Ao que me consta, diferente deste blog, os autores estão todos vivos. Quanto ao escritor Boretti, não o vejo tem uns dois anos, mas trocamos cartinhas de amor diariamente. Já quanto ao camarada R, não o vejo há mais tempo até, mas algo me diz que ele está vivo. E eu sigo sendo eu, segundo fontes confiáveis. Com déficit de vitamina D e a cada dia mais albino, mas é a vida. Aparentemente, todos sobrevivemos ao primeiro ano de pandemia. Se gostaríamos de ter sobrevivido, esse já é um debate completamente diferente. Ao que me consta, também, o mundo pandêmico fez com que todos retornassem à famigerada ilha. Fica aqui esse pequeno update, apenas para registrar os rumos que esses fracassados autores tomaram em suas vidas. Os historiadores que façam bom uso, no futuro, desse diário de bordo.
sábado, 26 de dezembro de 2020
segunda-feira, 30 de dezembro de 2019
Esse ano eu não escrevi nada no blog
É isso, sociedade. Mas antes que alguém desconfie de algo, sigo vivo. Os demais autores, apesar de mais sumidos do que eu, também.
quinta-feira, 1 de março de 2018
Bosta
Para minha amiga, que foi a inspiração para essa postagem.
P.S.: não estou te chamando de bosta. Embora fique difícil argumentar contra isso, dadas as circunstâncias.
"Ter feito essa postagem foi uma grande cagada"
Eu mesmo sobre a postagem.
Tem dias que são meio bosta.
Já outros, são uma bosta completa.
Hoje o dia se superou.
Não foi nem meio bosta, nem uma bosta completa.
Foi uma bosta e meia.
"Como assim, uma bosta e meia?", você pergunta.
Ué, é tão óbvio: uma bosta e meia. Meia bosta.
O que significa, leigamente, muita bosta.
E matematicamente, uma bosta a mais do que o dia meio bosta.
Se você não entendeu, basta armar a continha, e calcular:
Isso não é um poema.
Isso não é um haiku.
Isso sou eu, pra variar, falando um pouco de merda.
Ou de bosta.
P.S.: não estou te chamando de bosta. Embora fique difícil argumentar contra isso, dadas as circunstâncias.
"Ter feito essa postagem foi uma grande cagada"
Eu mesmo sobre a postagem.
Tem dias que são meio bosta.
Já outros, são uma bosta completa.
Hoje o dia se superou.
Não foi nem meio bosta, nem uma bosta completa.
Foi uma bosta e meia.
"Como assim, uma bosta e meia?", você pergunta.
Ué, é tão óbvio: uma bosta e meia. Meia bosta.
O que significa, leigamente, muita bosta.
E matematicamente, uma bosta a mais do que o dia meio bosta.
Se você não entendeu, basta armar a continha, e calcular:
Isso não é um poema.
Isso não é um haiku.
Isso sou eu, pra variar, falando um pouco de merda.
Ou de bosta.
sábado, 7 de outubro de 2017
Metamorfose ambulante
Até
algum tempo atrás, eu achava o WhatsApp uma merda. Hoje em dia, assim como para muitas outras
pessoas, ele tem sido uma ferramenta praticamente indispensável para mim. Se me
perguntassem há cinco anos, eu diria que não curto tatuagens. Se me perguntarem
hoje, direi que acho legal. Enquanto antes eu achava a legalização do aborto
uma péssima ideia, hoje em dia, eu o considero um mal necessário.
Então,
afinal de contas, qual é o ponto? O ponto é que, em muitos aspectos, estamos
mudando. E não é apenas fisicamente. Ora passamos de uma opinião mais
conservadora para uma mais liberal, ora é justamente o oposto que acontece. E
em tempos de grande exposição via mídias sociais, não é muito difícil que a timeline jogue em nossa cara o quão
contraditórios – hipócritas? – estamos sendo. Mas a verdade é que não estamos
sendo hipócritas ao professarmos opiniões distintas depois de algum intervalo
de tempo: nossas experiências, nosso contexto e as pessoas influentes de nossas
vidas têm um papel determinante em tais mudanças que, no fim das contas, são genuínas.
Em
meio às metamorfoses que sofremos ao longo do tempo, sempre terá alguma pessoa
em nossas vidas, que por algum motivo, a vida tratou de afastar – ou terá sido
nós mesmos? –, que ao nos reencontrar, dirá algo do tipo: “nossa, mas como você está mudado, você não
era assim”. Ou então “não estou te reconhecendo nesses comentários”. Talvez a
grande questão seja essa: será que por ser eu ainda o mesmo organismo vivo que
seguiu um percurso histórico desde quando fui concebido, alguma essência se
mantém? Existe algo em mim – ou em qualquer outra pessoa – que se mantém imutável
ao longo do tempo, a despeito das mudanças que ocorrem à nossa volta, ou mesmo
do próprio fluxo do tempo?
Mas
isso já me traz outro pensamento, que é: e qual é o grande problema em mudar?
Isso não deveria ser problemático, pelo contrário, o problema seria nunca
mudar, o que denotaria uma rigidez mental e uma dificuldade em aprender a partir das próprias
experiências. No entanto, construímos esquemas mentais muitas vezes tão rígidos
sobre as pessoas que conhecemos, que não estamos preparados para compreender
que esse esquema é apenas uma descrição mais ou menos deturpada do que a pessoa
de fato é – ou de quem ela de fato foi, tempos atrás. Aceitar que as pessoas
mudam pode ser desafiador porque isso nos coloca em face de aceitar que o lugar
seguro ou o conforto de ter um ambiente que não muda é uma ilusão. E isso
também lança o desafio de constantemente reaprendermos a amar as pessoas que
também estão mudando, e que em algum momento deixarão de ser aquelas pessoas que
inicialmente tocaram nossos corações.
Meu
nome é Kily, tenho 26 anos, finalmente terminei a faculdade, faz apenas seis
anos que comecei esse blog, e cinco anos e meio desde que saí de casa. Pode
parecer bem pouco tempo, em um primeiro olhar, mas esse tempo foi o suficiente
para eu me tornar uma pessoa bem diferente daquele menino imberbe que, cheio de medos e
inseguranças, embarcou em uma loucura e decidiu deixar tudo para trás e se mudar para Brasília e
começar uma grande aventura na capital do país. E para aquelas pessoas que me
conheceram em diferentes épocas, mas que não se dispuseram – ou não puderam, não conseguiram – a me conhecer novamente, eu
gostaria de simplesmente dizer: muito prazer em (re)conhecê-lo/a, meu nome é Kily. 😀
¹ Com carinho, dedico esse texto para a minha tatuadora oficial. Obrigado por ser minha amiga mesmo em meio a tantas metamorfoses que a vida nos proporciona, Kiwi.
sábado, 24 de junho de 2017
Texto Sem Título
Um texto sobre provas ilegítimas¹ ².
- Bete, meu amor, este vídeo é claramente ilegítimo, e prová-lo-ei no presente instante. Falar-lhe-ei claramente o que se passou. De fato, eu entrei no carro com a Jane, minha colega de equipe na empresa. Mas o carro que entrou no motel não corresponde ao carro em que entramos no início da cena. Claramente, há cortes no vídeo. E isso só pode ser coisa de inimigos que estão tentando me difamar. Sê-lo-ia a explicação mais razoável.
Bete, por óbvio, não aceita as explicações do marido. Ao invés de entrar em uma discussão infinita, ela avança na apresentação das provas, entregando a Robson fotografias dele com Jane, entrando no motel. Robson, rebate agora tais provas com a maior calma deste mundo:
- Bete, você por um acaso tinha autorização para me filmar e me fotografar? Fá-lo-ei que saiba que é mister autorização legal para tais documentações. Não permiti-lo-ei que me acuse com tais provas ilegítimas.
De queixo caído, Bete observa Robson deslocar, descaradamente, o foco da discussão do conteúdo da prova para a legitimidade do material enquanto prova.
O pequeno texto acima, embora fictício e absurdo, visa ilustrar um cenário que vem ocorrendo na política nacional. Pouco tempo após a divulgação de áudios de uma conversa envolvendo o presidento e um empresário corrupto, me parece que os advogados do presidento estão tentando deslocar o foco do conteúdo da prova contra ele, para a legitimidade da gravação do áudio e de seu uso como prova³. Em certo sentido, é como se, ao provar que do ponto de vista jurídico o áudio foi feito de forma ilegal, automaticamente apagasse todo o conteúdo do diálogo pelo áudio explicitado. Como se desse para passar a borracha sobre os fatos agora conhecidos, e seguir adiante. Da mesma forma, se exageradamente fizermos uma analogia dos fatos políticos para a história de Bete, as informações obtidas pelo detetive, caso realmente ilegítimas, não teriam valor. Quem, em sã consciência, daria ênfase maior para os meios pelos quais Bete obteve suas informações, do que para o caráter imoral dos comportamentos de Robson? Sem querer me estender, deixo aqui esta reflexão.
Considere a seguinte cena: Bete, que vem desconfiando de infidelidade marital por parte de Robson, coloca um detetive para investigá-lo. O detetive, de forma mui competente, não só rastreia os encontros de Robson com uma colega de trabalho, como também documenta as provas para entregar para sua cliente. Bete, indignada com a traição, porém querendo manter a compostura, decide que irá confrontar Robson naquela noite, quando ambos chegarem em casa do trabalho. Quando este chega, poucos minutos após a chegada dela própria, Bete revela sua desconfiança, a contratação do detetive, as provas produzidas, e apresenta para um estarrecido Robson os vídeos dele entrando em um carro com sua colega de trabalho e, posteriormente, entrando com o veículo em um estacionamento de motel. Ao terminar de falar tudo o que queria, Bete concede a palavra a Robson, até então totalmente calado. Este, então, argumenta:
- Bete, meu amor, este vídeo é claramente ilegítimo, e prová-lo-ei no presente instante. Falar-lhe-ei claramente o que se passou. De fato, eu entrei no carro com a Jane, minha colega de equipe na empresa. Mas o carro que entrou no motel não corresponde ao carro em que entramos no início da cena. Claramente, há cortes no vídeo. E isso só pode ser coisa de inimigos que estão tentando me difamar. Sê-lo-ia a explicação mais razoável.
Bete, por óbvio, não aceita as explicações do marido. Ao invés de entrar em uma discussão infinita, ela avança na apresentação das provas, entregando a Robson fotografias dele com Jane, entrando no motel. Robson, rebate agora tais provas com a maior calma deste mundo:
- Bete, você por um acaso tinha autorização para me filmar e me fotografar? Fá-lo-ei que saiba que é mister autorização legal para tais documentações. Não permiti-lo-ei que me acuse com tais provas ilegítimas.
De queixo caído, Bete observa Robson deslocar, descaradamente, o foco da discussão do conteúdo da prova para a legitimidade do material enquanto prova.
O pequeno texto acima, embora fictício e absurdo, visa ilustrar um cenário que vem ocorrendo na política nacional. Pouco tempo após a divulgação de áudios de uma conversa envolvendo o presidento e um empresário corrupto, me parece que os advogados do presidento estão tentando deslocar o foco do conteúdo da prova contra ele, para a legitimidade da gravação do áudio e de seu uso como prova³. Em certo sentido, é como se, ao provar que do ponto de vista jurídico o áudio foi feito de forma ilegal, automaticamente apagasse todo o conteúdo do diálogo pelo áudio explicitado. Como se desse para passar a borracha sobre os fatos agora conhecidos, e seguir adiante. Da mesma forma, se exageradamente fizermos uma analogia dos fatos políticos para a história de Bete, as informações obtidas pelo detetive, caso realmente ilegítimas, não teriam valor. Quem, em sã consciência, daria ênfase maior para os meios pelos quais Bete obteve suas informações, do que para o caráter imoral dos comportamentos de Robson? Sem querer me estender, deixo aqui esta reflexão.
¹ Um pequeno update, depois de bastante tempo sem escrever. Não sei mais escrever. Sorry.
² Sempre prometo que não vou mais falar sobre política. Mas acabo voltando ao tema.
³ Obviamente, não estou descartando a importância da discussão de que as provas, em contexto jurídico, sejam obtidas por meios legais. No entanto, este não é o objetivo do texto, e sim problematizar o fato de como facilmente se tem deslocado o foco da discussão, como se o conteúdo dos áudios fosse tema de menor importância.
quinta-feira, 22 de dezembro de 2016
Make Pra Gente Rir Great Again!
Primeira derradeira única postagem de 2016.¹
Ontem, para minha surpresa, recebemos na Caixa Postal do Pra Gente Rir uma correspondência vinda diretamente de Portland, ME, Estados Unidos! O remetente, um mancebo de dezesseis anos, se declarou um grande fã de nosso brógui, e se mostrou preocupado com a ausência de postagens no ano de 2016. Pra quem não sabe, no próximo dia 25 completaríamos um ano desde a última postagem.
Pois é, o ano de 2016 foi atípico. Tivemos um cenário político nacional com ares de roteiro hollywoodiano, com direito à queda de chefes de dois dos três poderes, inclusive, com um deles tendo a pachorra de encenar um choro sem lágrimas quando cassado, além do absurdo pedido por intervenção militar feito por populares. Também tivemos eventos dolorosos, como o Bob Dylan ganhando o prêmio Nobel de literatura, com a morte do Mestre Linguiça e principalmente com o recente acidente aéreo que vitimou a delegação da Chapecoense e a imprensa esportiva. Eu diria que em 2016 as coisas foram, no mínimo, estranhas.
Além disso, com a correria de outros compromissos que eu, Kily, assumi ao longo do ano - com meu canal no Youtube, com uma coluna semanal em um jornal impresso, e com a autobiografia que estou escrevendo (sobre mim mesmo) -, o blog acabou ficando em segundo plano (leia-se: último plano). Se por um lado podemos pensar nesse ano como um ano sabático, para descanso e renovação de ideias para o futuro do blog, por outro, devo pedir minhas mais sinceras desculpas para nossa legião de fãs, que vão de Portland, no Maine, até Guaianazes, na Zona Leste (leia-se: área nobre) de Sampa. Peço perdão a todas e a todos por minha displicência. Podem até me chamar de Malakoi, pois eu mereço.
Voltando à correspondência a qual fiz referência no introito, entrei em contato com nosso fã, pedindo autorização para reproduzir o conteúdo da missiva aqui, pois creio que ela retrata o sentimento de muitos outros fãs. Com a devida autorização, a seguir reproduzo o texto original contido na carta, bem como uma livre tradução do mesmo. E, ao final, também acrescento uma reprodução da ilustração que o jovem fez como forma de incentivo aos idiotas dos escritores do blog.
Expensives Borette, Killer and Are
My name is Robinson, I possess ten and six anus of age, and I'm a To the People Laugh's great fan. I belt much lack of heaven blog posts. By favor, go back to write to stop me to stay plus happy. I love grandpa six. You trees safe a lot lawful. Marry Xmas (or Hanukkah, if you're jewish)! :D
Livre tradução:
Caros Boretti, Kily e R
Meu nome é Robson, eu tenho dezesseis anos de idade, e eu sou um grande ventilador fã do Pra Gente Rir. Eu sinto muita falta de seus posts no blog. Por favor, voltem a escrever para que fique mais feliz. Eu amo vocês. Vocês árvores três são muito legais. Se casem com o Feliz Natal (ou Hanukkah, se vocês forem judeus)! :D
O conteúdo da carinhosa epístola que recebemos.
O desenho que o filho do Rob nos fez, com uma frase inspirada no bordão
de um vitorioso estadista local: "Faça o Pra Gente Rir grande novamente!"
Robson, saiba que a sua mensagem me motivou particularmente a continuar tocando o blog. E é por causa de você e de todos os milhões de fãs e de seguidores do Pra Gente Rir que você simboliza, que decidi que, mesmo já estando rico com os anúncios do blog e com os comerciais de televisão que fiz por conta dele, continuarei tocando o blog, e trazendo muitas novidades para o ano de 2017!
Então é isso, gente, nos esperem em 2017, com um novo Pra Gente Rir, com textos engraçadíssimos (pra gente rir), com canais interativos com os leitores, com novas promoções e com sorteios de viagens para a Disney e para a Caravana Cristã em Jerusalém. Vocês não podem perder!
Até ano que vem!
¹ Não joguem na Mega Sena da virada. Obrigado. De nada.
sexta-feira, 25 de dezembro de 2015
Gervásio
Última postagem de 2015.¹
Gervásio adentrou a lotérica, pegou um volante da Mega Sena, para fazer sua fezinha. Tinha prometido para Dona Elizete, a senhora sua esposa, que não apostaria mais o dinheiro por ele ganho a duras penas. Contudo, o ocorrido da noite derradeira lhe fora muito significativo: Gerônimo, seu finado irmão, lhe aparecera em sonho, em meio a uma aura luminosa, dizendo que sua sorte estava para mudar. Bastaria a Gervásio seguir seu conselho e jogar na sequência que seu irmão lhe recomendara.
E Gervásio, homem de fé, decidiu obedecer. Já havia jogado na Mega Sena centenas de vezes. Perdera mais de um milhar de reais na jogatina, mas sempre sonhara de que sua vez chegaria. Contudo, recentemente, Dona Elizete batera o pé, brigando com Gervásio, dizendo que ele deveria parar com as apostas. Era isso, ou largar a já sagrada cerveja de sexta-feira após o expediente. Tendo que escolher entre o certo e o improvável, Gervásio usara os neurônios, e optara pela birita. Considerando-se um homem de palavra, Gervásio mantivera a promessa feita à esposa até então, sob pena de ser abandonado pela patroa. Com as constantes dificuldades financeiras enfrentadas pelo clã, Gervásio não podia se dar ao luxo de desperdiçar sete contos semanais, o que totalizava quase meio salário corrente. Ainda mais com mulher e mais três bocas pra alimentar.
No entanto, o sonho fora tão intenso, que Gervásio decidira faltar com sua palavra apenas uma vez. "A mulé há de entender", pensou Gervásio, justificando-se. Quando visse a bolada que haviam ganhado, a promessa quebrada não significaria nada. Com a caneta nas mãos trêmulas de emoção, Gervásio assinalou os números 4, 8, 15, 16, 23 e 42, conforme lembrava que Gerônimo lhe falara em sua elaboração onírica. Enfrentou a fila, enquanto já se deleitava antecipadamente com o destino que daria para o prêmio que receberia em breve. Entraria em 2016 com o pé direito!
A fila estava grande. Assim como ele, muitas pessoas sonhavam com a mudança de vida que a bolada da Mega Sena lhes propiciariam. Sentiu pena dos demais jogadores. Afinal de contas, a ele fora concedida a divina revelação, por meio da figura de seu santo e falecido irmão, da sequência a ser sorteada dali a algumas horas. Chegara a sua vez. Concretizara a aposta. Para os três e cinquenta. A atendente entregou seu recibo, contendo o número apostado. E assim fora selado seu maravilhoso destino.
Foi para casa, cantarolando, assobiando de felicidade. Quando lá chegou, Dona Elizete estava na rua. Os meninos se atracavam num misto de brincadeira e briga. Um deles pedira socorro ao pai, para que este tomasse partido na briga. Entretido que estava com seus botões, Gervásio seguira para o quarto. Lá, fechou a porta, pensando onde esconderia o bilhete até saber do resultado. Abriu o guarda-roupa. Olhou para seu paletó, o mesmo que usara no dia em que desposara Dona Elizete. Abriu o paletó, inserindo o bilhete no bolso interno de sua roupa preferida, que usara apenas no dia do matrimônio, e mesmo assim guardara com enorme carinho.
Saiu. Voltou. Almoçou com a família. Conversaram trivialidades. Saiu novamente, agora com toda a família. Passearam. Passaram pela frente de uma sorveteria. Ao ouvir os filhos lhe pedirem por sorvete, sentiu um aperto no coração, uma vez que não tinha um trocado no bolso. Tal aperto, contudo, se desvaneceu, ao pensar que, dentro de poucas horas, não só compraria os sorvetes para os filhos, como a própria sorveteria, a padaria, o mercadinho e até mesmo o açougue... ah, o açougue!
De noitinha, Gervásio inventou uma desculpa para Dona Elizete, para poder sair. Queria ir no Bar do Tonho, onde o sorteio era transmitido ao vivo pela TV. Deixara o bilhete em casa mesmo, justificando para si mesmo que já sabia de cor os números em que jogara. Sentado no bar, pedira para Tonho fiar-lhe uma cerveja. Com um resmungo, Tonho entregara-lhe garrafa e copo. Gervásio começou a bebericar a cerva, enquanto aguardava o início do sorteio, com uma ansiedade enorme.
E eis que inicia o sorteio. O primeiro número que sai é o 16. Gervásio sorri, cheio de fé. A seguir, sai o 42. A revelação do sonho de fato fora real! E assim, número após número, Gervásio vê seu sonho se concretizar, até que a última bola, o 23, torna realidade aquilo que ele já antegozara o dia todo: estava milionário! Com o coração a mil por hora, conteve o grito que estava entalado em sua garganta - afinal de contas, era melhor afastar qualquer olhar invejoso que viesse a cobiçar seu prêmio -, levantando para se dirigir para casa, contar as boas novas para a companheira.
Assim que se levantou, Gervásio sentiu as pernas moles. Quase caiu no chão, mas conseguiu manter-se de pé. Nunca vivenciara um estado de emoção tão intenso. Nem quando selara diante de Deus sua união com Dona Elizete. Começou a caminhar, ofegante. Sentiu a palma das mãos suando. Além de sudorese, midríase, hiperventilação e taquicardia, assim que saiu do recinto, sentiu a garganta se fechar. Agora, sem mais conseguir respirar, sentiu o desespero a tomar-lhe conta. Junto com a dificuldade para buscar oxigênio, o peito subitamente começou a doer, de tal forma que Gervásio nem teve tempo de tomar consciência de que era vitimado por um ataque cardíaco fulminante. E assim, morria Gervásio, pobre, mas teoricamente, um milionário.
Ao ver Gervásio caído na calçada, os bêbados do bar o acudiram. Os mais sóbrios logo o identificaram, e um deles assumiu a difícil tarefa de anunciar para Dona Elizete que agora ela enviuvara. Após a trágica revelação, em que Dona Elizete precisou ser amparada pela vizinha, tudo se sucedeu de forma automática. O reconhecimento do corpo de Gervásio, o contato com a funerária, o aviso aos demais parentes, e a escolha da roupa com a qual o marido seria enterrado. Dona Elizete, entorpecida, acabou por escolher o paletó que o recém morto utilizara no casório deles. Escolha esta da qual ela veio a se arrepender amargamente dias depois. Afinal de contas, ela remetia a um dos momentos mais felizes que Dona Elizete tivera com o marido. O dia do "sim".
O paletó foi levado até a funerária, onde o agente vestiu o cadáver, com certa dificuldade, uma vez que este já atingira o rigor mortis. E eis que Gervásio foi velado, homenageado, aplaudido, despedido e enterrado com seu paletó, levando literalmente ao túmulo o segredo de sua premiação milionária na Mega Sena da virada.
¹ Não atingi minha meta de publicar 24 textos no ano de 2015, mas que se dane também. Eu já tô rico mesmo. Nem preciso disso aqui. Beijos, e até 2016! =D
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