que parecem que não entenderam o que realmente está acontecido aqui. E que não há muitos motivos para sorrir. O fato é de que, não bastasse os elementos tocarem pagode, havia entre eles um pandeirista. Isso mesmo, leitor. Um pandeirista!

Pandeirista, para quem não sabe, é o músico (rsrsrs) que toca pandeiro. Também chamado de pandeiro, pandeireta e pandeirola. Ou, meu sinônimo preferido, perdedor.

Domingo. Dia dos pais. Eu caminhando. Passando diante de um bar. Com música ao vivo e de qualidade questionável. E um ser tocando pandeiro. Um ser que acordou em um domingo de manhã, arrumou-se, vestiu-se e saiu de casa achando legítima e digna a incumbência de se sentar em um bar para requebrar uma de suas mãos em um pandeiro. E, mais importante, um ser que, salvo se eu estiver enganado e ele for fruto de reprodução assexuada, possui um pai. Um pai que certa noite—manhã ou tarde, vai saber!—engajou-se no ato coital sem saber que contribuiria com seu material genético para que um ser, já em fase adulta, achasse digno ser pandeirista. 

Como é de conhecimento popular, o pandeirista, além de tocar um pseudoinstrumento totalmente irrelevante para o arranjo da banda, só está no grupo musical por ser amigo dos demais integrantes. Ele é tipo aquele irmão café-com-leite, que joga videogame com o controle desconectado, pois ainda não tem idade—ou quociente intelectivo—para participar em pé de igualdade das atividades sociais dos irmãos mais velhos e seus amigos. A prova disso é que, se o pandeirista por um acaso perder a hora, os demais membros sequer se darão conta de que falta alguém para que possam iniciar o show (de horrores). 

Voltando ao assunto... terminei minha caminhada, segurando-me para não chorar, ao pensar na enorme quantidade de pais espalhada por esse país³ que cuidaram de seus filhos, foram presentes, passaram talquinho nos bumbuns de seus bebês, para que esses não ficassem assados... para, no fim das contas, terem seus filhos, em plena adultícia, sentados em bares quaisquer, tocando pandeiro, achando-se minimamente relevantes para o mundo.

Por isso, dedico essa postagem a todos os pais desse Brasilzão. E, especialmente aos pais dos pandeiristas, eu deixo um forte abraço e um carinhoso e singelo recado: a culpa não é de vocês!

Feliz dia dos pais! =D

Procurei fotos de pandeiristas no Google, mas todas aparentemente possuíam direitos autorais. Como não estou em condições financeiras de responder a mais um processo por esse motivo, peço encarecidamente ao leitor que imagine no lugar da imagem acima um pandeirista de sua preferência.


¹ O "paus", no título da postagem, não foi um erro de digitação. Meu assessor de marketing, Rodolfo Britto, disse que um pseudoerro seria bom para os negócios. Tenho lá as minhas dúvidas. É claro que minha desconfiança sobre essa sugestão não está relacionada a ele ter se formado no Instituto Universal Brasileiro. Enfim, decidi seguir o conselho dele. Afinal de contas, ele é pago para isso. E, infelizmente, ele é o único profissional do marketing que eu consigo pagar hoje com o que sobra após eu pagar meus aviõezinhos.

² Segundo o Dicio, catacrese é "uma figura de linguagem através da qual uma palavra é empregada com sentido alterado, em relação à sua real significação, por falta de uma palavra própria: embarcar num trem; folha de papel; enterrar uma agulha na pele". Aplicado ao presente texto, "música" é uma catacrese, na falta de uma melhor expressão para se referir ao conjunto assíncrono de sons produzido por pagodeiros amadores. O que eles faziam era um amontoado de sons, com a patética pretensão de que socialmente eles fossem lidos como músicos. Doravante, de modo a melhorar e legibilidade do texto, omitirei as aspas sempre que eu me referir ao termo "música" no texto. O leitor deve entender que as aspas estarão subentendidas na presente narrativa.

³ Aqueles que não foram comprar cigarro. Ou aqueles que foram, mas que fizeram a besteira de regressar.

domingo, 30 de janeiro de 2022

COVID-19 em 2022

Uma postagem em que o autor escreveu ébrio (e em 2022).

O mundo começou a acabar em 2019, com a COVID-19. Dezenove. Nineteen. "Dezenove", de 2019, obviamente. Estamos em 2022. Mais de 2 anos depois de o mundo começar a acabar. No Brasil, o mundo começou a acabar em 2020. Por volta de março de 2020. É claro, depois do Carnaval. Pois o mundo jamais começaria a acabar durante (ou antes) do Carnaval em território tupiniquim. Não somos animais!

Estamos em 2022. Quase 2 anos e 2 meses desde o fim do mundo na China. Perto de completarmos 2 anos do fim do mundo no próprio Brasil.

Estou vivo ainda. É isso. Mais um pequeno, independente (e que não faz a gente rir) upload.

A seguir, um vídeo representando o atual momento do planetinha Terra (plana):



quinta-feira, 26 de agosto de 2021

10 Anos do Pra Gente Rir

O blog Pra Gente Rir surgiu em 2011. Prestes a completar 10 anos de puro sucesso, o blog traz alegria e momentos de descontração a milhões de brasileiros. [...]

O excerto acima foi redigido por mim, tendo como propósito gerar a publicação de uma postagem comemorativa que comecei a esboçar em março deste ano. Isso porque, pouco tempo depois, o blog completaria 10 anos.

Completaria. Futuro do pretérito do indicativo. Completou. Pretérito perfeito. Se bem que eu não sei o que há de perfeito em ter completado 10 anos e não ter recebido os parabéns. Nem sequer um bolinho.

E mesmo fazendo uma década, eu jamais voltei ao texto que comecei. Comecei e não terminei. Eu nem tive a decência de escrever até o fim o meu texto. Eu fui fraco. Sabem por que fui tão fraco? Porque me faltou ódio.

É isso, caros expectadores e expectadoras desse glorioso país. O Pra Gente Rir está com 10 anos, na UTI e respirando com a ajuda de aparelhos. Quem quiser me fazer um PIX, será muito bem-vindo. Não salvará o blog. Mas com certeza me ajudará a comprar umas balas.

Uma postagem melancólica para um blog com um fim melancólico. Aguardemos novos updates.

sábado, 26 de dezembro de 2020

Um pequeno update

Ao que me consta, diferente deste blog, os autores estão todos vivos. Quanto ao escritor Boretti, não o vejo tem uns dois anos, mas trocamos cartinhas de amor diariamente. Já quanto ao camarada R, não o vejo há mais tempo até, mas algo me diz que ele está vivo. E eu sigo sendo eu, segundo fontes confiáveis.  Com déficit de vitamina D e a cada dia mais albino, mas é a vida. Aparentemente, todos sobrevivemos ao primeiro ano de pandemia. Se gostaríamos de ter sobrevivido, esse já é um debate completamente diferente. Ao que me consta, também, o mundo pandêmico fez com que todos retornassem à famigerada ilha. Fica aqui esse pequeno update, apenas para registrar os rumos que esses fracassados autores tomaram em suas vidas. Os historiadores que façam bom uso, no futuro, desse diário de bordo.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Esse ano eu não escrevi nada no blog

É isso, sociedade. Mas antes que alguém desconfie de algo, sigo vivo. Os demais autores, apesar de mais sumidos do que eu, também.

quinta-feira, 1 de março de 2018

Bosta

Para minha amiga, que foi a inspiração para essa postagem.
P.S.: não estou te chamando de bosta. Embora fique difícil argumentar contra isso, dadas as circunstâncias.

"Ter feito essa postagem foi uma grande cagada"
Eu mesmo sobre a postagem.

Tem dias que são meio bosta.
Já outros, são uma bosta completa.
Hoje o dia se superou.
Não foi nem meio bosta, nem uma bosta completa.
Foi uma bosta e meia.
"Como assim, uma bosta e meia?", você pergunta.
Ué, é tão óbvio: uma bosta e meia. Meia bosta.
O que significa, leigamente, muita bosta.
E matematicamente, uma bosta a mais do que o dia meio bosta.
Se você não entendeu, basta armar a continha, e calcular:













Isso não é um poema.
Isso não é um haiku.
Isso sou eu, pra variar, falando um pouco de merda.
Ou de bosta.

sábado, 7 de outubro de 2017

Metamorfose ambulante

Um texto meio esquizofrênico. Ou sobre simplesmente ir mudando ao longo do tempo.¹


Até algum tempo atrás, eu achava o WhatsApp uma merda. Hoje em dia, assim como para muitas outras pessoas, ele tem sido uma ferramenta praticamente indispensável para mim. Se me perguntassem há cinco anos, eu diria que não curto tatuagens. Se me perguntarem hoje, direi que acho legal. Enquanto antes eu achava a legalização do aborto uma péssima ideia, hoje em dia, eu o considero um mal necessário.

Então, afinal de contas, qual é o ponto? O ponto é que, em muitos aspectos, estamos mudando. E não é apenas fisicamente. Ora passamos de uma opinião mais conservadora para uma mais liberal, ora é justamente o oposto que acontece. E em tempos de grande exposição via mídias sociais, não é muito difícil que a timeline jogue em nossa cara o quão contraditórios – hipócritas? – estamos sendo. Mas a verdade é que não estamos sendo hipócritas ao professarmos opiniões distintas depois de algum intervalo de tempo: nossas experiências, nosso contexto e as pessoas influentes de nossas vidas têm um papel determinante em tais mudanças que, no fim das contas, são genuínas.

Em meio às metamorfoses que sofremos ao longo do tempo, sempre terá alguma pessoa em nossas vidas, que por algum motivo, a vida tratou de afastar – ou terá sido nós mesmos? –, que ao nos reencontrar, dirá algo do tipo: “nossa, mas como você está mudado, você não era assim”. Ou então “não estou te reconhecendo nesses comentários”. Talvez a grande questão seja essa: será que por ser eu ainda o mesmo organismo vivo que seguiu um percurso histórico desde quando fui concebido, alguma essência se mantém? Existe algo em mim – ou em qualquer outra pessoa – que se mantém imutável ao longo do tempo, a despeito das mudanças que ocorrem à nossa volta, ou mesmo do próprio fluxo do tempo?

Mas isso já me traz outro pensamento, que é: e qual é o grande problema em mudar? Isso não deveria ser problemático, pelo contrário, o problema seria nunca mudar, o que denotaria uma rigidez mental e uma dificuldade em aprender a partir das próprias experiências. No entanto, construímos esquemas mentais muitas vezes tão rígidos sobre as pessoas que conhecemos, que não estamos preparados para compreender que esse esquema é apenas uma descrição mais ou menos deturpada do que a pessoa de fato é – ou de quem ela de fato foi, tempos atrás. Aceitar que as pessoas mudam pode ser desafiador porque isso nos coloca em face de aceitar que o lugar seguro ou o conforto de ter um ambiente que não muda é uma ilusão. E isso também lança o desafio de constantemente reaprendermos a amar as pessoas que também estão mudando, e que em algum momento deixarão de ser aquelas pessoas que inicialmente tocaram nossos corações.

Meu nome é Kily, tenho 26 anos, finalmente terminei a faculdade, faz apenas seis anos que comecei esse blog, e cinco anos e meio desde que saí de casa. Pode parecer bem pouco tempo, em um primeiro olhar, mas esse tempo foi o suficiente para eu me tornar uma pessoa bem diferente daquele menino imberbe que, cheio de medos e inseguranças, embarcou em uma loucura e decidiu deixar tudo para trás e se mudar para Brasília e começar uma grande aventura na capital do país. E para aquelas pessoas que me conheceram em diferentes épocas, mas que não se dispuseram ou não puderam, não conseguiram a me conhecer novamente, eu gostaria de simplesmente dizer: muito prazer em (re)conhecê-lo/a, meu nome é Kily. 😀


¹ Com carinho, dedico esse texto para a minha tatuadora oficial. Obrigado por ser minha amiga mesmo em meio a tantas metamorfoses que a vida nos proporciona, Kiwi.